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Em julho, assisti a um showcase exclusivo da Lupa Filmes e, entre várias prévias, conferi a sequência de abertura completa de Abraço de Mãe (2024). Durante a apresentação, André Pereira, co-fundador da produtora, revelou que acabara de retornar do México, onde houve uma apresentação para possíveis distribuidores. O filme é um terror lovecraftiano ambientado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na época, tive a mesma dúvida que você pode estar tendo agora ao ler isso: como conseguiriam vender o projeto como cinema de gênero com esse título?

Crítica de Abraço de Mãe
Reprodução/Lupa Filmes

Bem, tenho minha própria opinião sobre os títulos da Lupa Filmes, acho no mínimo exóticos — Mato Sem Cachorro (2013) e A Vilã das Nove (2024) que o diga. No entanto, isso tem pouco ou nenhum impacto no que é Abraço de Mãe (2024): um bom filme de terror.

O maior erro de quem tenta fazer cinema de gênero no Brasil é, em uma tentativa de atrair o público, copiar involuntariamente tropos culturais norte-americanos, descolando a substância da ambientação. A Lupa Filmes surgiu como produtora atacando esse problema e criando produções realmente identificáveis.

Não é diferente com Abraço de Mãe (2024): embora a abertura, com uma atração de parque bizarra, remeta a algo estrangeiro, a ambientação no Rio de Janeiro é muito eficaz para evitar qualquer tom genérico. Essa eficácia começa a partir da trama, que nos transporta para 1996, quando uma tempestade real vitimou 200 pessoas e deixou mais de 30 mil desabrigados na capital fluminense.

Reprodução/Lupa Filmes

Além de ser um importante recurso narrativo, a chuva é usada de forma inteligente para evocar densidade em tela. Convenção básica: chuva dá volume às cores, e Abraço de Mãe (2024) tem um trabalho de iluminação competente, que é bem explorado pela dupla de diretores de fotografia Franco Cerana e Leandro Pagliaro.

Esse ar quase sólido de cores igualmente alarmantes e atraentes, constituído no segundo ato, possui um grande poder de prender o público, registrando, sem dúvida, o momento mais intenso do filme. O que se segue, no entanto, é um pouco decepcionante.

Existe substância em Abraço de Mãe (2024), esta é uma história sobre aprender a conviver com traumas e dores. Entretanto, o filme merecia um melhor tratamento de texto.

Interpretando a major do corpo de bombeiros, Ana, Marjorie Estiano entrega mais uma atuação de destaque no gênero terror. Sua personagem é construída de forma bastante interessante, mas acaba sendo prejudicada pela falta de aprofundamento do roteiro no terceiro ato, o que a leva a assumir atitudes questionáveis que podem afastar o público.

Sem se aprofundar em spoilers, há uma sequência específica em que Ana, ciente de que as aparências enganam, ouve outro personagem mencionar um rádio. O espectador, no entanto, sabe que a informação dele é falsa, uma vez que, pouco antes, Ana utilizou esse mesmo rádio para pedir socorro. A contradição é evidente: se o rádio estava com ela, como outro personagem o utilizou? A surpresa de Ana diante dessa situação é, portanto, pouco verossímil.

Reprodução/Lupa Filmes

Confesso que também me senti frustrado com a falta de aprofundamento de alguns temas interessantes apresentados na trama. A chamada para atender uma denúncia de desabamento em um asilo, que envolve Ana e sua guarnição, revela uma situação intrigante: quase ninguém ali deseja ser salvo. A forte sugestão de uma seita religiosa, insinuada por frases como “a salvação é para quem quer ser salvo“, permanece apenas como um esboço.

Quanto a esse ponto, sinto que o diretor argentino Cristian Ponce e sua equipe quiseram tanto entregar um filme sólido, que Abraço de Mãe (2024) ficou seguro demais ao evitar se comprometer com temas mais complexos. O resultado é bom, intrigante, mas falta ousadia.

De todo modo, a performance de Marjorie Estiano, cuja arco lembra bastante o de Ellen Ripley em Aliens: O Resgate (1986), é suficientemente atraente para que esses problemas sejam considerados como contratempos indesejáveis. Quando o filme se transforma em um survival, a atriz paranaense impõe-se em cena à altura das grandes final girls da história do cinema.

Reprodução/Lupa Filmes

Em suma, pode-se dizer que Abraço de Mãe (2024) é cinema de gênero bem executado no Brasil, que embora não seja marcante em substância, é bastante atrativo em estilo. Sem dúvida uma boa pedida para o Halloween.

Quanto à pergunta que me fiz há alguns meses sobre se a Lupa Filmes conseguiria vender o projeto com esse título, a resposta é sim! Abraço de Mãe (2024) será lançado pela Netflix na próxima quarta-feira, 23 de outubro.

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Nota 7