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Batman e Scooby-Doo se conheceram em um especial de TV de 1972, e desde então tiveram ocasionais encontros em animações e histórias em quadrinhos. A união entre estas duas marcas longínquas da Time Warner geralmente segue um modelo bem definido, acompanhando o mesmo formato dos episódios de “Scooby-Doo”. Este é o caso de “Scooby-Doo & Batman: Os Bravos e Destemidos”, longa-metragem de animação que compensa o “mais do mesmo” com uma trama surpreendentemente articulada para uma produção infantil.

A história começa quando Batman arquiteta um plano para testar o time da Mistério, S/A. Ele pretende provar se eles são bons o bastante para entrar para uma equipe de detetives que ele está formando (que conta com Caçador de Marte, Questão, Canário Negro, Homem-Borracha e outros). Quando aprovados, seu primeiro caso é resolver um mistério antigo que nem o próprio Homem-Morcego conseguiu decifrar.

Não faz sentido julgar “Scooby-Doo & Batman: Os Bravos e Destemidos” como comumente faríamos com “Batman: A Piada Mortal” porque se trata se uma animação evidentemente feita para entreter crianças pequenas. Era uma aposta segura: a Warner Bros. Animation, ciente da popularidade de suas franquias, simplesmente resolveu uni-las e arrecadar alguma grana. Dinheiro fácil, em outras palavras.

Entretanto, existe mais nesse processo do que uma mera lógica corporativa. O que os roteiristas James Tucker (“Batman do Futuro”) e Paul Giacoppo (“Justiça Jovem”) conseguem é criar uma trama dinâmica o bastante para envolver pessoas de qualquer faixa etária. Há, inclusive, algumas boas recompensas para quem é mais íntimo das histórias em quadrinhos clássicas de Batman, além de minúcias que referenciam encontros passados entre os dois personagens.

Estamos falando de uma produção derivada de “Batman: Bravos e Destemidos”, então não espere pela mesma figura que lidera o panorama atual da DC Comics com seriedade e dotes sombrios. Temos, em vez disso, uma versão mais descontraída e canastrona do Cavaleiro das Trevas. Seus trocadilhos remetem imediatamente à fase do personagem em meados dos anos 60, liderada por ninguém menos que Adam West na televisão, que serve como óbvia inspiração para o tom em geral da animação.

E quando digo que este Batman é canastrão, não estou exagerando: a “canastrice” em questão é acentuada pelo bom trabalho de dublagem de Diedrich Bader – que havia expressado o super-herói no desenho de 2008. De maneira semelhante ao que Will Arnett faz em “LEGO Batman: O Filme”, Bader pega um pouco da rouquidão de Christian Bale e mistura com um toque meio bêbado. O resultado é, no mínimo, excêntrico e divertido.

Se não sobreviveu em uma caverna na última década, percebeu que “Scooby-Doo” ganhou inúmeras modernizações ao longo dos últimos anos. Duas delas foram muito satisfatórias: “O Que Há de Novo, Scooby-Doo?” e “Scooby-Doo! Mistério, S/A” (esta ainda mais Millenium) foram felizes em trazer os conceitos do desenho clássico para o século XXI, dando uma expressão moderna aos personagens conhecidos. Chegou um momento em que o Cartoon Network perdeu a mão, resultando no assombroso “Que Legal, Scooby-Doo!”, que mais se parece com uma sátira retirada de “Family Guy” do que um desenho do amado dogue alemão.

Muito que bem: esqueça tudo isto. Paralelamente às séries animadas que ganham novas versões de tempos em tempos, o estilo de “Scooby-Doo & Batman: Os Bravos e Destemidos” parece ter congelado em 2004, mantendo-se mais tradicional, ainda que com ligeiras mudanças nos seus traços. Pode ser um raciocínio anacrônico demais, mas não é necessariamente ruim porque serve como alternativa para quem estranha o que anda acontecendo na TV.

Nem todo mistério é resolvido satisfatoriamente, seja no mundo de Scooby-Doo ou do Batman. Quanto ao primeiro, com certeza você se lembra de alguma identidade incoerente sendo revelada por baixo da máscara de algum monstro, e no contexto do segundo, temos o recente e decepcionante caso do rosto por trás de Jack, o Estripador como grande exemplo. É o famoso “muito barulho por nada”.

Felizmente, os roteiristas de “Scooby-Doo & Batman: Os Bravos e Destemidos” se esquivam com surpreendente inteligência desta armadilha. Suponho, inclusive, que Tucker e Giacoppo tenham se inspirado na trama do jogo “Batman: Arkham City” para elaborar e resolver o mistério do Crimson Cloak (não sei como traduziram para o Brasil) – para seu próprio bem, você provavelmente só compreenderá quando assistir.

Por fim, o que resta não é o gosto amargo de ser enganado com truques baratos por mais de uma hora, mas a gostosa sensação de ter passado seus últimos 75 minutos como uma criança de dez anos de idade.



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