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Houve um tempo em que o Capitão Marvel foi o super-herói mais popular do mundo, superando as vendas do próprio Superman, com as histórias mais coloridas e criativas dos quadrinhos. Mas com o fim da Era de Ouro (sem falar em processos por parte da DC, que alegava que o personagem era parecido demais com o Superman) ele foi descontinuado da Fawcett Comics e desapareceu por décadas. Eventualmente sendo timidamente absorvido pela própria DC e até mesmo perdendo os direitos do seu nome no ínterim para a Marvel (e com a detentora atual do título se provando uma franquia bilionária, parece que Billy Batson não vai recuperá-lo tão cedo). O Shazam, como agora precisa ser chamado, é relegado a um status de cult entre quadrinistas apaixonados pelo personagem e melhor lembrado pelo quebra-pau com o Superman em “O Reino do Amanhã”. Os tempos de glória do vermelhão ficaram para trás…

Ou é o que pensávamos, pois Shazam! é o melhor filme do DCEU e traz o herói revitalizado e pronto para agradar velhos fãs e conquistar toda uma nova geração que sequer ouviu falar nele antes. Sem falar no filme favorito da minha criança de dez anos interior.

Billy Batson é um menino de rua de 14 anos que nunca desistiu de encontrar seus pais biológicos, enquanto foge de todos os lugares para onde é mandado. Justo quando ele é adotado por um novo lar na Filadélfia, ele é invocado pelo mago Shazam e escolhido para ser o novo protetor da humanidade. Quando Billy fala seu nome, ele se transforma no poderoso… bem, ele ainda precisa bolar um nome, não é como se Capitão Marvel fosse mais uma opção…

Conscientemente exorcizando de vez o tom agressivo e pretensioso que tornou o universo DC tão estigmatizado no cinema e nos quadrinhos, o filme se reconecta com as raízes do personagem e aborda os super-heróis como veículo de fantasia de poder infantil. Afinal, o quão divertido seria para uma criança se tornar um super-herói?

Mas a sua clara maior inspiração é a versão retrabalhada por Geoff Johns e Gary Frank, que deu um toque contemporâneo ao personagem, se desprendendo da sua vibe de HQ lúdica dos anos 40 e modernizando toda a mitologia para as sensibilidades de uma nova geração. Mas por mais que a revitalização tenha sido um sucesso, certos elementos da minissérie são um tanto cínicos ou violentos demais, reflexo claro dos rumos que a editora levava durante os controversos Novos 52. O filme mantém um pouco da agressividade da HQ, em uma representação verossímil da Filadélfia contemporânea, mas amenizando as partes mais extremas. Um bom exemplo sendo o próprio Billy, que ainda é um pivete espertinho, diferente do bom menino dos anos 40, mas é menos gratuitamente antipático e malicioso. Isso representa melhor a essência do Capitão Marvel, sem falar no rumo atual da DC, pós-Renascimento, que valoriza mais o otimismo e heroísmo (e isso é algo que o próprio Johns parece concordar, como pode ser visto na sua run atual do personagem, que dá continuidade à sua minissérie, mas busca resgatar a magia dos gibis originais).

O marketing teve o bom senso de não entregar o filme todo nos trailers, então ele ainda é cheio de surpresas e sequências que foram mantidas em segredo, incluindo certas viradas que qualquer um familiarizado com as aventuras do Big Red Cheese já deve suspeitar, mas não deixa de ser extremamente satisfatório.

Com um elenco impecável, Zachary Levi usa de seu carisma e timing cômico natos para retratar o crianção empolgado no corpo de um Super-Homem, enquanto Asher Angel toma conta da carga dramática de Billy Batson com facilidade. Até faz esquecer dos tempos em que achar bons atores mirins era uma tarefa árdua. Por falar em bons atores-mirins, Jack Dylan Grazer (de “It – A Coisa”) rouba a cena como Freddie Freeman, o irmão adotivo de Billy e única pessoa a saber de sua identidade secreta. A sacada de transformá-lo em um nerd fissurado nos outros super-heróis da DC é genial e vai fazer dele o favorito e mais identificável para muita gente.

Apesar desse ser abertamente o filme família da DC, ele ainda possui elementos mais sinistros que qualquer filme da Marvel, incluindo a presença de certos monstros e demônios com o potencial de as traumatizar as crianças na plateia (no melhor sentido de como “A Fantástica Fábrica de Chocolates’, “A História Sem Fim” e outros clássicos infantis foram inesperadamente sombrios onde se esperava algo inofensivo). A cereja no bolo é o Dr Silvana de Mark Strong, um dos vilões mais genuinamente assustadores dos últimos tempos.

O personagem original dos quadrinhos é um cientista louco arquetípico, no entanto, como isso faria ele parecer derivativo demais todas essas décadas depois, ele foi completamente reinventado. Tomando como ponto de partida a sua versão dos Novos 52 e daí seguindo para rumos completamente diferente de qualquer coisa que já vimos nos quadrinhos, mas ainda muito interessante, com uma motivação complexa e relevante para os temas do filme ao mesmo tempo que faz dele uma figura imponente e ameaçadora, o melhor vilão do DCEU até agora.

Mas mais assustador que Silvana ou demônios mágicos são os monstros da vida real:

O filme consegue lidar de forma muito sincera os traumas que essas crianças passaram, seja o abandono que Billy sente em sua busca por seus pais biológicos, ou o sentimento de invalidez de Freddie com sua deficiência. São momentos importantes em que deixamos a fantasia de lado um pouco para doses de realidade crua, remediada pela representação extremamente positiva de sua família adotiva, os Vasquez, uma das melhores inspirações que os personagens, e o público, podem ter.

Então tenha um nível de desconfiança a todos os argumentos que tentam reduzir o filme a apenas uma “sessão da tarde” (as palavras-chave de toda crítica brasileira preguiçosa de um blockbuster). O filme vai além de um pastiche super-heróico de Quero Ser Grande e possui mais substância, e um gigantesco coração, do que muitos vão dar crédito.

E assim, com sua história de famílias adotivas composta por membros disfuncionais, a DC finalmente consegue a sua franquia equivalente a Guardiões da Galáxia (e nem precisou do Jared Leto distribuindo camisinha usada e rato morto pra isso). Bastou a palavra mágica:

Holy Moley!

Quero dizer…

Shazam!



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