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Em meio a onda de nostalgia que afoga Hollywood, Matador de Aluguel (2024) surge como uma lembrança agridoce dos anos 80.

Pode-se dizer que os anos 70 revolucionaram os filmes de ação e suspense em Hollywood, graças uma espetacular sequência de obras como Perseguidor Implacável (1971), Tubarão (1975) e Alcatraz: Fuga Impossível (1979).
O que faz desses filmes importantes referências para grandes cineastas até os dias de hoje, é a maneira como eles foram magistralmente executados por lendas do gênero, como Don Siegel e Steven Spielberg.
A indústria, no entanto, entendeu o impacto desses filmes errado, e como resultado disso, produziu algumas das mais mal executadas obras de ação e suspense da década seguinte, como Stallone Cobra (1986) e Matador de Aluguel (1989).
O que há de curioso sobre a maioria dos filmes dos anos 80 desses gêneros é que, embora não sejam bons, eles conseguem habitar na memória dos saudosistas como agradáveis, pois são hábeis ao buscar sustentação em figuras com grande presença de tela e/ou carisma.
O saudoso Patrick Swayze, por exemplo, é essa figura carismática em Matador de Aluguel (1989), que Jake Gyllenhaal consegue emular com muita competência no remake dirigido por Doug Liman.
Se há algo que faz valer a pena a experiência de assistir o Matador de Aluguel de 2024, é o estado de graça com que Gyllenhaal brinca de astro de ação oitentista, se envolvendo de forma surpreendente com o projeto.
O ator se aprofunda tanto nas nuances de seu ex-lutador violento – que não gosta de violência, que consegue corrigir a falta de habilidade do roteiro em construir uma história de fundo convincente para Elwood Dalton, apenas usando sua fisicalidade. Talvez este seja um bom exemplo moderno de: “meu punho falará por mim“.
Doug Liman, que não é bobo, aproveita esse trabalho físico surpreendente de Gyllenhaal, e usa a movimentação do corpo dele como referência em algumas movimentações de câmera, que, em alguns poucos momentos, resultam em boas cenas de luta.
Todo o resto, no entanto, é uma grande bagunça atolada numa iluminação que não dá nitidez para a ação, uma fotografia monótona e sem inspiração, diálogos risíveis e coadjuvantes completamente desinteressantes.
Francamente, é injustificável que um filme de ação de US$ 85 milhões use computação gráfica para simular socos, e não consiga fazer uma dublagem ADR (Additional Dialogue Recording) decente na pós-produção.
O ADR consegue piorar a já canastrona atuação de Conor McGregor, que – por alguma razão que juro ter tentado entender – caminha igual o RoboCop e sempre fala mostrando os dentes cerrados (assim: 😬).
Quanto ao fato de os coadjuvantes serem desinteressantes, não se trata de um problema do elenco em si. Daniela Melchior (O Esquadrão Suicida), por exemplo, não faz um mal trabalho, mas é muito difícil se relacionar com a personagem dela, pois não existe qualquer desenvolvimento para isso.
Ela é uma enfermeira, que por acaso tem o pai como Xerife da cidade, por acaso se apaixona por Dalton (Gyllenhaal) à primeira vista, por acaso sempre aparece para salvá-lo, e por acaso precisa ser salva no catastrófico terceiro ato.
Esse “por acaso” é a representação do maior problema do filme: Matador de Aluguel (2024) não faz o mínimo esforço para fazer sentido!
Dalton (Gyllenhaal) luta contra uma espécie de coronelismo comandando por um vilão, que sequer dá as caras durante todo o filme, mas tem tanto poder que manda e desmanda em uma cidade de dentro da cadeia.
No entanto, quando todo esse poder precisa ser convenientemente diluído, é revelado que o tal chefão do mercado imobiliário – que de alguma forma também trafica drogas – está falido, mas mesmo assim consegue pagar dezenas de capangas, contratar um mercenário e subornar a polícia local.
Corrigindo: parte da polícia local! Isso pois, após o filme estabelecer que o Xerife e o corpo policial local estão aliados ao grande e misterioso vilão, é mostrado sem muita clareza que ainda há policiais honestos na cidade.
E o que dizer da decisão criativa de que um astro do UFC, vive, em boa parte do filme, como um completo desconhecido em uma cidade da Flórida?
Ok, ninguém é obrigado a conhecer um ex-lutador de MMA. No entanto, na era digital, promover tanto mistério sobre a figura do novo segurança da Road House é abusar da suspensão da descrença.
O pior nesse caso é que o filme reconhece isso, usando, inclusive, a personagem da Daniela Melchior para fazer a pergunta que, naquela altura, confesso também estar me fazendo: “Você acha que não temos internet na cidade?”
Cidade, aliás, que chega a ser referida em diferentes ocasiões como um lar de pessoas violentas, e em nenhum momento isso é debatido como o filme pede, dando uma sensação de que a pauta foi abandonada do nada.
Perceba que, estamos lidando com um ex-lutador de MMA que não gosta de violência, e está em um local onde até uma garotinha que vende livros usa um taco de beisebol para se defender.
Uma troca de experiências entre as partes não seria uma boa oportunidade para dar propósito ao filme? Bem, para os roteiristas Anthony Bagarozz (Dois Caras Legais) e Chuck Mondry não pareceu uma boa ideia.
A execução ruim, entretanto, não impede de parte do público se divertir com o filme. Diria que, para aproveitar Matador de Aluguel (2024), você tem que estar no clima certo antes de dar o play.
Saiba que, este é um remake ruim de um filme tão ruim quanto, cujo grande carisma do protagonista disfarça sua total falta de propósito.
Em síntese, Matador de Aluguel (2024) é um retrato fiel do pior do cinema nos anos 80, que encontra algum valor como entretenimento descartável de fim de dia.
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