Há alguns anos, a idéia do Homem-Aranha finalmente ser incorporado ao Universo Cinematográfico Marvel parecia um sonho distante. Mas Capitão América: Guerra Civil veio e agora Marvel e Sony são amigas (um tanto instáveis) trazendo um novo Aranha que ganha o seu primeiro filme solo com Homem-Aranha: De Volta ao Lar. E o Amigão da Vizinhança se diverte muito com isso.
Seguindo imediatamente a sua introdução em Guerra Civil, Peter Parker segue com sua vida de estudante, ansioso por novas missões com os Vingadores, mas se vê continuamente ignorado pelo Homem de Ferro. Com a ascensão do Abutre e sua gangue, traficando armas baseadas em tecnologia chitauri, o aracnídeo encontra o alvo perfeito para se provar digno dos Heróis Mais Poderosos da Terra.
Naturalmente, a vida escolar do Peter de Tom Holland é um dos grandes destaques do filme, assim como sua relação com outros estudantes. O elenco de personagens inéditos ou radicalmente modificados deve causar uma certa estranheza aos fãs de longa data, mas eis a questão:
O filme é feito para uma nova geração e um público mais amplo e diverso e não para o fã velho e amargurado. Ainda bem.
Então é claro que um jovem frequentando um colégio público nova-iorquino em pleno 2017 vai conviver com outras crianças das mais variadas etnias e backgrounds. E ainda mais quando esses jovens constituem um elenco muito carismático e representando muito bem a inocência e confusão da adolescência. A influência dos filmes de John Hughes, reinventado para a geração millenial, é clara, incluindo algumas referências bem diretas aos seus filmes.
Apesar de bem diferente do personagem dos quadrinhos, o Abutre é um dos melhores vilões que a Marvel já entregou:
Ele não é um psicopata, apenas um criminoso, que vê o mundo de forma curta e grossa e decide agir fora da lei, uma boa mudança de ritmo com o que estamos acostumados em filmes de super-herói, especialmente os do Homem-Aranha. E é essa mesma atitude “classe operária do mal” que faz dele intimidador, junto da ótima presença de tela de Michael Keaton e seu sorrisão de “hehe, vou te matar, seu maldito”.

As cenas de ação são criativas e bem executadas, mas podem faltar peso ou alguma qualidade mais visceral, especialmente no clímax. Essa natureza descompromissada, no entanto, talvez seja a maior fraqueza do filme:
A presença de Robert Downey jr. como Tony Stark no filme é pontual (de forma alguma esse é um Homem de Ferro 4), mas o arco dramático de Peter ainda consiste em suas tentativas de se provar um herói digno dos Vingadores. Esse arco de personagem é um tanto bobo, até infantil, comparado às questões muito íntimas e sensíveis que vimos abordadas em Homem-Aranha 2 e nas melhores HQs do personagem. E claro, é natural que o Peter adolescente se preocupe com questões bobas, mas isso não significa excluir as neuroses e crises existenciais que não só fizeram dos quadrinhos de Stan Lee, Steve Ditko e John Romita uma revolução nos super-heróis, mas também fazem parte todo adolescente de verdade.
Por mais que eu fique feliz em ver um dos momentos definitivos do Aranha nos quadrinhos para as telas, isso é comprometido quando recontextualizado para uma motivação muito mais superficial. Por mais que pular a (terceira) história de origem seja acertado, faltou aquela vozinha do Tio Ben sussurrando no seu ouvindo.
Aqui, eles estão muito felizes entregar um Peter Parker que nada dá certo nas minúcias do super-herói, mas nada muito sério que traga mais peso dramático ao filme. Ia arruinar a diversão (ou pelo meno é o que pensam).
É mais uma questão do que o filme poderia ter sido do que no que ele falhou, mas o meu lado fã obsessivo do Aranha está perfeitamente feliz em conceder um elenco diferente e diverso ao filme, mas não em abrir mão do “grandes poderes, grandes responsabilidades”.
O que não diminui o fato que o filme possui um roteiro redondo e amarrado, que acerta seu tom perfeitamente e é um bom retorno a forma ao aracnídeo no cinema, que não tem realmente um bom filme há treze anos.
Pela primeira vez em algum tempo, o futuro do maior herói da Marvel nos cinemas parece muito promissor.





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