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Em tempos de monopólio do rato, até mesmo a Pixar precisa se render à pressão da Disney e investir em franquias mais do que em novas ideias. Sua última animação original foi Viva – A Vida é uma Festa em 2017, sanduichada entre QUATRO continuações de outros filmes (sucedendo Procurando Dory e Carros 3 e precedendo Os Incríveis 2 e Toy Story 4).

E enquanto a maioria dessas sequências são perfeitamente aceitáveis, é inegável que o verdadeiro brilho do estúdio é quando ele tem liberdade para contar novas histórias emocionantes e de apego pessoal. Por sorte, após a bateria de sequências, a Pixar tem a chance de lançar duas animações originais no mesmo ano.

A que mais chama atenção é Soul, que vai ser lançada em Junho deste ano, com uma premissa ambiciosa e dirigida por um dos grandes nomes da casa, Pete Docter. Mas enquanto isso, é um grande erro negligenciar Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica, que nos faz lembrar o quão boa a Pixar pode ser.

O estúdio é conhecido por criar mundos fantásticos, geralmente a partir da antropomorfização de um imaginário específico. O alvo da vez é a alta fantasia. A reviravolta, entretanto, é que é um mundo de alta fantasia transformado em fantasia urbana, apresentando sua típica terra de fantasia medieval, que eventualmente se cansou de aprender magia e aderiu à tecnologia. Passados os séculos, o mundo se tornou plenamente mundano, com policiais centauros, gangues de fadas motoqueiras e unicórnios pestes reviradores de lixo nos subúrbios.

Essa premissa rende algumas gags divertidas, mas convém que não é um mundo com o high concept tão instantaneamente interessante quanto outros da Pixar, como em Divertida Mente ou Monstros S.A. Tampouco está interessado em explicar as minúcias de sua cronologia e como ele acabou quase exatamente como a nossa vida contemporânea. No entanto, o worldbuilding é um mero artifício para nos guiar à verdadeira joia do filme, a narrativa humana (bem… élfica):

Ian Lightfoot (Tom Holland no áudio original, Wirley Contaifer na dublagem brasileira) é um adolescente elfo tímido que nunca conheceu seu pai, que faleceu pouco antes de seu nascimento. Na ausência de uma figura paterna, Ian tenta projetar alguma da confiança do que ele imagina de seu pai em si mesmo, ao mesmo tempo em que sente vergonha de seu irmão mais velho, Barley (Chris Pratt/Raphael Rossatto), visto como um causador de problemas preguiçoso pela comunidade, e também um estudioso ávido do velho mundo de magia e aventura (ou seja, ele é um nerd fã de RPG).

No aniversário de dezesseis anos de Ian, ele e Barley recebem um cajado de feiticeiro deixado pelo seu pai, junto com instruções para um feitiço que pode trazê-lo de volta à vida por um dia. Mas graças à insegurança de Ian e seu relacionamento complicado com o irmão, a magia dá errado, trazendo de volta apenas as pernas do pai (!). Agora, os irmãos Lightfoot tem apenas 24 horas para sair em uma legítima quest atrás de uma pedra fênix, necessária para invocar o feitiço, e dominar a magia se quiserem ter a chance de encontrarem o pai uma última vez.

Dois Irmãos

Inspirado nas experiências de vida do diretor, Dan Scanlon, que também tem um irmão mais velho e nunca chegou a conhecer o pai, a animação é um veículo de catarse genuíno para lidar com a ausência da figura paterna tradicional e uma carta de amor ao seu irmão. Mensagens sobre família são típicas nos produtos da Disney (afinal, é como ela mantém um branding que atinge todas as idades), mas raramente elas são tão sinceras como aqui.

Contribuindo para maximizar a experiência, o filme também conta com um roteiro impecável. Cuidadosamente estruturado, estabelecendo com confiança o conflito e âncora emocional da narrativa, com cada batida de ação, comédia ou emoção nos momentos perfeitos, e fazendo sempre uso de uma grande sequência de setups e payoffs, de modo que tudo o que assistimos ao longo do filme tenha relevância. É o tipo de cuidado com storytelling eficiente e cativante que fez da Pixar a gigante que ela é hoje, e justamente o que ficou faltando em Frozen II, a animação de fantasia sobre a conexão entre irmã(o)s da sua companhia matriz.

Que basicamente todo mundo vai se emocionar no filme, já é esperado, mas o nível de emoção deve variar dependendo do quanto você se identifica pessoalmente com os personagens. Digamos, se você também for um tanto complexado quanto ao seu pai ou tiver uma relação parecida com seu irmão, você talvez seja mais suscetível ao choro descontrolado. Pessoalmente, o último da Pixar que me fez soluçar nesse nível foi Up – Altas Aventuras.

Mas podem me culpar? A resolução da narrativa é um desses momentos absolutamente perfeitos de animação, que alterna entre engraçado, empolgante, triste e reconfortante com maestria. Essa é a Pixar que eu amo.

Não subestimem esse filme.

Positivo
  • • A jornada dos irmãos Lightfoot tem um coração de ouro.
  • • É um desses roteiros que servem muito bem como exemplo para ensinar em aula.
  • • Eu tinha que limpar as lágrimas, mas também tinha catarro escorrendo e eu colocava a mão na boca pra não fazer barulho no cinema...
Negativo
  • • O tão autopromovido primeiro personagem LGBT da Disney (de novo) é mais uma enganação do Mickey, que adora pink money tanto quanto qualquer outro tipo de dinheiro.
Nota 9010
Crítica | Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica



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