
É uma pergunta que a Marvel já se fez até mesmo nos quadrinhos, quando parecia ter encontrado a resposta ao colocar o insano Garth Ennis nos roteiros do personagem. Abusando de humor negro para tornar justificável e acessível a cruzada de Frank Castle de uma forma atual, Ennis imprimiu um estilo que acabou conquistando muitos fãs. No entanto, adaptações que procuraram emular o seu senso e estilo não deram muito certo; O Justiceiro (2004) tentou usar alguns dos momentos (e personagens) criados por Ennis, tratando-os com seriedade e logicamente perdendo o que lhes faziam ser bons nos quadrinhos, enquanto O Justiceiro: Em Zona de Guerra (2008) achou que o escracho e a bizarrice funcionariam plenamente em um filme de ação, ignorando completamente que se faz necessário um cuidadoso processo de adaptação nessa transposição de mídia e resultando em um filme que não chega a ser ruim, mas que nunca foi levado a sério.
Já tínhamos visto qual seria a pegada do Justiceiro da Netflix interpretado por Jon Bernthal na segunda temporada de Demolidor, então é meio óbvio o caminho escolhido pelo serviço streaming para o personagem. Dar-lhe profundidade, levá-lo a sério, trazer peso e dramaticidade às suas ações – lidando de forma inteligente com temas como estresse pós-traumático e luto. E isso funciona tão bem por que vivemos em uma época onde um personagem como Frank Castle é novamente bem recebido. Aliás, diria até que ele é extremamente desejado.
E em sua série solo, isso não é diferente. Obviamente, sendo o protagonista e não apenas um coadjuvante de luxo, o que temos agora é um espaço muito maior para desenvolver esses temas que puderam ser apenas arranhados em Demolidor. O produtor Steve Lighfoot foge do caminho fácil que seria colocar Castle enfrentando uma família mafiosa genérica (quantas vezes já vimos isso?) e cria uma trama muito maior e mais complexa, onde o protagonista precisa lidar novamente com seu passado, ao descobrir que existe muito mais por trás da morte de sua família do que acreditava anteriormente. Eventos que remontam de seu tempo servindo no Afeganistão, e que o colocam na caça a um renomado (e corrupto) agente da CIA.
No primeiro episódio, inclusive, temos um aspecto muito interessante de Frank Castle nos quadrinhos: o fato dele, de forma inconsciente (ou consciente em algum grau) usar a morte da família como uma justificativa para fazer o que faz. É óbvio que a cruzada do Justiceiro começa como vingança, mas aos poucos ela se torna mais do que isso, e fica claro que aquele mundo traz prazer a Frank Castle. Sentimos isso na série. Sentimos um júbilo interno e reprimido quando o protagonista descobre que precisa voltar à ação. É a sua vida ganhando propósito de novo. O único propósito possível.
Mas talvez o aspecto mais interessante da série seja o seu senso de responsabilidade para com o público e para com a história que está sendo contada. Obviamente, as cenas onde o Justiceiro usa de toda sua violência para eliminar criminosos são satisfatórias, trazem o senso de justiça (ou punição) que o personagem precisa fazer você acreditar, e nos sentimos plenamente realizados. No entanto, algo interessante é que não há um objetivo de glamourizar isso. A série dá um grande destaque para o estresse pós-traumático dos soldados americanos que voltaram para casa após um longo período na guerra e não conseguiram se readaptar, inevitavelmente nos fazendo lembrar casos como o do fuzileiro Chris Kyle, o mais letal atirador de elite da história americana, que acabou sendo assassinado por um veterano que ele ajudava a se recuperar das marcas da guerra. Uma história inclusive já levada para o cinema em Sniper Americano, de Clint Eastwood.
São diversos os momentos em que vemos as reuniões de veteranos dividindo suas experiências e tentando se ajudar a superar o trauma. Para o público brasileiro, as cenas podem não ter tanto peso, mas é necessário pensar o quão importantes elas são para os americanos. Estatísticas comprovam que o suicídio mata hoje mais militares dos Estados Unidos do que as próprias operações de combate em zonas de conflito. E o número de suicidas após servir no Afeganistão é particularmente grande. Não à toa, a guerra em que Frank Castle participou na série.
Também existem momentos onde a série aborda um tema bem controverso entre os americanos: o controle do porte de armas, um direito garantido pela Segunda Emenda à Constituição Americana. Pode parecer estranho que uma série onde um homem portando todo tipo imaginável de armas de fogo lide com esse assunto, mas na verdade o tema é abordado de uma forma que não deixa claro qualquer tipo de posicionamento ou até mesmo alguma acusação de levantar esta ou aquela bandeira. É simplesmente uma questão de demonstrar que o debate existe e que precisa acontecer. Ironicamente, a estreia da série acabou sendo adiada justamente devido a (mais) um recente massacre na história americana, o de Las Vegas, que deixou 58 mortos e mais de 500 feridos.
Todo esse contexto, que acaba por focar um pouco mais do que os quadrinhos no lado militar de Frank Castle é que o acaba tornando o personagem tão atual e novamente interessante. Em sua criação, no início dos anos 70, o Justiceiro vinha na sombra de filmes como Dirty Harry e Desejo de Matar , alimentando um crescente desejo americano por “justiça com as próprias mãos”. É uma escolha interessante a atualização da Netflix, e uma progressão natural que hoje ele seja retratado como basicamente uma criação do sistema militar americano.
A Netflix parece também ter finalmente feito as pazes com o seu sistema de 13 episódios, que nas últimas séries da Marvel acabou se tornando um forte motivo de críticas entre os fãs. Isso porque séries como Luke Cage, Punho de Ferro e até mesmo a segunda temporada de Demolidor tiveram uma enorme dificuldade em costurar uma trama coesa que fizesse jus à quantidade de horas. O Justiceiro, no entanto, consegue ser consistente na história que está sendo contada, atravessando os 13 episódios sem deixar a qualidade cair. Obviamente, existem episódios de transição que contam com uma narrativa mais lenta, porém necessária para o escopo maior. De uma forma geral, a série consegue ser tão satisfatória quanto a primeira temporada de Demolidor ou Jessica Jones – o que é realmente ótimo.
Jon Bernthal está perfeitamente confortável no papel de Frank Castle, algo que já era esperado, afinal sua performance foi altamente referenciada como o grande destaque da segunda temporada de Demolidor. A verdade é que esse é o tipo de papel que cai como uma luva para Bernthal, cuja carreira encontrou um salto após ter dado vida ao inesquecível Shane Walsh em The Walking Dead.
Mas não é só de Frank Castle que O Justiceiro se sustenta. Todo o elenco de personagens é bem escrito e interessante, não apenas individualmente, mas na forma como se relacionam com Castle. Nesse quesito, o destaque vai para o ator Ebon Moss-Bachrach, intérprete de David Lieberman, mais conhecido pelos fãs de quadrinhos como Microchip – o gênio tecnológico que age como uma espécie de aliado para o Justiceiro. A reinvenção do personagem para a série é muito esperta, deixando de ser o sidekick gordinho (um conceito que sempre pareceu muito estranho para um lobo solitário como o Justiceiro) e tornando-se alguém muito mais complexo cuja história se entrelaça de diversas maneiras com a de Castle. O roteiro e direção aproveitam muito bem a química entre os dois atores, e sua relação acaba se tornando crível e orgânica – além de humanizar muito mais o personagem de Frank Castle. De certa forma, Micro acaba funcionando como essa ponte de ligação emocional entre o espectador e o Justiceiro.
No entanto, a Netflix ainda parece ter um certo problema em abraçar as raízes de quadrinhos nestas séries da Marvel – algo que prejudicou imensamente Punho de Ferro, a série que até o momento foi a que mais precisou de elementos fantasiosos típicos dos gibis. Assim como vimos o uniforme do Demolidor apenas no último episódio da primeira temporada da série do Homem Sem Medo, o icônico traje da caveira do Justiceiro aparece em apenas 3 momentos aqui. Analisando de uma forma geral, não é algo que chega a incomodar, visto que os momentos em que ele aparece são satisfatórios, mas é inegável que existem situações na série onde a caveira caberia perfeitamente, e a Netflix opta por utilizar Castle com um traje tático completamente preto. Parece ainda haver uma certa resistência em abraçar o absurdo dos quadrinhos ou em dar aos fãs o que eles querem.
No fim, O Justiceiro é uma série que vem em um momento perfeito para as produções da Marvel na Netflix, onde o frenesi inicial trazido por Demolidor estava sendo aos poucos substituído por uma certa desconfiança após o mediano Luke Cake, o desastroso Punho de Ferro e o pouco impactante Os Defensores. Frank Castle chegou para elevar novamente o nível, e é muito bom ter o Justiceiro de volta em ação. Bem vindo de volta, Frank.