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fantastic-four-2015-poster-doctor-doomDepois de uma produção polêmica, que envolveu desde mudanças de etnia a cenas completamente refilmadas, passando por ameaças de boicote por parte dos fãs, o reboot do Quarteto Fantástico da Fox finalmente fez sua estreia nos  cinemas. Recebido com desconfiança – algo ainda mais fortalecido pelas declarações pouco empolgantes dos próprios atores nas últimas semanas – o filme rapidamente foi bombardeado com críticas negativas que apenas espelharam o resultado pífio que o filme vem fazendo nas bilheterias.

Mas afinal, o filme é realmente tão ruim ? Ou será que muito disso vem também do fato da Fox desde o início ter ignorado completamente a opinião dos fãs deixando o diretor Josh Trank fazer o que quiser com a franquia, que de longe não estava lembrando em nada a equipe dos quadrinhos? Seria então uma certa implicância dos fãs?

Infelizmente não. Não é o caso. Eu na verdade gostaria muito que o filme fosse bom, independente de ser da Fox, da Marvel Studios ou seja lá de quem fosse. Só queria um bom  filme. Mas sério, não rolou. O Quarteto Fantástico de Josh Trank falha em detalhes simples que acabam por danificar o todo, fazendo com que no final a experiência seja ruim. Afinal, se falhasse apenas como adaptação de quadrinhos, seria passável. Mas não, ele ainda precisa falhar como filme. O que, em pleno 2015, e em uma época onde o gênero super-heróico reina nos cinemas, é algo imperdoável. Mas afinal, onde erraram?  O que aconteceu para que o filme seja considerado esse tremendo problema de público e crítica?

Por incrível que pareça, o filme começa bem. Sério, a primeira metade do longa (apesar de uns problemas aqui e ali) é realmente decente. Há quem diga que essa primeira parte, apesar de boa, não lembra em nada o Quarteto Fantástico dos quadrinhos, mas discordo. Realmente, se for comparar com a versão regular da família mais famosa da Marvel não serão encontradas semelhanças, isso porque o filme – como já era óbvio desde o início – baseia-se na versão Ultimate dos personagens. Seguindo esse material como base, o filme não faz feio, tá tudo lá. Reed Richards criando em sua garagem um protótipo de teleportador para outra dimensão, seu amigo Ben Grimm participando do processo, a exibição na feira de ciências, e inclusive o recrutamento de Reed para o edifício Baxter, um antro de gênios onde conhece o Dr. Franklin Richards e sua filha Sue Storm. Tá tudo no filme, é material dos quadrinhos, e ia caminhando com uma boa construção.

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E assim o filme segue por pouco mais de uma hora, desenvolvendo a trama, trabalhando os personagens e construindo as relações de uma forma interessante que até prende a atenção. Miles Teller é um Reed interessante, bastante confortável no papel do nerd que finalmente sente-se em casa, e o bromance com o melhor amigo Ben Grimm (Jamie Bell) possui uma boa construção. O rapaz tem bons diálogos com Sue (Kate Mara), que apesar de pouco desenvolvida no filme, cumpre bem o seu papel de “filha do papai nerd que não se mete nas confusões”. E Johnny (Michael B. Jordan) age mais aqui como um filho rebelde e revoltado do que como o inconsequente playboy engraçadinho visto nos quadrinhos, o que não chega a ser um problema, apesar da mudança de personalidade desnecessária. Já Victor (que continua sendo Von Doom, e não Domashev como havia sido dito anteriormente) é uma espécie de ativista-hacker-anarquista-terrorista, com uma origem também mais puxada para sua versão Ultimate, e cuja caracterização não chega a ofender. Toby Kebbell inclusive se sai bem no papel.

Então finalmente ocorre o incidente com o teleportador, os personagens ganham os seus poderes – numa sequência muito bem feita – e aí… aí dá tela preta. Surge na tela o aviso: “Um ano depois”. E aí, meu amigo… aí a casa cai. Não sei o que aconteceu, não sei se isso envolve o problema que a Fox teve com o filme, que os obrigou a refilmar diversas cenas incluindo o ato final, mas o tom do filme muda completamente. Toda a construção que estava sendo trabalhada simplesmente passa a inexistir, sub-tramas são criadas simplesmente para serem ignoradas e esquecidas cinco minutos depois, e boas cenas são completamente desperdiçadas em um roteiro que se torna absurdamente clichê e cansativo.

O ápice do problema é quando Victor Von Doom ressurge, agora como Destino, e o que vemos é simplesmente a pior caracterização do personagem em qualquer mídia. Sim, pior até do que o filme de 2005. Destino possui poderes telecinéticos, sai literalmente explodindo cabeças e de repente decide que o planeta precisa ser destruído, porque… oras, porque sim. Ele é o vilão do negócio, e Simon Kinberg (roteirista do filme) provavelmente achou que isso seria motivo suficiente. O visual de Destino também colabora para a péssima caracterização do personagem, sendo a cereja do bolo de desastre. Se queriam tanto insistir no personagem vestindo um capuz de mendigo, que pelo menos tivessem seguido a versão Ultimate, o que seria menos desastroso. E olha que o Dr. Destino Ultimate tem pernas de bode! E ainda assim seria melhor.

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Sabe aquela velha fórmula quando o vilão surge pela primeira vez na metade do filme, dá um cacete nos heróis, e depois eles se reúnem para derrotá-lo no ato final? Então. Aqui NÃO é assim.

Destino surge no que – pelo menos para mim – parecia ser a metade do filme, humilha o Quarteto, que imediatamente vai atrás do vilão e o derrota. Assim. Do nada. Na lata. Toda a interação que os personagens precisavam ter na segunda metade do filme, e simplesmente não tiveram, é empurrada goela abaixo do espectador em pouco menos de 10 minutos finais, onde aprendem a força da amizade e impedem os planos do vilão. Não é apenas clichê. E aliás, o problema não é ser clichê. O problema é mesmo a resolução simplória e infantil costurada às pressas para dar uma conclusão ao filme. E quando você menos espera, o filme simplesmente já está terminando.

Basicamente é como se fossem dois filmes, um primeiro bem decente e bem construído que realmente parece caminhar para algum lugar, e um segundo completamente desconexo onde existem erros de continuidade, um roteiro confuso e fraco, além de atores claramente desconfortáveis em seus papéis. Confesso que nunca vi isso acontecer em filme nenhum. É uma experiência sofrível.

De uma forma geral, talvez as críticas negativas e a péssima bilheteria que o filme vem enfrentando acabem gerando algo positivo para o futuro. Assim quem sabe os estúdios aprendam – e não me refiro apenas à Fox – a ouvir um pouco mais o que os fãs tem a dizer, e a tentarem pelo menos seguir algo fiel ao material original dos quadrinhos. Não é difícil. Adaptações existem e as vezes se fazem necessárias, mas desrespeitar toda uma obra estabelecida e com fãs, em prol de tentar algo “original” pode se revelar como um tiro no pé. Afinal o filme caminhava bem enquanto seguia os quadrinhos, ainda que fosse a versão Ultimate. Agora o futuro do Quarteto Fantástico no cinema é negro, e acho bem difícil que chegue a acontecer um acordo com a Marvel como foi feito com o Homem-Aranha da Sony. O que é uma pena. Essa família abriu as portas para a Marvel nos quadrinhos na década de 60, e é lamentável que receba esse tratamento. Mereciam mais. E nós também.

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