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O cinema é, em sua essência, uma arte sobre imagens e os sentimentos que elas provocam. Um olhar atento à carreira de Paul Thomas Anderson permite perceber que ele é um dos diretores modernos norte-americanos mais fiéis a essa essência. Isso não é diferente em Uma Batalha Após a Outra (2025), mesmo sendo seu primeiro blockbuster. Inspirado na paranoia autoral de Thomas Pynchon e em sua visão sobre uma sociedade em guerra cultural, o diretor retorna às bases do cinema e entrega um dos grandes filmes do nosso tempo.

Crítica de Uma Batalha Após a Outra
Reprodução/Warner Bros. Pictures

Assim como o também genial David Fincher fez em O Assassino (2023), Paul Thomas Anderson estrutura Uma Batalha Após a Outra (2025) a partir do sentimento de ansiedade. Em altas doses, essa ansiedade gera outros sentimentos, como frustração, medo e cansaço.

Enquanto Fincher, no auge da pirraça, evoca a ansiedade pela espera e pela narração cínica — quase autobiográfica — de alguém que se vende como isento, mas demonstra ter um lado bem definido quando a onda quebra em suas costas, PTA trabalha a ansiedade como a ausência de respiros.

Graças a sua trilha sonora sempre alta e com muitas batidas por minuto, além da câmera sempre inquieta, Uma Batalha Após a Outra (2025) mergulha profundamente no sentimento de peso na garganta proporcionado pelo mundo moderno. O filme também aborda o fracasso e as contradições de uma geração que prometeu mudar o mundo e, assim como outras obras de Paul Thomas Anderson, estuda as origens da sociedade norte-americana.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Dito isso, é seguro afirmar que a principal exportação de Vineland — o livro de Thomas Pynchon que o filme adapta — é a ideia de que a guerra cultural é, em parte, um espetáculo que impede as pessoas de perceberem as estruturas de controle ocultas.

E claro, há conspirações — afinal, a trama ainda é uma ficção, embora reflita assustadoramente a nossa realidade. Essas conspirações, entretanto, servem para examinar o DNA dos Estados Unidos em um teste de paternidade do “Sonho Americano“.

Com o abandono materno e a constante busca por conexão entre pai e filha, a metalinguagem ampla sobre a natalidade torna-se clara e levanta uma pergunta pertinente: as coisas estão realmente fora do lugar, ou o caos é a própria natureza norte-americana? Afinal, a origem da sociedade dos Estados Unidos não foi gentil com as minorias, e o papel oculto do poder na definição do “Sonho Americano” não é novidade.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Após ler tanto sobre temas angustiantes, você deve estar visualizando Uma Batalha Após a Outra (2025) como um filme difícil de assistir. Calma, estimado leitor: ele seria, sim, difícil de engolir se não fosse temperado com um divertidíssimo humor canalha e sequências de ação revolucionárias.

Uma Batalha Após a Outra (2025) é, em primeiro lugar, uma comédia de ação, e é difícil imaginar outro ator que pudesse transitar entre suas esferas tão facilmente quanto Leonardo DiCaprio.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Não que esse seja o melhor trabalho da carreira de DiCaprio — afinal, você já o viu fazendo o que faz aqui antes. Mas é, sem dúvida, um desempenho que explora toda a amplitude do astro, que vai do drama intimista ao humor físico com um alcance típico de Jim Carrey.

Entre os grandes méritos de Paul Thomas Anderson, está não apenas a criação de personagens interessantes, mas também o fato de forçar os outros atores a levarem DiCaprio ao seu máximo. Benicio del Toro, Teyana Taylor e, principalmente, Chase Infiniti tabelam com o protagonista como o trio MSN fazia em seu auge no Barcelona.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Sean Penn, por sua vez, merece ser destacado individualmente, pois interpreta, talvez, o vilão mais repulsivo exibido pelo cinema norte-americano em décadas. O ator está tão bem no papel que seus trejeitos me causaram, literalmente, ânsia de vômito.

O grande mérito de Paul Thomas Anderson, por sua vez, está em ter feito o filme de ação mais bonito em décadas. Isso vai desde o contraste e a textura reconfortante da VistaVision, até a forma como o diretor movimenta a câmera.

A sequência de perseguição final é um deleite cinematográfico memorável. Ela coloca a câmera mais próxima ao chão, enquanto os carros sobem e descem ladeiras, emulando com perfeição a sensação intensa de uma montanha-russa, que dá tato à discussão sobre as idas e vindas da guerra cultural. Terei muita pena do fã de cinema que não conseguir desfrutar dessa sequência com toda a sua grandiosidade, na maior tela disponível.

Reprodução/Warner Bros. Pictures

Escrever esta crítica logo após a de O Agente Secreto (2025) foi um desafio. Os dois filmes são sensorialmente tão parecidos que eu corria o risco de soar repetitivo. No entanto, é fundamental registrar: essa semelhança faz com que as obras de Kleber Mendonça Filho e PTA deixem sua marca na linha do tempo como uma tatuagem. São as grandes obras cinematográficas de 2025 — talvez até do começo deste século —, e certamente serão usadas por décadas para rememorar esta época de frustração e ansiedade que vivemos.

Apesar do clima pesado e paranoico presente em ambos os filmes, a ideia compartilhada de que liberdade é a ausência de medo transmite uma pungente e otimista mensagem: a sociedade não apenas pode, mas consegue ser melhor. Perderemos muitas e ganharemos algumas, mas o importante é continuar lutando, uma batalha após a outra.

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Nota 10