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…Sob a luz do luar, homens negros se tornam azuis…”, diz Juan, o personagem de Mahershala Ali no grande favorito do Oscar deste ano, em um monólogo extremamente humano e tocante que vemos no primeiro terço do filme. É justamente este momento que se torna a base para toda a obra.

“Moonlight Sonata” é uma das mais consagradas peças clássicas de Beethoven, e também uma das mais tristes melodias já compostas, seguindo uma estrutura musical de três andamentos. O filme se vale desta mesma construção para formar a narrativa do filme, ao longo de três atos a obra mostra a infância, juventude e vida adulta de Chiron.  O protagonista cresce em meio a perseguições, violência, uma mãe viciada e sem a presença de seu pai,  ausência paterna que lhe é consolada pela figura de Juan, um traficante de drogas. Como forma de se redimir eticamente pela sua vida no mundo do tráfico, o homem decide ajudar o garoto a se adaptar ao mundo, conhecer a si mesmo e compreender inúmeras questões existencialistas que o atormentam.

A estrutura do filme não é a única referência a peça clássica que pode se perceber no filme, a trilha sonora original também fica cada vez mais próxima a música de Beethoven conforme a obra avança, juntamente a outras músicas clássicas selecionadas. A trilha é essencial para a atmosfera melancólica que perpetua o longa, e também agrega ainda mais valor a incrível simbologia que o diretor Barry Jenkins traçou para a história, principalmente no uso da cor azul, planos simétricos e rimas visuais.  

O azul é comumente usado para representar a tristeza e também a masculinidade, o que torna sua utilização aqui perfeita para a proposta do filme, pois Moonlight trata-se, acima de tudo, de um estudo da masculinidade e sexualidade e sua formação ao longo de experiências de vida. Um tema antigo, mas ainda relevante para a atualidade, e uma das grandes virtudes do filme é conseguir tratar da ideia sem qualquer tipo de estereótipo ou clichês. A própria melodia “Moonlight Sonata” é evitada de ser diretamente tocada pois, além do apelo dramático da música (Já tendo sido usada inúmeras vezes no cinema), seria uma analogia óbvia demais. Não que as outras que foram escolhidas sejam lá muito sutis, mas o filme sempre opta por tomar caminhos o mais humanos e realistas possíveis. Isso, juntamente com o comprometimento admirável de todo o elenco, resulta em um dos mais comoventes e palpáveis filmes dos últimos anos.

Destacam-se do elenco o já citado Mahershala Ali, que transmite com perfeição todo o carisma, imponência e também arrependimento que o personagem necessita. Seu trabalho aqui é realmente digno da indicação ao Oscar recebida, porém, Travante Rhodes faz uma performance tão digna quanto como Cheron adulto; o ator teve a dificuldade de ponderar a mudança de personalidade sofrida pelo personagem entre o segundo e terceiro ato, ao mesmo tempo em que mantivesse toda a linha emocional já construída e estabelecida no personagem pelos dois atos anteriores, e o resultado não poderia ser mais satisfatório.

Entretanto, o filme não se safa de alguns problemas, por exemplo, a constante batida na tecla em cima dos temas abordados acaba gerando um sentimento de artificialidade na história, e alguns diálogos e takes acabam expondo demais algumas analogias que seriam mais interessantes se tratadas de maneira mais subjetiva. O monólogo de Juan já é mais que suficiente para atentar o público a respeito de todas as contraposições narrativas do diretor, não é necessário planos mostrando a lua para reforçar isso. O constante uso de qualquer artifício acaba tirando seu impacto.

É interessante que os espectadores se mantenham atentos ao uso da água e do já mencionado uso das cores, mais precisamente o azul. Sempre a vemos presente em momentos decisivos do protagonista, seja ele a usando, objetos ou as figuras masculinas atribuídas a ele ao longo da vida. A água também é presente na maior parte das rimas visuais criadas pelo diretor, e sua temperatura também parece um fator importante. O filme mostra o personagem a aquecendo quando criança, e depois vemos sua mania de mergulhar o rosto na água congelada quando adolescente e adulto, a água sempre parece o levar as decisões que acaba tomando.

O que esses detalhes realmente significam é sempre relativo, abstrato, como se deve ser. Popularizado por cineastas como Michelangelo Antonioni e Stanley Kubrick, o uso da simbologia na cinematografia, sem explicações ou significados muito claros, são as melhores formas de instigar o público ao pensamento e reflexão a respeito da história contada, para que a experiência do cinema não se resuma apenas a sentar em um acento por duas horas, decidir se gostou ou não, e ir embora sem ter levado nada de realmente relevante consigo. Barry Jenkins consegue trazer muito bem tudo isso.

Moonlight: Sobre a Luz do Luar, apesar de usar demais alguns artifícios narrativos de simbologia, enfraquecendo seus impactos, é sem dúvida, uma das mais interessantes e emocionantes histórias que vemos em anos, digno de cada uma de suas indicações, o longa promete entrar para a história como um dos grandes estudos de personagem do cinema atual. Barry Jenkins, apenas em seu segundo trabalho, entra para a nova leva de cineastas promissores que têm se formado em Hollywood nos últimos anos, e que prometem trazer de volta o cinema mais interpretativo e reflexivo que só vemos em diretores mais experientes como os Irmãos Coen, ou os que já estão perto do fim de suas carreiras, como Martin Scorsese. O futuro da sétima arte parece estar em boas mãos.

 

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.


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