
Mas o fanservice – muito bem vindo, por sinal – de Dave Filoni não parou por aí. Quando a Disney comprou a LucasFilm e consequentemente todo o universo Star Wars, a primeira coisa a se fazer foi cancelar projetos realizados por outros canais\estúdios, o que incluiu a série The Clone Wars, na qual Filoni trabalhou por 6 anos totalizando 121 episódios divididos em 6 temporadas, e que era veiculada no Cartoon Network. Com o cancelamento precoce, muito do material já produzido para próximas temporadas acabou sendo finalizado em forma de livros e quadrinhos, porém muitas pontas soltas ainda precisavam ser amarradas. E se no último episódio da primeira temporada de Star Wars Rebels tivemos o retorno de Ahsoka Tano, a togruta que serviu como padawan de Anakin Skywalker em The Clone Wars, dessa vez tivemos ainda mais ligações com a série, com o retorno de outro personagem querido pelos fãs da animação. O ex-CloneTrooper, o Comandante Rex.
Trazer um personagem interessante e bem construído como Rex de volta acaba sendo uma excelente escolha, não apenas por seu sucesso entre os fãs que acompanhavam The Clone Wars, mas pelo acréscimo que o veterano de guerra traz para a célula rebelde, que aliás, começa a tomar consistência e se tornar algo com um mínimo de organização nesta temporada. Se antes os “rebeldes” do título se resumiam à tripulação da nave Ghost, agora conseguimos enxergar o panorama maior e as tentativas de se firmarem criando algo que realmente possa de alguma forma bater de frente com o Império, por mais que a tarefa seja impossível. A busca por suprimentos, combustível e armas, somada a uma necessidade sempre existente de encontrar uma base na qual possam se estabilizar, são alguns dos percalços sofridos pelos personagens enquanto trabalham para formar as bases daquilo que conhecemos como Aliança Rebelde em Uma Nova Esperança. Personagens que servem como peça-chave da Aliança já começam a surgir timidamente nos episódios, como o Senador Bail Organa, e uma interessante participação de sua filha Leia Organa, ainda adolescente. Acredito que não deva demorar para vermos figuras carimbadas da Rebelião como Mon Mothma, General Ackbar e até mesmo o piloto Wedge Antilles.
Ao mesmo tempo que aprofundou na estrutura da Aliança Rebelde, Star Wars Rebels também entrou a fundo na mitologia e nos costumes dos Jedi e dos Sith, fechando uma outra ponta solta criada graças a The Clone Wars, que foi a descoberta de Ahsoka Tano de que seu mestre, Anakin Skywalker, é o homem debaixo da máscara de Darth Vader, ao mesmo tempo que o próprio Vader descobre que sua padawan ainda permanece viva, tornando um confronto entre os dois algo inevitável. Confronto esse que ocorre apenas na season finale, mas que vale a pena por toda a carga dramática do momento, além das decisões – algumas até bem ousadas – dos produtores para todo o episódio em si. A maior delas, mas que no fim das contas acaba sendo óbvia para fechar mais um ponta solta, é o retorno de um idoso Darth Maul, que como visto em The Clone Wars, sobreviveu ao ferimento infligido por Obi-Wan Kenobi em A Ameaça Fantasma. Vivendo nos subterrâneos de um antigo templo Sith no desolado planeta de Malachor (fãs de KotOR vibram), Maul esteve à espera de alguém que pudesse ajudá-lo a pôr as mãos em um holocron carregado de conhecimento Sith, para então colocar em prática sua vingança contra o Imperador, seu antigo mestre. É assim que Maul vê em Ezra a possibilidade uma conversão para o lado negro, tentando fazer do rapaz seu próprio aprendiz.
As insinuações de que Ezra poderia cair para o lado negro estão presentes em todo o episódio, seja em suas ações ou em simples diálogos com Kanan, demonstrando que o garoto possui pelo menos alguma predisposição para o lado sombrio da Força ou para a utilização de técnicas Sith, visto que na cena mais emblemática do episódio, com a qual nos despedimos da temporada, o garoto consegue abrir o holocron Sith utilizando-se de seu ódio. Ódio esse, ocasionado pelos acontecimentos ocorridos em Malachor, que incluem um drástico ferimento sofrido por Kanan e a suposta morte de Ahsoka pelas mãos de Darth Vader.
Apesar da temporada ter sido bem constante, desenvolvendo tanto a trama quanto os personagens, e ter apresentado um final corajoso e até mesmo ousado para uma animação cujo público infantil é o maior consumidor, Star Wars Rebels ainda peca em alguns detalhes. A divergência de tom entre alguns episódios consegue ser gritante, onde momentos sérios e importantes para o desenrolar da história são intercalados com episódios incrivelmente bobos envolvendo droides perdidos e afins, com um tom extremamente infantil que não condiz com a trama central. A impressão que passa para o espectador é que a série ainda não conseguiu se definir, oscilando entre o sério e o infantil na busca de agradar dois públicos, perdendo assim a chande de manter uma identidade única.
Mas apesar dos pesares, Star Wars Rebels ainda entrega um material de qualidade que faz jus ao universo Star Wars, e nota-se uma preocupação dos produtores em produzir algo inédito, que acrescente e que crie uma curiosidade e uma preocupação do público com os personagens, sem interferir no cânone já estipulado pelos filmes. Minha curiosidade pelos destinos de Ezra e Kanan equivale àquela pelos destinos de Rey, Finn, Kylo Ren e cia. E isso é algo digno de nota.