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Corpos, suor e gestos afetivos colidem com cenários vastos e pomposos, palcos de ambição, frustração e medo. Embora real e visualmente atraente, o ambiente é conduzido sob um olhar deliberadamente artificial em O Morro dos Ventos Uivantes (2026). No filme de Emerald Fennell, o desejo honesto — o primitivo — está no íntimo.
Fennell é uma cineasta do maximalismo satírico. Seus filmes, vibrantes e provocativos, operam como “lobos em pele de cordeiro“: uma beleza plástica deslumbrante que mascara a podridão moral de seus personagens. É um cinema onde tudo é grande, barulhento e, não raramente, pretencioso além da conta. É como um delírio adolescente bem-humorado e com precisão sensorial.

O Morro dos Ventos Uivantes abre com uma respiração ofegante sobre a tela preta, até que surge uma multidão assistindo a um homem atingir a excitação enquanto é enforcado em praça pública. Nos primeiros segundos, Fennell deixa claro do que se trata sua adaptação. Sem enrolação, você está a bordo de um conto erótico de tragédia.
Resta a pergunta quintessencial da crítica: funciona? Bem, apesar da coloquialidade teatral nas trocas entre os atores, o filme não é chato e o propósito estabelecido na introdução é cumprido. Fennell demonstra uma mão apurada para o humor e, ao dominar o espaço, os cortes e a tensão afetiva entre os personagens, arranca risadas sinceras.
Já experiente nesse tipo de humor dramático, Margot Robbie se sai bem na fisicalidade exigida pela diretora. Jacob Elordi, no entanto, fica um pouco atrás. O jovem é inegavelmente atraente e tem o brogodó que o filme precisava para gerar atração, mas volta e meia ele parece se perder na linha tênue que Fennell traça entre o clássico e o profano.
De qualquer forma, o astro cumpre seu papel, pois este é, acima de tudo, um filme sensorial, com muito estilo para pouca substância. Há até uma tentativa de profundidade quando Fennell aborda a obsessão como esse desejo tóxico que consome e mata aos poucos, mas a intenção perde vazão ao ser confrontada pelo emocional da trama.
A tortura aqui não é traumática; é, de certa forma, atraente. O filme de Fennell opera como os grandes hits de Eliane, a Rainha do Forró, e você não precisa ser nenhum Chico Lopes para desfrutar dessa melancolia de dançar agarradinho.
Em suma, O Morro dos Ventos Uivantes (2026) é exatamente o que está na capa. Ao entrar no cinema, você não será enganado pela propaganda; o que está ali é o puro suco de Fennell. Pode faltar o miolo, mas tem bastante do tipo diversão que só um delírio adolescente bem executado consegue proporcionar.
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