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Após se tornar uma celebridade por matar Murray Franklin (Robert De Niro) em rede nacional e ver seus crimes transformados em espetáculo pela indústria do entretenimento, o doente e antes ignorado Arthur Fleck, mesmo preso, é uma enorme ameaça para Gotham City. Cheio de seguidores fiéis, sua personalidade niilista, agora conhecida como Coringa, explora o fascínio que sua psiquiatria tem à sua figura, e a convence a ajudá-lo a fugir do Arkham sob a promessa de uma noite de anarquia.

A partir daí, a trama se desenrola em uma sequência impactante de rebelião e fuga, com uma Gotham em chamas, sendo testemunha do que, na cabeça dos protagonistas, é um grande espetáculo musical. Em algum ponto, tudo sai — ainda mais — do controle, e quando o relacionamento tóxico do louco com sua psiquiatra entra em conflito, o Coringa é vítima de seu próprio legado de violência e a festa sangrenta acaba.

Esse filme, no entanto, só existe na minha cabeça como algo que Coringa: Delírio a Dois (2024) poderia ser. A sequência, na verdade, é uma obra autoreferencial que, em um ato de egocentrismo, parece acreditar ser mais importante do que realmente é: uma espécie de carta de ódio ao longa original de 2019 e ao seu público.

Bem, preciso ser justo. Não posso julgar nenhum filme pelo que eu esperava que fosse, mas sim pelo que é. Mas o que Coringa: Delírio a Dois (2024) é?

Lady Gaga como Lee em Coringa Delírio a Dois
Reprodução/Warner Bros. Discovery

Vamos começar pela história, certo? Arthur Fleck, apesar de ter muitos admiradores e gostar dessa atenção, é um homem quebrado, triste e solitário, que perdeu as esperanças na vida. O personagem, no entanto, acredita ter encontrado um novo propósito ao se apaixonar loucamente por uma mulher, após simplesmente trocar olhares com ela no Arkham. Essa moça, por algum motivo muito mal explicado, também é obcecada por ele. Na verdade, não por ele, mas por sua personalidade niilista, o Coringa.

A Arlequina de Lady Gaga, tal qual o ‘cão canjiquinha‘, passa o filme inteiro tentando convencer Arthur a voltar a usar sua maquiagem e assumir consciência em seus crimes. Seu objetivo? Bem, ela supostamente quer que ele inspire mais pessoas a serem anarquistas. Por quê? Provavelmente, o diretor Todd Phillips acreditou em parte da crítica especializada, e reconheceu seu ‘super relevante’ filme de 2019 como uma extrema má influência para os jovens de todo o globo terrestre.

Arthur, entretanto, resiste inicialmente às provocações, pois, ‘quem tem…, tem medo‘ e ele está correndo risco de ir para a cadeira elétrica. Por isso, está disposto a reforçar o argumento de sua advogada sobre sofrer de transtorno dissociativo de identidade. Ou seja, a defesa alega que ele é um homem doente, que tem que ser tratado e não eliminado.

Ele só decide virar o Coringa novamente após Lee (Lady Gaga), de alguma forma ainda mais mal explicada, conseguir acesso à sua cela para protagonizar uma das cenas de sexo mais incrivelmente brochantes da história do cinema. Essa alegria, no entanto, não dura muito, e no final ele decide abandonar o palhaço após ser abusado intimamente por policiais na cadeia — olha a frase ‘quem tem…, tem medo‘ aparecendo ai novamente.

Coringa 2 | Roteirista de Taxi Driver abandona sessão e detona "Um musical muito ruim"
Reprodução/Warner Bros. Discovery

Para fechar sua “grande obra”, Todd Phillips mostra Arthur sendo esfaqueado nos corredores do Arkham e sangrando até a morte. A partir dessa sequência final, o diretor deixa o recado de que seu Coringa é um qualquer, e o filme de 2019 é irrelevante, superestimado e não passa de um entretenimento barato — como se ele realmente precisasse nos avisar disso.

Também como se fosse preciso, Phillips ainda insiste em reforçar que violência é errado e ninguém deveria se inspirar no personagem que ele criou junto a Joaquin Phoenix. Há ainda uma tentativa de dar um tapa na cara do movimento incel. O diretor, no entanto, faz isso — creio que involuntariamente — usando a Arlequina como a representação da imagem manipuladora que os incels têm das mulheres.

Lady Gaga como Arlequina no trailer de Coringa 2
Reprodução/Warner Bros. Discovery

Ainda na campanha de marketing, diretor e elenco me chamaram atenção quando disseram que Coringa: Delírio a Dois (2024) seria uma espécie de musical realista — sim, a palavra musical foi recusada por Todd Phillips várias vezes, mas é isso que o filme é.

O que seria um musical realista? Bem, para Todd Phillips e sua trupe, parece ser contratar a Lady Gaga e pedir para ela cantar muito mal. A performance da cantora — que é uma das mais talentosas de sua geração — em “That’s Entertainment” é torturante! Quanto ao Joaquin Phoenix, quando foi que ele passou a acreditar que sabia cantar?

Fazer um musical realista talvez seja registrar sequências de cantoria e dança com câmeras paradas e planos médio e próximo, resultando em uma experiência insossa e desperdiçando o incrível trabalho das equipes de arte e iluminação.

Coringa em IMAX
Reprodução/Warner Bros. Discovery

Tem alguns meses que publiquei um texto sobre qual é o trabalho de um diretor de cinema. De forma resumida e tão superficial quando esse novo filme do Palhaço do Crime, defini o profissional como a pessoa que assume a responsabilidade de manter todas as engrenagens de uma enorme e complexa máquina girando em harmonia, mesmo quando ele não tem controle algum sobre elas.

Repare que, existe um tom grave de responsabilidade nessa profissão, não apenas com o produto, mas com todos os profissionais envolvidos. Nem sempre o diretor é o grande responsável pelo fracasso de um filme, mas, no caso de Coringa: Delírio a Dois (2024), não tem como não apontar quase todos os dedos para Todd Phillips.

Em um ato de vendetta, ou autodepreciação, o diretor menosprezou seu próprio trabalho e desvalorizou a equipe competente que o auxiliou. Sinto genuinamente pena dos profissionais de direção de arte, fotografia e iluminação, que parecem ter sido os únicos verdadeiramente engajados no projeto.

Musical-do-Coringa-2
Reprodução/Warner Bros. Discovery

Infelizmente, Coringa: Delírio a Dois (2024) não se limita a ser um drama psicológico mal construído e um musical traumatizante. O filme também falha como um drama jurídico, sendo bastante desinteressante nesse aspecto. Nenhuma tentativa de criar tensão funciona, nenhuma das viradas consegue ser impactante e o que temos são 2h20 de personagens falando obviedades rasas para a tela.

A sequência aposta todas as suas fichas em uma reflexão autodepreciativa do primeiro filme. A impressão que se tem é que Todd Phillips busca se desvincular de seu trabalho anterior, quase que como se estivesse envergonhado de suas escolhas. Embora alguns vejam isso como um ato de coragem, eu acredito que um artista que duvida de sua própria expressão artística está, na verdade, demonstrando insegurança e covardia.

Todd Phillips talvez seja a mentira mais bem contada dos últimos anos em Hollywood. Quando e por qual razão ele virou essa unanimidade que tem carta branca para torrar o dinheiro de um grande estúdio como bem quiser? Seu novo projeto é um filme que tem vergonha de ser parte de um universo de quadrinhos, vergonha de ser um musical e vergonha de ser um drama jurídico. Coringa: Delírio a Dois (2024) é um filme que tem vergonha de ser.

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Nota 3


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