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Nos anos 70, a indústria cinematográfica norte-americana passava por uma verdadeira transformação com o surgimento da irreverente Nova Hollywood. Inicialmente marcada pela emancipação dos padrões do Show Business, a Nova Hollywood foi, posteriormente, caracterizada pelo surgimento dos Movie Brats. Francis Ford Coppola não apenas fez parte desse movimento ao lado de seu grande amigo e ex-sócio da American Zoetrope, George Lucas — que estava definido como diretor de Apocalypse Now (1979) até a FOX dar sinal verde para Star Wars —, mas, foi um de seus líderes. Cerca de 50 anos depois, com o lançamento de Megalópolis (2024), fica evidente que Francis é um dos poucos diretores dessa geração a manter a essência dos Movie Brats.

“Brat“, eleita a palavra do ano de 2024 pelo dicionário Collins, ganhou nova popularidade graças ao novo álbum da cantora britânica Charli XCX. Embora tenha diversos significados, o termo é comumente usado para descrever uma criança ou adolescente mimada, rebelde, confiante, desobediente ou malcomportada.
Nos anos 70, os Movie Brats, como foram denominados pelo crítico de cinema Michael Pye, constituíram a primeira geração de cineastas jovens criados assistindo TV e formados em faculdades de cinema. Eles entraram para a indústria logo após os hippies e os cineastas antissistema a dominarem graças ao apetite do público pós-Segunda Guerra por conteúdos mais adultos. No entanto, ao contrário dos hippies, que estiravam o dedo do meio para os diretores da “Velha Hollywood“, os Movie Brats não apenas tinham mais respeito pelos antigos, como amavam muito do que as gerações anteriores tinham produzido até ali, incluindo produtos de Cine Drive–in e cinema exploitation — alguns, inclusive, entraram para a indústria em filmes desses gêneros.
O cineastas antissistema, como os grandes Dennis Hopper (Sem Destino), Robert Altman (M.A.S.H), Bob Rafelson (Cada um Vive como Quer) e Sam Peckinpah (Meu Ódio Será Sua Herança), criavam arte baseados no ódio que sentiam pela indústria. Eles até trabalharam na TV e em filmes de gênero, mas geralmente contra a vontade, e muitas vezes fazendo disso uma espécie de cinema antigênero.
Os Movie Brats, por sua vez, representados por Francis, George Lucas (Star Wars), Brian De Palma (Scarface), John Milius (Conan: O Bárbaro), Steven Spielberg (Tubarão), Paul Schrader (Oh, Canada), Martin Scorsese (Taxi Driver) e Peter Bogdanovich (Lua de Papel), eram fascinados pelo cinema, e tinham o passado como grande inspiração a ponto de tentarem criar suas próprias versões de grandes clássicos da Era de Ouro de Hollywood. A obra deles era baseada no amor que tinham pela arte, no respeito que sentiam pelo passado e no fascínio que tinham pela liberdade e pelo desconhecido — algo que compartilhavam com os cineastas antissistema.
Não existia uma grande divisão ou rivalidade entre as partes. As grandes diferenças entre os dois grupos eram como cada um enxergava o passado, e como para os Movie Brats fazer cinema era mais do que um simples trabalho, mas um sonho. Nem todos cineastas antissistema enxergavam a profissão sob essa ótica. No entanto, o que importa nisso tudo é que, apesar de suas diferenças, os grupos da Nova Hollywood mudaram o cinema para sempre!
Com sua estética retrofuturista, Megalópolis (2024) evoca o Império Romano e filmes como Metrópolis (1927), propondo uma reflexão não apenas sobre o futuro do cinema — sob a perspectiva de um dos cineastas que revolucionaram a arte —, mas também sobre o futuro da civilização e da existência humana.
O filme tenta construir algo novo, mas Francis, tal qual o personagem principal, César (Adam Driver), entende que não há como construir sem demolir o que já existe primeiro. Isso remete, novamente, aos Movie Brats, que só revolucionaram Hollywood graças à liberdade que surgiu após os cineastas antissistema arrebentarem com os padrões da indústria. Desta forma, Megalópolis (2024) é, em grande parte, tão sobre si mesmo que em alguns momentos parece estar tentando se fazer sozinho.
Esse é o projeto de paixão de Francis Ford Coppola, o filme com o qual ele sonhou durante décadas e que finalmente viu a luz do dia, carregando consigo toda a sua essência. Todo amor e personalidade são muito perceptíveis, e o público acompanha, durante mais de duas horas, um cineasta lendário transpondo para a tela todas as suas reflexões sobre a sociedade.
Não é por acaso que a personagem de Aubrey Plaza, uma gananciosa jornalista do ramo do entretenimento chamada “Wow“, se casa com um idoso (Jon Voight) dono de um banco. Isso é o que Francis, homem branco que goza dos privilégios da riqueza há décadas, acha do jornalismo de entretenimento. Também não é à toa que o pão e circo dessa sociedade do filme molde uma perfeição de plástico em divas pop, como na controversa falsa virgem interpretada por Grace VanderWaal.
O caso aqui é que Francis aborda muitos assuntos em Megalópolis (2024), no entanto, não se aprofunda em nenhum deles. Alguns ele até abandona na metade do raciocínio. Há praticamente uma vida inteira de anotações ali, mas reflexões completamente pedantes. O grande barato do filme, entretanto, não está nas supostas soluções simples que o diretor propõe, mas em como ele nos faz pensar sobre os assuntos abordados.
Megalópolis (2024) é um filme em que as perguntas valem mais do que as respostas, e isso talvez seja demasiado transgressor para sua época. Definitivamente, esta não é o tipo de obra que o público geral atual do cinema, que prioriza o evento à substância, quer sair de casa para assistir. Talvez por isso tantas pessoas não estão gostando.
Não que não tenha espetáculo, tem de sobra! O filme é divertidíssimo, principalmente se você topar embarcar nesse trem azul maluco que vai te levar para uma zona bizarra, através dos trilhos do passado e do futuro. Entretanto, é um tipo de espetáculo diferente, e eu não estou falando só sobre o visual brega, as atuações teatrais e a fotografia megalomaníaca, mas também em como ele sequer se esforça para ser minimamente lógico.
É delicioso perceber o quanto Adam Driver, Giancarlo Esposito, Aubrey Plaza e Shia LaBeouf compram esse tom lúdico e se divertem em seus papéis. Infelizmente, não dá para dizer o mesmo de Nathalie Emmanuel, que se leva a sério demais e estraga a maior parte das cenas em que aparece. Não que ela seja uma má atriz, mas simplesmente não entendeu a brincadeira e ficou muito destoante em relação ao resto do elenco.
Procurar clareza nas sequências de eventos de Megalópolis (2024) estraga completamente a experiência sensorial que o filme se propõe a entregar, e Francis é muito inocente, ou autoindulgente, ao acreditar que o público não vai se incomodar com isso.
O filme é bem simples. A história é sobre um arquiteto que consegue parar o tempo e quer criar uma cidade utópica usando um novo elemento que ele descobriu, o Megalon. Para isso, ele precisa convencer as pessoas e enfrentar o prefeito de Nova Roma, que é pai da garota que ele passa a gostar.
A mensagem, que na verdade é uma pergunta principal, também não é tão filosófica quanto Francis talvez tenha imaginado que poderia ser: se você sabe que o modelo atual da civilização está fadado ao fracasso, prefere continuar fazendo as mesmas coisas até o fim para não sair da sua zona de conforto, ou cometer o sacrifício de se arriscar ao desconhecido pelo benefício da dúvida?
O que pode pegar mal aos que se apegam à clareza, é que Megalópolis (2024) não tem compromisso algum com os eventos. Você nunca vai saber como funcionam os poderes de controle de tempo do César, tampouco como ele conseguiu o Megalon. Isso não importa para a experiência.
O que importa é como o modo otimista de Francis em lidar com esses temas é capaz de provocar uma sensação de motivação interessante, claro, se você embarcar na viagem. É como se o diretor tivesse tentando dizer o tempo todo algo como: ‘vai lá, o ‘não’ você já tem.’
No seu ensaio de final feliz, o cineasta reconhece que não tem muito mais tempo para nos ajudar com esse futuro de seus sonhos, mas pede para que haja um debate sobre, dizendo que acredita que seremos capazes de torná-lo real. Essa mensagem não é passada de forma sutil, é praticamente esfregada na cara do público, seja através das imagens pretensiosamente deslumbrantes, dos diálogos expositivos ou da narração didática de Laurence Fishburne. Megalópolis (2024) é o maior ‘entendeu, ou quer que eu desenhe?’ da história do cinema!
Assistir a este filme me lembrou quando escutei Clube da Esquina pela primeira vez. Uma obra-prima experimental, que até ‘inventa’ notas musicais para provocar os sentidos através dos ouvidos. O disco, entretanto, foi recebido com frieza quando lançado em 1972, pois não era o que o público brasileiro, vivenciando o auge da ditadura militar, queria ouvir na época.
Há pouco tempo, Milton Nascimento saiu em turnê aos 80 anos e fez estádios lotados cantarem alto as músicas do Clube da Esquina. Estamos em 2024 e o álbum ainda é assunto. Há até quem reconheça como o maior trabalho musical da história do Brasil.
Megalópolis (2024) não é o primeiro filme de Francis que divide o público e se torna um enorme fracasso. Há, inclusive, um outro exemplo muito parecido na carreira dele. O Fundo do Coração (1981) faliu a American Zoetrope, tendo custado US$ 26 milhões e arrecadando apenas US$ 1 milhão ao redor do mundo. O longa, no entanto, ganhou status de cult e vem sendo reavaliado por muitos críticos e cinéfilos ao longo dos anos, sendo considerado por alguns — inclusive por mim — uma obra-prima subestimada.
Estou dizendo que o novo filme de Francis Ford Coppola vai ser reconhecido um dia como uma das maiores obras da história do cinema? Não, jamais diria isso. No entanto, tenho plena convicção de que a discussão vai ser forte o suficiente para que ele resista ao teste do tempo e seja um importante material de estudo acadêmico. Não tenho certeza se era essa a prioridade do diretor, mas ele conseguiu entregar algo incapaz de causar indiferença no público. Como essa experiência vai ser para você? Bem, você só vai saber se tentar descobrir.
Megalópolis (2024) é uma divertida e ultra pretenciosa aventura, cujo charme está no exagero. Um filme imperfeito, mas que em nome do sonho de um homem louco, tenta ser a fagulha de uma nova revolução cinematográfica. Aqui está uma prova de que o Movie Brats ainda vive. O que seria mais “Brat” em 2024 do que tirar US$ 140 milhões do próprio bolso e lançar um filme que a indústria inteira insistiu para você não fazer?
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