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The Room” é um filme de 2003 escrito, dirigido, produzido e protagonizado por Tommy Wiseau, uma das figuras mais bizarras, misteriosas e diferentes que já surgiu em Hollywood. Originalmente o filme foi considerado um fracasso absoluto, sendo considerado um dos piores – se não o pior – filmes já feitos. Porém, com o tempo, cada vez mais pessoas foram atraídas pela má fama do longa, e este se tornou o melhor caso de “Tão ruim que é bom” do cinema recente, sendo aclamado como um novo clássico cult e ganhando fãs e admiradores por todo o mundo. E então, James Franco e sua equipe de colaboradores (em especial Seth Rogen e Evan Goldberg) se reuniram para contar essa inesperada e curiosa história dos bastidores.

É interessante dizer que não é a primeira vez que o cinema nos traz um filme a respeito de um outro filme péssimo, isso já foi feito, e de maneira incrível, por Tim Burton no clássico de 1994 “Ed Wood”, filme sobre o pior cineasta da história, e “The Disaster Artist” prova de vez que filmes sobre fracassos conseguem ser muito mais interessantes que filmes sobre sucessos, como por exemplo o mediano “Hitchcock” de 2009., sobre a produção do clássico Psicose. No filme, acompanhamos a amizade entre Tommy Wiseau (James Franco) e Greg Sestero (Dave Franco), dois atores que, por serem péssimos, não conseguem emplacar suas carreiras em Hollywood, e decidem criar seu próprio filme, já que ninguém mais os daria uma chance.

O grande desafio aqui, era retratar a figura de Tommy Wiseau da maneira certa. Por parte do roteiro, seria muito fácil só ridicularizar as particularidades e estranhezas do personagem em uma comédia depravada e vazia; por parte da atuação, era muito fácil cair em uma imitação barata, ainda mais pelo fato de Tommy ter sido constantemente imitado por inúmeros atores desde o lançamento de ‘The Room’. Sendo assim, era um filme com uma grande possibilidade de erro, e só de ter conseguido acertar o ponto exato de tom e caracterização, o longa já merecia a atenção que está tendo, mas ele vai além. A interpretação de Franco é cuidadosa e bem construída, conseguindo tanto ser extremamente engraçado em certos momentos, quanto passar muita tristeza, indignação e frustração através de seu olhar em outros. Dave Franco, em sua primeira colaboração com o irmão, apesar de ser inferior em presença e força dramática, não é apagado pela figura de Tommy e tem bastante espaço para se desenvolver e fazer a plateia entender o lado de Greg Sestero na problemática relação que tinha com o amigo antes e durante a produção.

A direção de Franco faz um bom uso de câmera na mão, tanto para momentos mais íntimos quanto nos mais densos, e consegue ainda construir sequências sem cortes que colocam o espectador dentro do estúdio do filme. O roteiro também merece ser exaltado, muito além de uma comédia sobre um filme ruim, “O Artista do Desastre” nos faz refletir uma questão essencial na condição humana: a busca pelos sonhos. Apesar de toda sua estranheza, ideias ruins e excentricidades, Tommy Wiseau é alguém que luta por seus sonhos até o último minuto, e mesmo que não “The Room” não seja bom o suficiente, ele fez o que sonhava – e não é isso que todos queremos, afinal?

Também merece menção o excelente trabalho de maquiagem, que tornou James Franco extremamente parecido com Wiseau, e a iluminação do filme, que é usada de uma maneira que lembra peças teatrais, refletindo assim as ambições do personagem e a ideia de que a vida é um palco onde cada um tem que dar o melhor de si e fazer o show acontecer, muito recorrente em toda a narrativa.  O único problema do filme que deve ser apontado, é a grande quantidade de personagens, já que nem todos conseguem ter peso ou desenvolvimento o suficiente, além do final que, apesar de compreensível, foge do que realmente aconteceu na época que “The Room” foi lançado. De qualquer forma, foi uma mudança que apenas reforça a natureza inspiracional da história.

O Artista do Desastre”, consegue a proeza de transformar uma das mais esquisitas e controversas personalidades de nossa era em um exemplo de superação, além de concretizar “The Room” como uma peça única da sétima arte. Com magníficas interpretações, uma direção de destaque e um excelente roteiro, “O Artista do Desastre” é a Magnum Opus da dupla Franco & Rogen, e entra instantaneamente para a lista de filmes imperdíveis do cinema moderno.


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