
Desde Janeiro de 2014, quando foi exibida a tão esperada terceira temporada de Sherlock da BBC, os fãs sabiam que iria começar o tormento com os já tão famosos hiatos que a série apresenta entre suas temporadas. Muito disso devido à fama alcançada por seus protagonistas Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, o Sherlock e o Watson respectivamente, que acabaram conquistando o coração de Hollywood e passaram a ter uma agenda lotada e requisitada.
Portanto, é de se imaginar a tamanha felicidade quando foi anunciado que dia 1º de janeiro de 2016 Sherlock estaria de volta, por meio de um episódio especial de Natal, algo corriqueiro nas séries da BBC, como Doctor Who. Tudo bem, não era um retorno para a quarta temporada, ainda não saberíamos o que diabos aconteceu após aquele gancho sensacional no final da terceira, mas o que isso importava? Era hora de matar a saudade do nosso detetive favorito, em um episódio especial de mais de uma hora e ainda com um plus principalmente para quem é fã de longa data do personagem literário. Isso porque, diferente da série regular que trata de trazer os personagens de Arthur Conan Doyle para os dias atuais, o especial intitulado de A Noiva Abominável imagina as aventuras de Sherlock na Inglaterra do século XIX, exatamente como na obra literária.
O episódio, escrito por Mark Gatiss (que aliás, é o Mycroft Holmes na série) e Steve Moffat, os criadores da série, usa como inspiração uma citação de Holmes no conto “O Ritual Musgrave“, onde o detetive comenta sobre alguns casos resolvidos, sendo um deles justamente “o caso de Ricoletti do pé torto e sua esposa abominável”. Foi o suficiente para que os roteiristas trouxessem uma história original e muito bem bolada que começa com o aparente suicídio de Emelia Ricoletti, a noiva do título, cujo visual completamente pálido e batom borrado extremamente vermelho compõem o tom de horror sobrenatural que permeia o episódio. Mas calma aí… sobrenatural? Em Sherlock? Pois é, já que aparentemente a Senhora Ricoletti volta dos mortos e começa uma série de assassinatos, começando por seu próprio marido.
Colocar o cético Sherlock Holmes em meio a casos que apelam ao sobrenatural é sempre interessante e curioso, e já havíamos visto um pouco disso na segunda temporada da série no episódio O Cão dos Baskerville, que adapta o romance de mesmo nome para a telinha. Aqui novamente vemos Sherlock sendo levado ao seu limite para resolver o caso, negando-se obviamente a se deixar levar pelas conclusões sobrenaturais, e ainda tendo que aturar um Watson levemente tentado a acreditar que a Noiva Abominável é realmente um fantasma vingativo.
Para aqueles que são fãs do universo de livros de Sherlock Holmes e adoram uma referência, A Noiva Abominável é um prato cheio. Por se passar na Era Vitoriana, o episódio aproveita para se aproximar da obra literária de forma muito mais fiel do que é possível na série regular, usando e abusando de conceitos e passagens citados por Conan Doyle. Talvez o mais interessante seja a aparição do irmão de Sherlock, Mycroft Holmes, que é completamente retirada de sua primeira aparição nos livros, no conto “O Intérprete Grego”, com Sherlock encontrando o irmão em seu local de descanso favorito, o silencioso Clube Diógenes. E o destaque vai para a caracterização de Mark Gatiss, extremamente gordo por meio de maquiagem, e ficando assim bem mais fiel ao personagem nos livros, algo que os fãs mais xiitas reclamavam.
Não pretendo dar spoiler aqui, mas apenas digo que aqueles que pensavam que o episódio seria apenas uma breve aventura sem qualquer conexão com a série, foi completamente surpreendido. Gatiss e Moffat conseguiram fazer uma ligação entre presente e passado de uma maneira magnífica, conectando as duas eras de uma maneira plausível e ainda dando continuidade aos acontecimentos que vimos no final da terceira temporada da série. Apesar de após esse momento o ritmo do episódio ser um pouco prejudicado, o banho de referências e fanservice compensa o serviço, afinal temos até mesmo uma adaptação clássica do duelo entre Sherlock Holmes e Professor Moriarty nas Cataratas de Reichenbach, um dos momentos mais famosos da história do detetive, onde enfrenta o seu mais terrível inimigo no conto “O Problema Final“. E é um alívio ver que o ator Andrew Scott não enferrujou, com seu afetado Moriarty ainda com os mesmos maneirismos que fizeram tão marcante sua encarnação do personagem.
De uma maneira geral, A Noiva Abominável é um material sem sombra de dúvidas maravilhoso para os fãs de Sherlock, seja na série da BBC ou nos livros. Mantendo o respeito de sempre ao material original, com ótimas tiradas e a química incrível existente entre os atores Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, o episódio especial foi claramante feito com um carinho imenso, e seu único problema é que na verdade ele não mata a saudade que estávamos da série. Na verdade, ele aumenta ainda mais a vontade de assistir logo a quarta temporada e saber como aquele gancho vai se desenrolar. Só nos resta esperar pacientemente. E que esse sociopata altamente funcional não demore a nos agraciar com sua inteligência e sagacidade.
E se você é fã de Sherlock Holmes, não deixe de conferir o nosso vídeo onde o Jon fez uma criteriosa análise sobre as cinco melhores interpretações do maior detetive de todos os tempos:
https://www.youtube.com/watch?v=YIyzof4zAIQ