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Guerras começam por ideias e são combatidas por homens manipulados por códigos e pelo medo. Sempre parece algo maior, mas, no fundo, é sobre poucos indivíduos incapazes de conter o próprio ego. Qualquer guerra que se prolonga por tempo demais deixa de ser sobre o bem comum para ser sobre: “vou te provar que estou certo“. Nessa fase, os homens destroem tudo o que consideram sagrado, a começar pelos seus próprios códigos. Como diria Chico Science, “o medo dá origem ao mal“. Quando menos se percebe, você se torna o mal que tanto desprezava. Será possível conquistar o perdão e simplesmente voltar atrás? Os deuses vão te perdoar? Esqueça os deuses… você é capaz de se perdoar? A Odisseia (2026), de Christopher Nolan, é liricamente sobre um homem encarando a própria sombra no espelho, tentando entender se ainda é possível salvar-se da própria desgraça.

No papel da sua vida, Matt Damon interpreta um Odisseu que surge como um guerreiro que tenta recordar a própria jornada, travando sua maior batalha internamente. Ele já não reconhece a própria imagem nem o seu lar, pois distanciou-se tanto da sua essência que aquelas figuras deixaram de ser sua base. As canções gloriosas entoadas por aí sobre ele e seus guerreiros em Troia só o fazem chorar de desgosto, pois o que viveu ali foi o momento da própria condenação da civilização.

Crítica de A Odisseia
Reprodução/Universal Pictures

A interpretação de Nolan para A Odisseia concebe a história como a constatação de um ciclo. Civilizações nascem e morrem, condenadas a repetir os mesmos erros. Há uma pretensão estratosférica na forma como o diretor insere, quase didaticamente, os avisos dos deuses. Eles funcionam como uma alegoria sobre como somos alertados, a todo momento, de que caminhamos para a ruína e, ainda assim, ignoramos os sinais e abraçamos aqueles que aceleram a nossa própria condenação. O diretor talvez seja muito otimista achando que o filme será capaz de fazer a nossa civilização enxergar os próprios pecados, mas não dá para julgá-lo por tentar.

Geralmente, a pretensão de Nolan torna seus filmes pedantes. Aqui, não. A Odisseia é uma história pretensiosa por natureza — é um épico. A fé e a visão do cineasta sobre o mundo e a própria arte transformam o filme em algo singular, mesmo vindo de uma obra adaptada um zilhão de vezes.

Crítica de A Odisseia
Reprodução/Universal Pictures

Não há um frame em A Odisseia que não seja gananciosamente pretensioso, e é exatamente isso o que engrandece o espetáculo a um nível que o cineasta jamais alcançou anteriormente. Basicamente, a forma e o estilo de Nolan deram um match divino com a obra de Homero.

Não precisa ser em IMAX. Qualquer sala com um sistema de som razoável é capaz de entregar uma experiência engrandecedora, pois a mixagem sonora aqui é uma verdadeira obra de arte. É possível sentir as cenas de navegação em volume. A tela treme, a sala vibra e o sentimento de medo diante da revolta é transposto da tela para o assento. Sensorialmente, esta é a obra-prima de Nolan.

O cineasta, inclusive, usa essa abordagem sensorial para brincar com gêneros que não são tão associados a ele, como o terror. A mão do cara vai do mal irrastreável, à la Alien, até o body horror. E, ao contrário do que acontece em Tenet (2020), onde ele empobrece a ação por insistir no factual, Nolan consegue usar sua vocação para o efeito prático de um jeito que eleva a cena.

Crítica de A Odisseia
Reprodução/Universal Pictures

Olhando para as obras anteriores, você nota que o movimento de câmera era protagonista na abordagem sensorial. Em A Odisseia isso continua lá, claro, mas o repertório está muito maior. Desde o uso de lentes para provocar confusão, até itens de cenário — como tapetes e cortinas entre a câmera e o personagem em foco —, tem um trabalho de imagem minuciosamente elaborado. Sim, Nolan ainda se explica, mas, pela primeira vez na carreira, ele deixa a tela falar mais que os personagens.

Acredito que você já tenha percebido que tenho escrito sobre como este é o filme mais bem resolvido de Nolan. É comum encontrar na filmografia dele obras que se destacam mais pelo drama, pela atmosfera ou pela ação, mas o novo projeto do cineasta funciona como um bloco homogêneo, com todos os departamentos se complementando e tendo a mesma densidade. A brilhante trilha sonora de Ludwig Göransson, por exemplo, não é um mero artefato para aguçar sentimentos ou dar gravidade à atmosfera cênica. Ela faz parte da história. É um trabalho muito próximo do que vimos em Pecadores (2025), se você quiser um bom ponto de comparação.

Crítica de A Odisseia
Reprodução/Universal Pictures

Não é segredo que Nolan tem um fandom emocionado. A Odisseia é o primeiro filme que, de fato, justifica incontestavelmente o status a que seus fãs o elevaram. É uma realização técnica impecável e, portanto, de longe, o melhor filme da sua carreira. É o seu magnum opus. Se passou a vida toda tentando replicar seu grande ídolo, David Lean, fazendo o seu próprio Lawrence da Arábia (1962), Nolan talvez não tenha criado algo tão grandioso quanto um dos maiores filmes da história, mas entregou um épico de impacto similar, que perdurará por nossa era como a versão definitiva de uma epopeia milenar.

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Nota 10


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