Comentários

A primeira temporada de Luke Cage, série da Marvel na Netflix, apresenta  um problema muito curioso. Ela tem dois tons completamente diferentes , sofrendo uma mudança brusca e drástica em sua segunda metade. Se na primeira parte temos um tom mais sério e até mesmo mais político, a segunda decidiu abraçar o lado “quadrinhos” da coisa, mas de uma forma tão fora de tom que só causou estranhamento devido à sua galhofa.

A promessa para a segunda temporada era de uma série mais homogênea, com um tom muito bem definido. Mas afinal, qual seria o caminho escolhido para estipular de vez como o espírito de Luke Cage? A seriedade ou a galhofa? Pois bem, parece que conseguiram encontrar um meio termo, que com certeza não deve agradar a todos, mas que pelo menos é honesto consigo mesmo e com o espectador.

O universo de Luke Cage ainda traz muito do lado fantasioso da coisa – gerando algumas cenas no mínimo muito engraçadas – mas as bizarrices da temporada anterior que acabavam com toda a imersão do público agora são trabalhadas de forma mais comedida. Temos por exemplo um novo vilão, Bushmaster (Mustafa Shakir), que apesar de muito exagerado e caricato, não chega a ser ridículo como o Cascavel da primeira temporada.

De sua própria maneira, Bushmaster na verdade é o personagem mais interessante neste segundo ano.  Para encarar Luke Cage (Mike Colter), o vilão faz uso de uma espécie de esteroide natural cujo componente principal é uma erva africana chamada Nightshade. Assim, Bushmaster ganha super-força e um certo grau de invulnerabilidade, algo que, aliado ao seu avançado domínio de artes marciais, o tornam um perigoso e formidável inimigo para Luke Cage, chegando a desestabilizar o herói.

Mas Luke é um mero aborrecimento no caminho de Bushmaster, já que o seu verdadeiro alvo é Mariah Dillard (Alfre Woodard), contra quem o novo vilão nutre um forte sentimento de vingança por um acontecimento de seu passado. Mariah ainda é uma personagem extremamente chata e a atuação de Woodard parece que se torna ainda mais caricata a cada episódio que passa (será que todo vilão da série precisa ser assim?).

No começo da temporada, Luke está lidando com o peso da fama. Enquanto ele aparentemente não quer saber disso, e muito menos ganhar dinheiro com isso, camisas são vendidas usando seu nome, vídeos de suas lutas são disponibilizados, e até mesmo um aplicativo é lançado para que todos no Harlem saibam sua localização. Essa ideia de um Luke altruísta é muito interessante e bem-vinda, afinal, é um desenvolvimento para que o personagem se torne aquilo que é nos quadrinhos: um “herói de aluguel”. E a série realmente dá alguns acenos nesta direção.

Mas o personagem também recebe algumas camadas de drama, principalmente com a chegada de seu pai, o Reverendo James Lucas, brilhantemente interpretado por Reg E. Cathey em seu último papel (o ator faleceu em fevereiro deste ano). Com ele, vemos um Luke mais humano, magoado e em constante confronto contra seus sentimentos. Um dos momentos mais belos da temporada, aliás, é uma sequência que contrasta cenas de Luke com seu pai e de Bushmaster com Mariah, fazendo um interessante paralelo entre perdão e vingança, e tornando o herói e o vilão ainda mais conectados, de certa forma.

Colter ainda é um ator limitado, mas consegue se sair bem nas cenas de drama. Duas em especial chamam atenção: uma discussão com seu pai e outra com Claire (Rosario Dawson), que começa questionar as ações de Luke. Por incrível que pareça, o ator continua a se sair mal na parte que deveria ser mais natural da coisa: ele não tem uma boa expressão corporal, parece sempre travado, e quando precisa agir e falar de uma forma mais  popular com o Harlem, usando “a linguagem das ruas”, soa extremamente forçado.

Um outro problema é que a série parece não entender o seu potencial político e social, ou simplesmente não sabe como fazer isso funcionar ao mesmo tempo que uma trama fantasiosa de quadrinhos. Pantera Negra, por exemplo, foi um filme que soube casar muito bem as duas coisas, conseguindo um excelente equilíbrio entre o entretenimento de fim de semana e a crítica social que faz o espectador refletir. Luke Cage até tenta, em uma ou outra cena isolada, como quando o protagonista cita que sempre sofreu racismo para Claire, mas fica apenas nisso.  A cultura negra ainda é exaltada por meio das bandas de blue, jazz, reggae e afins que passam pelo Harlem’s Paradise nos interlúdios dos episódios, mas os produtores não parecem ter interesse em fazer muito mais do que isso.

De uma forma geral, a segunda temporada de Luke Cage pelo menos consegue ser mais fiel à sua alma do que a primeira, e se mantém até o fim dentro da história proposta. O meio termo entre o exagero e a seriedade funciona, e apesar do número de 13 episódios ainda ser um tremendo erro estratégico por parte da Netflix, existe pouco sentimento de “enrolação” no decorrer dos episódios, apesar de ficar bem claro que tudo seria resolvido com pelo menos a metade, tornando a série mais dinâmica e atrativa. Infelizmente, maratonar uma série da Marvel na Netflix se torna cada vez mais maçante.



Comentários