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É sempre interessante lembrar que Pokémon é literalmente a maior franquia do mundo. O que começou simpaticamente em 1996 com Pokémon Red e Blue no Game Boy é hoje um império de estimados 90 bilhões de dólares (!). E por mais que a franquia não seja estranha às telonas (afinal os longa-metragens em anime são uma tradição anual desde 1998 e muitos já chegaram aos cinemas brasileiros) é curioso que com tamanha presença cultural tenha demorado tanto tempo para ganharmos a sua versão em live-action ocidental.

Mais curioso ainda que ao invés de apostar na fórmula conhecida e consagrada de batalhas travadas em ginásios e mundos novos de aventura onde o perigo é bem maior (perdão), o estúdio tenha optado em se basear no spinoff para o Nintendo 3DS de 2016, Detective Pikachu, como base para o primeiro filme blockbuster da franquia. E o resultado deu estranhamente certo, Pokémon: Detetive Pikachu é uma aventura divertida e acessível que ainda faz jus em celebrar a franquia colossal.

Tim Goodman é um jovem morando em uma pequena cidade com uma vida monótona que vai para a cidade Ryme, onde humanos e Pokémon convivem, depois da notícia da morte misteriosa de seu pai distante. Lá ele se depara com o ex-parceiro Pokémon de seu pai, um Pikachu falante e sem memória, e juntos eles precisam encontrar a resposta do mistério da morte de seu pai, em uma conspiração que ameaça a relação de todos os humanos e Pokémon.

Com essa premissa, a proposta inusitada de buscar inspiração em Detective Pikachu até que faz muito sentido:  As narrativas de detetive neo-noir e o buddy cop movie são estruturas altamente reconhecíveis e acessíveis para o grande público, e já se provaram o veículo perfeito para um pastiche com bichinhos animados no passado (vide Uma Cilada Para Roger Rabbit e Zootopia). Desse modo, o filme consegue conversar com os fãs dedicados, os que tem apenas boas lembranças de assistir o anime e jogar game boy na infância e aqueles que não sabem nada de Pokémon, mas acham o Pikachu uma gracinha.

Essa estrutura também abre caminho para a utilização dos Pokémon para diferentes e espertas gags que brincam com os clichês de filme policial (Mr. Mime, Charizard e Ditto são bons exemplos) ou simplesmente como uma adição colorida ao cenário, garantindo que cada um aponte empolgado quando o seu favorito passar pela tela. A decisão de representá-los de forma fiel às suas formas kawaii originais, com apenas as texturas e pêlos realistas, também é muito acertada e eles interagem com os atores live-action de forma convincente, tornando Ryme uma cidade muito estilosa e orgânica.

Os protagonistas são outro ponto alto: É feita a escolha inteligente de fazer de Tim um avatar de todos os Millenials, que queriam ser treinadores Pokémon quando criança, mas agora chegaram aos vinte e tantos e seguem suas vidas frustrados quando, de repente, tem a oportunidade de viajar para a cidade dos Pokémon como um escapismo nostálgico. Justice Smith interpreta o papel de forma natural e relacionável. Já Ryan Reynolds faz uma versão família de sua rotina cômica de Deadpool sob a pele de uma das mascotes mais reconhecíveis no mundo. E o pior é que funciona! E não apenas pela pura bizarrice do conceito (é uma ideia melhor que o Pikachu com vozeirão do jogo).

Mas se a dupla principal brilha, o mesmo não pode ser dito pelo elenco coadjuvante, que inclui Kathryn Newton, Ken Watanabe e Bill Nighy. Todos bons atores cujos personagens são pouco desenvolvidos e parecem ter relevância leviana ao filme. Newton em especial, é apresentada como a lead feminina do filme, uma estagiária de jornalismo investigativo procurando se provar, mas ela sempre sente como um elemento paralelo à jornada principal de Tim, como uma ideia não-finalizada.

O terceiro ato é ambicioso, mas um tanto desconexo, com conceitos e motivações que poderiam ser melhor estabelecidos, ainda mais quando já envolve ideias que já seriam controversas quando BEM desenvolvidas. As reviravoltas do mistério são previsíveis, se apoiando demais nos elementos mais derivativos das histórias policiais de forma negativa.

Mas mesmo esses elos mais fracos se entregam para uma conclusão emocional satisfatória para a relação entre Tim e seu Pikachu e seus ressentimentos paternos. Porque não é só de batalhas Pokémon e fofura que pode viver um filme.

A trama termina fechada e redondinha, sem se afobar para apresentar ambições de sequências (o que sempre é digno de respeito, nessa era pós-MCU), mas eu duvido que seu legado termine por aqui. Pokémon: Detetive Pikachu pode parecer apenas um filme bacana e bem amarrado à primeira vista, mas com o tempo, é possível que ele se prove a porta de entrada para toda uma leva de filmes de Pokémon e até mesmo outros filmes (que prestam) baseados em games.



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