
Então, como um raio de esperança na noite sombria (e cheia de filtros), o Espírito da Verdade, a Mulher-Maravilha, aparece para salvar o dia.
Com um arremesso de seu laço, ela reacende a nossa fé na DC e, com um golpe de espada, oblitera o gosto ruim em nossas bocas de todos os filmes de super-heroína sofríveis que vieram antes (Supergirl? Elektra? Mulher-Gato? O que é isso?). O filme da Princesa Amazona, a última parte na grande Trindade da DC, já devia ter acontecido há muito tempo, antes mesmo da febre dos filmes de herói, mas finalmente chega extravasando décadas de subutilização pela editora em um dos filmes de origem mais apaixonados de todo o gênero.
Ao longo de inúmeras interpretações, a Princesa Diana esteve resgatando Steve Trevor nas praias da Ilha Paraíso e iniciando sua jornada como defensora no Mundo dos Homens. Aqui, pouco mudou, exceto que estamos durante a Primeira Guerra Mundial, ao invés da Segunda ou o tempo presente.
A jovem Diana é ingênua e otimista. É hábil e poderosa, mas ainda com muito amadurecimento a ser feito, ela vê o mundo de forma maniqueísta e acha que todos os conflitos vão se acabar se ela for capaz de pegar o grande mal-feitor por trás de tudo que há de errado na vida. Mas quando ela é forçada a se deparar com os horrores da Guerra, mais sombria e mórbida que qualquer coisa que Zack Snyder poderia conjurar, vai ter que lidar com o fato que a humanidade não é tão idílica quanto ela imaginava.
Os filmes da DC tem tido uma inegável atração pela grandiloquência e o espetáculo de ação desenfreado, mas isso se torna superficial quando não se baseia em cima de personagens bem-construídos que nos deixem investidos. Assim toda essa megalomania não passa do desfecho de circunstâncias que não foram estabelecidas.
Por outro lado, a Marvel também não é inocente nesse aspecto, mas de forma inversa:
Não são poucos os filmes da concorrência que acertam nos personagens e caracterização, mas faltam a ambição de ser qualquer coisa além de entretenimento passageiro.
Mulher-Maravilha finalmente consegue conciliar o melhor de dois mundos. Patty Jenkins entrega um filme grandioso, que não aceita ser “mais um filme de super-herói” e exige ser percebido, mas faz isso por merecer, possuindo o elemento mais importante de todos:
O coração.
Aquela humanidade inerente nos personagens, sua complexidade frágil e as afeições que sentem um pelo outro, que faz com que eles transcendam meros arquétipos e saltem da tela como se fossem reais. A relação de Diana com Steve Trevor é o que ancora o filme, ambos perfeitamente caracterizados por Gal Gadot e Chris Pine, e formando um dos melhores romances do gênero (e sim, incluem piadinhas, a mais temida entidade dos filmes de herói ). Mas nenhum dos personagens coadjuvantes falta o seu devido carisma, de Hipólita e Antíope na ilha de Temiscira, aos camaradas de guerra de Steve, Sameer, Charlie e o Chefe. Até os vilões, General Ludendorff (muito diferente da figura real) e Dra. Veneno, tem um momento para compartilhar uma das risadas mais estranhas e deliciosamente sádicas que vocês vão ver no cinema.
Até em elementos delicados, como o obrigatório (e definitivamente previsível) twist de final do segundo ato e o clímax ligeiramente megalomaníaco, ele consegue caminhar essa linha tênue e transformar essas potenciais críticas ao filme em elementos que contribuem ao arco narrativo de Diana.
É um filme de super-herói clássico por excelência. Nada de subversivo ou desconstruído aqui, o que temos é uma afirmação dos valores altruístas e benevolentes que nossa amazona encarna. Diana é uma guerreira porradeira que empunha uma espada e escudo, tal qual a sua versão dos Novos 52, mas, mais importante, ela também é o ideal feminino forte que William Moulton Marston, Elizabeth Marston e Olive Byrne desenvolveram (com menos bondage):
A heroína que ama a todos.