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Entre a tarefa de parecer refrescante para um universo já bem estabelecido ou cair na armadilha de se tornar uma espécie de cópia redundante que se sustenta em uma mitologia popular, IT: Bem-Vindos a Derry leva a melhor.
Ambientada nos anos 60, a série prelúdio contempla um dos períodos em que A Coisa despertou, destacando eventos trágicos e que deixaram uma mancha aterrorizante na pacata cidade do Maine, ao mesmo tempo em que apresenta um novo e atormentado Clube dos Perdedores.

Aqui, Andy Muschietti encarou o desafio de voltar para a saga com maestria, nos dando um verdadeiro motivo para querer retornar a Derry semana após semana, seja por seus personagens cativantes ou através da incrível atmosfera criada graças a um roteiro nem sempre inteligente, mas estimulante.
Deixando de lado as limitações técnicas mais comuns em produções de TV para focar em uma narrativa impactante — que é o que realmente importa —, IT: Bem-Vindos a Derry consegue aproveitar o melhor que Stephen King tem a oferecer de sua obra, e ainda assim, adicionar camadas que sequer imaginávamos ser necessárias.
Diferente do “norte” dado aos filmes, a série original tem como base apenas referências fornecidas pelo autor em sua obra, desenvolvendo seu próprio mundo dentro de uma estrutura difícil de superar, restando-lhe se sobressair na fórmula de forma criativa. Felizmente, isso não foi um problema para o programa.
IT: Bem-Vindos a Derry realmente faz nos importarmos com o que está sendo apresentado, e extrai o melhor em cada um de seus núcleos, até mesmo dos lugares mais inesperados, proporcionando surpresas gratificantes que não estão com medo de diminuir o que está por vir, fazendo com que a série mantenha e, por vezes, eleve, seu ritmo.
As ameaças são maiores, mais intensas, os riscos são definitivos e ninguém está seguro. Não há amarras quanto à ausência de Pennywise. A série desvia muito bem o foco do palhaço assassino para transmutações muito mais apavorantes, sem necessariamente rebaixar A Coisa em sua forma mais popular.
O enredo tece muito bem suas conexões dentro de uma história geral com um propósito precisamente cumprido, embora desacelere o desenvolvimento de alguns conceitos ao longo da temporada para focar em questões mais pertinentes, resultando em explicações nem sempre palpáveis.
Embora os problemas de desenvolvimento de certos personagens não comprometam o ritmo da série, eles limitam o seu impacto emocional e as suas jornadas pessoais, relegando-os ao segundo plano. É o caso de Lilly, a suposta protagonista do show, cuja narrativa acabou ofuscada por subtramas mais robustas e por colegas de elenco que demonstraram um rendimento dramático superior.
Ao se afastar do Clube dos Perdedores, o show acertou em cheio na construção de seu núcleo adulto, onde Dick Hallorann, Rose e o casal Charlotte e Leroy Hanlon, fazem jus ao tempo de tela.
Por outro lado, o General Francis Shaw exemplifica um tropeço do roteiro, resultando em um destaque equivocado, tendo sua importância rapidamente marginalizada. Embora o roteiro justifique sua permanência em Derry de forma desleixada, o personagem é crucial para mover a trama em direção ao seu objetivo central.
O grande destaque, claro, fica para o retorno de Bill Skarsgård, que não esqueceu nada como encarnar primorosamente o palhaço assassino. O ator eleva seu trabalho para outro patamar surpreendente, tornando seguro coroar seu Pennywise, definitivamente, como um dos vilões mais icônicos da cultura pop.
Quanto aos temas da série, o roteiro extrai conceitos e problemáticas pertinentes da época, adicionando-as de uma forma natural que seja propensa para a atmosfera geral que, de forma inteligente, adiciona também o luto, a perda, ambição e o terror de maneiras alinhadas, potencializando a dramatização dentro de um gênero que costuma tratar isso de forma rasa.
O trabalho de arte, de fotografia e figurino cumprem muito bem seus papéis, realizando com êxito uma imersão direta à época proposta. O trabalho de som também não fica para trás, intensificando a atmosfera de terror em grande estilo.
A forma como Muschietti e sua equipe dirigem os episódios sob uma perspectiva psicológica e visceral, sustentando o gênero a partir de um estilo dinâmico que proporciona impacto visual que reflete bem a mensagem geral da série.
No fim, IT: Bem-Vindos a Derry executa sua tarefa com enorme êxito, e não se deixa levar por alguns tropeços bobos, se reinventando não apenas como um prelúdio digno, mas como uma expansão corajosa e cheia de personalidade da mitologia de King.
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