Comentários

Em uma época onde a cultura nerd aparece cada vez com mais força – especialmente no cinema -, onde se popularizou a ideia das “referências” e dos “easter-eggs” e onde criou-se uma certa reverência aos anos 80, podemos dizer que Jogador Nº 1 é um filme que chegou no momento certo de relevância cultural.

O livro escrito por Ernest Cline foi publicado pela primeira vez em 2011, mas o filme de Steve Spielberg chegou aos cinemas no último dia 29, bem no auge da popularidade dos filmes de super-heróis e dos blockbusters em geral.  Aliás, o filme não deixa de ser uma referência à própria carreira de Spielberg, responsável por uma considerável parcela dos filmes de aventura oitentistas reverenciados hoje.

E sejamos sinceros, nas mãos de um diretor com um pouco menos de visão, esse filme poderia ser um desastre. Isso porque, apesar do tema extremamente em voga e do interesse imediato do público, a trama de Jogador Nº 1 é bem simples e se sustenta quase que completamente no show de referências nerds, pop e de entretenimento de massa com as quais Ernest Cline recheou o seu livro. E ainda que a Warner não possa utilizar tudo que está na obra, existem diversos personagens  e locações conhecidas do grande público, que nas mãos de um diretor que prioriza o visual, poderiam gerar um espetáculo vazio.

Spielberg, no entanto, e como é de praxe, preza pela aventura. Com uma estrutura de atos muito bem definida e um roteiro que sabe utilizar as referências a seu favor (e aqui vão também os devidos créditos a Zak Penn), o longa se torna fluído e gostoso de se assistir, fazendo que com a história seja sempre o foco, e tratando as referências da forma como elas originalmente foram concebidas: como um atrativo a mais. Nesse caso, um enorme atrativo.

Na trama do filme estamos em 2044, onde as pessoas usam como escape da desanimadora vida real o OASIS, uma utopia virtual global que permite aos jogadores ser o que eles quiserem, em uma realidade permeada por todos os mundos de filmes, quadrinhos e games que se possa imaginar. Antes de morrer, o criador do game, James Halliday, emite um desafio: aquele que encontrar os três easter-eggs que ele escondeu no jogo, se tornará o dono do OASIS e herdará todas as suas ações. E é neste cenário que conhecemos o jovem Wade Watts (Tye Sheridan), mais conhecido como Parzival no mundo do OASIS, e que acaba de descobrir o primeiro easter-egg.

Obviamente, como a própria sinopse já indica, a história se passa quase que 80% dentro do OASIS, o que causou uma certa preocupação em algumas pessoas antes da estreia do filme. Afinal, o OASIS estava parecendo realmente bonito nos trailers, mas… será que esse universo tão atrativo e interessante, cheio de personagens criados em computação gráfica, teria mais destaque do que o mundo real com os atores?  Felizmente sim.

Ao contrário de filmes como Assassin’s Creed, que acabou optando por focar mais no mundo real do que no atrativo passado trazido graças ao Animus, Jogador Nº 1 abraçou o OASIS e não se importou em fazer com que os avatares virtuais aparecessem quase que na totalidade do filme. Obviamente, como era de esperar, os personagens reais  também tiveram algum tempo de tela, mas que foi suficiente apenas para o andamento da trama.

É inevitável perceber a assinatura característica de Spielberg no filme. Jogador Nº 1 referencia a cultura pop e os anos 80 não apenas visualmente, que é a forma mais óbvia, mas também na sua narrativa e tom. Ainda que o livro tenha aspectos mais sombrios – no limite do que é permitido em um young adult – Spielberg cria algo muito mais comercial e amigável para crianças, simplificando os desafios, amenizando a necessidade de conhecimento prévio das referências e oferecendo um produto final muito mais aventuresco. No fim, o longa tem todo um sabor dos clássicos do gênero. E isso não é nem de longe uma crítica negativa. Na verdade, aqui se torna uma força ainda maior para o filme.

Jogador Nº 1 é um filme que tende a agradar diversos tipos de públicos, e deve fazer uma boa bilheteria em sua estadia nos cinemas. Patinando em um terreno seguro e oferecendo um entretenimento agradável, deve conquistar gamers, nerds, aficionados por super-heróis, e até mesmo o espectador mais casual. Uma grata surpresa.



Comentários