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Neste momento da história em que a sensação de desarranjo global é quase palpável e as pessoas vivem com o sentimento de que tudo, de algum modo, deu errado, o filme O Agente Secreto (2025) surge para exportar ao mundo o jeitinho brasileiro. Esta é mais uma obra de Kleber Mendonça Filho sobre o valor da memória, mas, desta vez, está aliada à teimosia de um povo que, por mais que a vida aperte, tem a pirraça de não se dar por vencido.
Situado em 1977, O Agente Secreto (2025) tem tudo a ver com a ditadura militar, mas não é um filme sobre ela. O contexto político é uma sombra que funciona como um dos instrumentos regidos por Kleber Mendonça Filho para a organização de sua orquestra atmosférica.

O filme é totalmente apoiado nessa atmosfera de derrota e medo constante, que é alimentada por passeios por diversos gêneros cinematográficos.
É difícil encaixar O Agente Secreto (2025) em um só gênero. A obra mergulha no suspense, flerta com o body horror, tem um caso sério com o drama, brinca com o erotismo, tem um lance quente com a espionagem e se esbalda na comédia sombria.
Kleber continua embriagado por suas fontes favoritas, como John Carpenter e Brian De Palma, e soa como outro grande devoto da igreja dessa dupla: Quentin Tarantino. A estrutura de seu filme passeia através do centro do Recife por diferentes gêneros, assim como Tarantino passeou por Los Angeles em Era uma Vez em… Hollywood (2019). Além disso, há narradores, divisão em capítulos e telas divididas que reforçam essas referências.
Não espere, no entanto, violência estilizada. O Agente Secreto (2025) é o tipo de filme que prioriza a consequência em detrimento do ato.
Tal qual as referência a Carpenter e De Palma, não há como não destacar as rimas narrativas com Cabra Marcado Para Morrer (1984) e, naturalmente, com Retratos Fantasmas (2023). Quase como um derivado fictício deste último, O Agente Secreto (2025) se parece tanto com Era uma Vez em… Hollywood (2019) quanto com o documentário de Eduardo Coutinho sobre a odisseia de refúgio de Elizabeth Teixeira.
Elizabeth, vale esclarecer, saiu de Sapé, na Paraíba, e passou décadas peregrinando por Recife e São Rafael — onde era conhecida como Marta —, até finalmente poder voltar para casa e resgatar a sua identidade. Essa história muito claramente inspirou o arco de Marcelo (Wagner Moura).
Essa mistura multicultural, entretanto, não se limita a método e narrativa, mas também está presente no que é visto no filme. Kleber utiliza referências muito específicas do Nordeste — principalmente de Pernambuco — com estilos estrangeiros.
Você vai ver rimas com o caso do menino Miguel, que perdeu a vida sob os cuidados da ex-patroa de sua mãe, além da lenda da Perna Cabeluda, a tradição da Ala Ursa, entre outros, sendo enquadrados como thrillers norte-americanos.
E aqui vai um destaque a um trabalho primoroso, mas pouco comentado: a direção de arte de Thales Junqueira, que é tão protagonista do filme quanto Wagner Moura.
Com cores vívidas, O Agente Secreto (2025) está repleto de cenários detalhados, que resultam em imagens hipnóticas, soando como um portal definitivo para o passado. Sério, vai ser difícil algum filme lançado este ano ser mais bonito visualmente.
É dessa forma hipnótica que Kleber e sua equipe misturam coco e maracatu com rock e música eletrônica, e fazem de O Agente Secreto (2025) um manguebeat cinematográfico.
Esse manguebeat peculiar ganha ainda mais força graças ao seu próprio Chico Science, um Wagner Moura mais experiente, no melhor momento da carreira, entregando seu melhor e mais carismático trabalho até agora.
Como Marcelo, Wagner é um homem calmo e seguro de seu propósito, que não cede à carniceira realidade em que está envolvido, nem sob a ameaça de morte.
Com tantos gêneros sendo explorados no mesmo filme, Wagner Moura tem espaço para explorar toda a sua amplitude como ator, e entrega um dos trabalhos mais ricos em nuances do ano.
É um trabalho colaborativo: Kleber dá a Wagner o espaço para brincar, além de ótimos companheiros de brincadeira, e Wagner potencializa todo o playground com seu magnetismo.
Vale mencionar que não é apenas Wagner Moura que brilha. Todos os personagens têm espaço para se destacar, e apresentam arcos interessantes. Em especial, destaco o divertido Robério Diógenes e a potente Tânia Maria. Seus personagens, o Delegado Euclides e a Dona Sebastiana, são dois extremos da ginga brasileira, sendo a segunda o coração e a grande representação de força do filme.
O Agente Secreto (2025) é, de certa forma, uma representação clara da resiliência da cultura brasileira, que em um tempo não tão distante foi atacada e desmoralizada.
Assim como a história de Marcelo, que volta para casa para tentar recuperar sua identidade durante uma crise sombria, o filme, que possui forte veia comercial, é o cinema brasileiro se voltando à sua base para reafirmar sua identidade junto ao povo. A coletânea de fotos na abertura, com Os Trapalhões — a franquia cinematográfica que já foi a mais popular do Brasil — em destaque, é um ótimo exemplo disso.
O Agente Secreto (2025) representa a natureza de ser brasileiro e de levar a vida com um sorriso mesmo nos tempos mais difíceis. A pesada atmosfera de medo e derrota é constantemente aliviada por um humor sacana, que é a nossa especialidade. Talvez seja isso que faz do filme de Kleber algo tão forte mundo afora: é uma obra onde o Brasil ensina que, não importa quão sombria seja a lógica atual, o mundo vai sobreviver a ela, e sabendo disso podemos encarar as situações com mais leveza.
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A estreia de O Agente Secreto (2025), vale ressaltar, está marcada para 6 de novembro no Brasil.