Quando Jack Kirby criou os Eternos em 1976, a história não se passava no Universo Marvel tradicional, e sim em um mundo onde os outros personagens da Marvel existiam como… histórias em quadrinhos. Foi somente em 1979, quando Kirby já havia saído da Marvel novamente, que o editor Roy Thomas decidiu inserir os Eternos e sua mitologia – como Celestiais e Deviantes – dentro da linha cronológica principal da editora.
Talvez por essa origem desconectada do todo, os Eternos nunca se sentiram uma parte integral do Universo Marvel. Embora os Celestiais tenham ganhando cada vez mais espaço e personagens como Thanos tenham sido conectados a origens Eternas, os personagens primordiais de Kirby nunca conseguiram de fato ter a mesma receptividade do restante do panteão Marvel. Curiosamente, isso parece se repetir no cinema com Eternos, filme dirigido pela vencedora do Oscar Chloe Zhao, que embora se passe no mesmo Universo Cinematográfico que acompanhamos há mais de 10 anos, parece algo completamente novo e diferente.

Essa diferença vai muito além da questão de que estamos sendo apresentados a novos personagens e a toda uma nova mitologia. Afinal, Guardiões da Galáxia também fez isso em 2014 e ainda assim soava como algo familiar. Eternos vai além: tom, estrutura narrativa, fotografia, tudo é muito diferente do que aprendemos a esperar de um filme da Marvel, principalmente vindo na rasteira do formulaico Shang-Chi. É normal que isso seja recebido com certa estranheza por uma questão puramente de expectativa, mas o fato é que Zhao entrega um filme que, embora diferente de tudo que a Marvel já fez, é também um dos mais interessantes, bonitos e épicos do estúdio.
E o filme tinha uma difícil tarefa pela frente, que vai muito além de renovar interesse em um universo que para muitos acabou em Vingadores: Ultimato. Ele precisava apresentar uma nova mitologia, introduzir e desenvolver 10 novos personagens de forma que o público se interessasse por eles e, é claro, trabalhar a trama que serviria como o conflito do longa. E tudo isso é feito de forma satisfatória.
Zhao usa muito bem a estrutura narrativa para contar sua história, indo e voltando no tempo para estipular os Eternos e apresentar ao público o histórico desses personagens ao longo da história da humanidade. Essa escolha não-linear faz muito bem ao filme, e cada um desses momentos do passado é escolhido por uma razão e exibido para o espectador no momento certo. Tudo é muito funcional, e esse processo ajuda Zhao a construir empatia com os personagens. Não precisamos de diálogos expositivos para entender a função, os sentimentos, os conflitos, as características e até mesmo os poderes de cada Eterno ; mesmo aqueles que aparecem menos são vem definidos e acrescentam à história.
Na trama, sem entrar em spoilers (e sim, é bem difícil não fazer isso com esse filme), os Eternos basicamente precisam se reunir novamente para conter o retorno de seus inimigos naturais, os Deviantes, que estão de volta após terem sido supostamente erradicados milhares de anos atrás. Boa parte do filme trata desse reencontro, onde vemos que vários dos Eternos simplesmente seguiram em frente vivendo como humanos e até constituindo família. Aliás, humanidade é uma palavra importante nesse filme, pois mesmo que estejamos lidando com seres praticamente divinos, esses personagens são capazes de entregar a trama mais humana já vista em um filme da Marvel.
O elenco consegue ter uma química muito boa, vendendo bem essa ideia de família disfuncional, embora alguns se destaquem mais do que outros. A jovem atriz Lia McHugh, por exemplo, se sai muito no papel de Duende, enquanto Richard Madden e Gemma Chan não chegam a comprometer como Ikaris e Sersi, respectivamente, mas também não entregam grandes performances. A Thena de Angelina Jolie, tão alardeada desde seu anúncio como parte do elenco, não tem tanto tempo de tela quanto alguns esperariam, mas possui um arco narrativo muito interessante e é responsável por algumas das melhores sequências de ação. E embora alguns desses personagens estejam bem diferentes de suas contrapartes nos quadrinhos, eles servem muito bem à trama – que é o que importa.
Esse distanciamento do público com os Eternos faz com que a Marvel tenha um pouco mais de liberdade em subverter elementos da história e brincar com expectativas. E essas surpresas fazem muito bem ao filme, pois criam uma tensão que seria praticamente inexistente se estivéssemos assistindo a adaptações fidedignas dos personagens de Jack Kirby ou até mesmo da reinterpretação de Neil Gaiman. E por falar em Kirby, mesmo com algumas diferenças cruciais em relação ao seu material de forma a torná-lo mais mercadológico e palatável para o público, o filme ainda serve como uma grande homenagem ao lendário e inventivo quadrinista, que não à toa recebe a alcunha de “Rei”. Sinceramente, eu nunca imaginei ver um conceito como a Uni-Mente no cinema, e confesso que ver isso e pensar em Kirby me trouxe uma lágrima inesperada.
Claro, fica agora a dúvida se Kevin Feige vai manter essa liberdade criativa para outras produções do estúdio, afinal foi a veia artístisca indie de Chloe Zhao que entregou um filme tão grandioso e diferenciado. Porém, embora Feige já tivesse prometido antes que veríamos filmes nessa nova fase onde a identidade dos diretores seria muito mais perceptível, é inegável que nem todo mundo vem recebendo bem essa mudança, considerando a nota baixa do filme em agregadores de reviews como o Rotten Tomatoes. Mas o estúdio é esperto em manter tudo dentro de um planejamento: as duas cenas pós-créditos empolgam e demonstram que a máxima de “tudo está conectado” ainda vale muito, e a clássica mensagem final de “Os Eternos retornarão” aquece o coração de qualquer fã do Universo Cinematográfico Marvel – que agora parece mais vivo do que nunca.