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Homem-Aranha: De Volta ao Lar foi um filme bem recebido em 2017, como um filme leve e divertido cuja competência básica e facilidade em digerir fez dele um crowdpleaser, especialmente comparado às verdadeiras bombas que haviam sido os últimos filmes do Cabeça de Teia. Mas passado o hype inicial, é inegável também que se trata de um filme superficial demais para fazer jus ao legado do maior herói da Marvel.

Homem-Aranha: Longe de Casa é parecido e, de muitas formas, até mesmo superior à primeira aventura solo do Aranha no MCU, mas possui uma grande desvantagem:

O filme está saindo um pouco mais de seis meses depois que Homem-Aranha No Aranhaverso trouxe de volta a excelência para a franquia. E se perto de O Espetacular Homem-Aranha 2, essa encarnação do aracnídeo parece positivamente bacana, perto de Aranhaverso, ela parece perigosamente perto da mediocridade.

Se passaram alguns meses depois do fim de Vingadores: Ultimato e o Homem-Aranha (Tom Holland) sente a pressão do público para suprir o vácuo da morte do Tony Stark como o grande sucessor do Homem de Ferro. Diante desse estresse, Peter Parker só quer parar para relaxar e aproveitar as suas férias com seus colegas pela Europa e confessar seu amor por MJ (Zendaya). Exceto que lá ele é convocado por Nick Fury (Samuel Jackson) em uma missão para ajudar Quentin Beck, vulgo Mysterio (Jake Gyllenhaal). Beck veio diretamente do multiverso, de uma Terra paralela que foi destruída por antigos seres elementais e que agora ameaçam a Terra-616 (bem… pelo menos a sua versão cinematográfica, não vamos entrar nessa discussão por causa de um easter egg). Agora o Aranha e Mysterio precisam unir suas forças e salvar a Europa dos ataques dos monstros.

Mysterio é um dos personagens mais simultaneamente ridículos e sensacionais da galeria do Aranha e o retrato do filme faz jus ao seu legado (e ao seu capacete de aquário). Fãs do Homem-Aranha já tem uma ideia do que esperar do personagem e o filme tira ótimo proveito de seus poderes, rendendo as sequências mais inventivas do filme. Gyllenhaal invoca um pouco do carisma midiático insano que ele mostrou em filmes como O Abutre com uma afetação perfeita e a forma como o encaixam dentro do contexto do MCU e do cinema mainstream atual à base do CGI e do motion capture é muito esperta.

As cenas de ação melhoraram muito desde o último filme. Não apenas maiores em escalas, mas muito mais dinâmicas e inteligíveis que as sequências pouco empolgantes de De Volta ao Lar (mesmo que nunca cheguem perto da montagem brilhante que Sam Raimi apresentou em Homem-Aranha 2). Por outro lado, as cenas menos bombásticas e que dependem menos de CGI possuem um olhar mecânico, quase um filme teen pra TV (Jon Watts continua o diretor mais desinteressante que já tocou num filme do Aranha, o típico tapa-buraco do MCU).

A força continua no carisma dos personagens. Peter, MJ, Ned, Betty, Flash e o novato Brad Davis encarnam todos seus arquétipos com entusiasmo e fazem desses segmentos um BOM filme teen para TV. A química entre os adolescentes continua agradável, com um destaque para Tom Holland e Zendaya apresentando um romance adolescente desajeitado e fofo.

No entanto, por trás de todo o bom humor, a franquia parece apresentar uma visão um tanto amarga da Geração Z, um espírito de velho rabugento de “esses jovens folgados de hoje com seus celulares e drones que não tem que se preocupar com nada”, o que resulta em um pastiche divertido de adolescentes, mas com muito pouca sinceridade ou empatia pela experiência do adolescente moderno. E isso leva à maior falha do filme, que nem sua competência na aventura e na comédia consegue distrair:

Por mais que o filme busque agradar os fãs com easter eggs, referências a vilões secundários como o Homem-Hídrico e o Magma e ainda uma cena pós-créditos que vai fazer todo mundo aplaudir e gritar, nada disso consegue esconder que o filme falha em representar o cerne do Homem-Aranha (algo que o Aranhaverso acabou de executar magistralmente):

Peter passa boa parte do filme despreocupadamente tentando evitar responsabilidades, ele tem que ser essencialmente forçado pelo Nick Fury a agir em prol do dever que sempre atormentou todas as outras encarnações mais complexas do personagem nos quadrinhos e em outras mídias.

Não chega a ser incoerente dentro da lógica da trama, trata-se, afinal, de um adolescente, mas a forma como o filme foge tanto quanto o próprio Peter de dramatizar esse grande conflito interno (tal qual um clássico “Homem-Aranha Nunca Mais”), com medo que isso comprometa a diversão é um desserviço a um personagem do calibre do Aranha. Uma vez que eles não tem mais como usar o humor como forma de desarmar o espectador, fica claro que o filme não tem uma visão mais interessante do herói além de o “Tony Stark Jr.”.

E quando ao menos parece que o arco do filme vai seguir por um caminho de afirmar a individualidade de Peter, ele apenas insiste na dependência do Homem de Ferro, com um ponto de virada que vai deixar fãs do aracnídeo espumando de raiva. Mesmo com Tony Stark morto e enterrado, o Peter do MCU continua sendo escada do Homem de Ferro.

É uma pena que o Sr. Stark nunca ensinou ao Peter sobre grandes poderes e grandes responsabilidades, pelo menos assim ele poderia transcender esse aspecto de “filler do MCU enquanto esperamos o “próximo filme-evento dos Vingadores” e conquistar seu lugar de direito como o grande coração da Marvel.

Muitos fãs notaram no trailer que a mala que Peter leva na viagem possui as iniciais do seu Tio Ben gravadas. Se me permitem um mini-spoiler inconsequente, no decorrer do filme, a mala acaba sendo explodida. A metáfora se faz sozinha.



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