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A cada novo projeto, Rian Johnson se cimenta como um dos cineastas mais legais dessa geração. A Ponta de Um Crime e Looper são dois dos filmes de gênero mais interessantes dos últimos quinze anos. Ele também dirigiu alguns dos melhores episódios de Breaking Bad (The Fly e Ozymandias) e, mais recentemente, lançou o olhar mais inteligente e refrescante a Star Wars em décadas e, de bônus, ainda deixou nerds revoltados por dois anos (e contando).

E como acontece hoje com cineastas que comandam filmes de sucesso de uma grande franquia Disney com bilheteria bilionária, ele é recompensado com algo infelizmente cada vez mais raro na indústria: A chance de dirigir e escrever o próprio filme original de médio-orçamento com ampla distribuição nos cinemas. E com essa oportunidade, ele traz o deliciosamente esperto e divertido Entre Facas e Segredos (Knives Out), que estreia no Brasil em 5 de Dezembro.

Quando o famoso autor de romances de mistério e patriarca Harlan Thrombey (Christopher Plummer) é encontrado em seu quarto com a garganta cortada logo após a comemoração dos seus 85 anos, a polícia acredita se tratar de um suicídio, mas o famoso detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig) suspeita que há mais por trás do caso do que parece. Poderia alguém da família estar por trás disso? Mas quem? Seu filho (Michael Shannon) que comanda a editora? Sua filha (Jamie Lee Curtis) que montou o próprio negócio? Sua nora (Toni Collette) influencer avoada? Seu genro (Don Johnson) capacho? Ou então seus netos, que incluem o playboy babaca (Chris Evans), a universitária desconstruidona (Katherine Langford) e o adolescente trollzinho de alt-right (Jaeden Martell)? Ou será que devíamos prestar mais atenção na doce enfermeira de Thrombey (Ana de Armas), que pode ser muito mais do que aparenta?

Não é nenhum mistério que o filme é uma grande homenagem à longa tradição de ficção de detetive, particularmente em sua forma mais famosa, o whodunnit, extremamente popular em boa parte do século 20, com os exemplos mais famosos entre esses, obviamente, sendo as obras de Agatha Christie.

É claro, o gênero pode até não ter mais a força de outrora, mas ele nunca realmente morre. Christie continua sendo uma das autoras mais lidas de todos os tempos, mais de 40 anos depois de sua morte, e a recente adaptação de Assassinato do Expresso do Oriente, de Kenneth Branagh, foi um grande sucesso e já tem sequência (Morte no Nilo) em desenvolvimento para 2020. Mas Entre Facas e Segredos surge como uma inusitada retomada retro-moderna ao formato.

Andando na linha tênue entre pastiche afeiçoado e sátira de humor de negro, muito consciente de todos os clichês e absurdos do gênero, à princípio a comparação mais óbvia seria Os 7 Suspeitos, a comédia cult de 1985 e adaptação oficial do jogo de tabuleiro Detetive (que Entre Facas e Segredos também referencia abertamente). Mas enquanto este aponta mais o ridículo do gênero através de metaficção escrachada, o filme de Johnson encontra razões mais políticas para sua comédia.

Questões de classe sempre fizeram parte, mesmo que subtextual, das histórias de detetive (afinal, o gênero se consolidou em consequência direta à modernidade). Christie em especial, era expert em encontrar a morbidez por trás da aristocracia e da classe média alta. Da mesma forma, a família Thrombey é um microscópio de muito o que Johnson parece julgar de errado com a sociedade americana na Era Trump.

Alguns tentam se passar por liberais progressivos, outros não conseguem esconder sua veia conservadora reacionária, mas todos não passam de riquinhos mimados intoxicados pelo próprio privilégio e querendo que acreditemos em meritocracia, como justificativa para botarem as mãos na fortuna de seu patriarca. Absorver os comentários do filme sobre privilégio, racismo e imigração é tão – se não mais – interessante quanto desvendar o mistério da morte de Thrombey.

Se o extenso elenco composto de atores famosíssimos parece impressionante, o filme faz jus, com performances impecáveis. Os destaques com certeza são Craig, encarnando todo o exagero cômico dos grandes detetives literários (dessa vez com um sotaque de Kentucky!), De Armas, quase uma versão atualizada do everyman de Jimmy Stewart nos filmes do Hitchcock, e com o mesmo carisma, Evans, que extrai as maiores risadas do filme e ainda te faz acreditar que CHRIS EVANS é um cretino que odeia cachorros, e Plummer, que mesmo morto a maior parte do filme, tem um magnetismo e uma excentricidade em cada cena que te faz entender cada vez mais sobre sua família.

Por boa parte de sua duração, o filme ameaça se tornar ainda mais subversivo, com uma desconstrução radical do gênero, mas no fim se contenta em ser uma carta de amor entusiasmadamente esperta à era de ouro do whodunnit, com uma conclusão que enaltece a exuberância do próprio gênero e certamente vai agradar todos os públicos possíveis, provando que o apelo desse tipo de narrativa continua tão forte e tão atual quanto no século passado. Mesmo depois de todos esses anos, o detetive excêntrico de sotaque engraçado ainda não fica devendo nada a qualquer super-herói ou jedi.

Positivo
  • • Uma homenagem bem-humorada e inteligente a um dos maiores gêneros de literatura popular.
  • • Um elenco imenso e perfeito em cada escolha.
  • • Venha pelo mistério, fique pela sátira política dos EUA atuais.
Negativo
  • • Te provoca com a possibilidade de uma desconstrução muito mais provocante do gênero, mas nunca vai tão longe.
Nota 9010
Crítica | Entre Facas e Segredos


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