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Em momentos mais difíceis da vida, podemos ver a pessoa que somos ser confrontada por quem queríamos ser, e o resultado desse embate quase sempre é muito revelador. Como filme, The Flash promove esse tipo de reflexão existencial de forma metafórica, não só individualmente, mas também em todo o mercado de filmes e séries de super-heróis.

Assim como a maioria das produções de alto orçamento de Hollywood, The Flash mira no espetáculo como principal trunfo comercial, ao tentar entregar algo revolucionário na sua linguagem visual, que em uma quantidade significativa de momentos, não funciona.

Reprodução/DC Studios

Colaborador de longa data de James Gunn, conhecido por ajudar a mudar a expressão visual do co-CEO da DC Studios depois de Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017), o diretor de fotografia Henry Braham deixa clara a sua influência cartunesca no trabalho de Andy Muschietti, quando cada enquadramento e sequência de cenas do filme entoa como uma sequência narrativa de quadrinhos.

A decisão de emular visualmente os quadrinhos trouxe um grande desafio para Andy, que já tinha em mãos a dura missão de conseguir fazer um filme, cujo personagem destaque sofre grande dependência de efeitos visuais para funcionar.

Juntando a ambição de fazer algo revolucionário, com as dificuldades impostas pelas decisões visuais e, todo o turbilhão de mudanças e problemas que a produção enfrentou, o diretor acabou jogando The Flash involuntariamente nas profundezas do “Vale da Estranheza“, especificamente em algumas cenas que não parecem sequer finalizadas.

É até nobre a atitude de Andy de não tentar fugir do desafio usando atalhos conhecidos da indústria, como abdicar de iluminação, ou até mesmo usar filtro cinza para maquiar um CGI de baixa qualidade. A tentativa era deixar tudo exposto em tela o mais nítido possível. De certo modo, isso até acontece, porém, é inegável que em alguns momentos fica estranho e foge totalmente do que se espera de algo que se vendeu como grandioso.

Reprodução/DC Studios

Se a tentativa era ser revolucionário com essa suposta grandiosidade, The Flash, tal qual Barry Allen em todo o filme, está atrasado, pois narrativamente não é a primeira vez Multiverso é um tema abordado em Hollywood e, mesmo que fosse visualmente impecável, sofreria uma dura comparação no quesito com Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023), que obviamente, tem uma abertura criativa muito maior por ser uma animação.

Mas vamos lá, existia mesmo a necessidade deste filme ser grandioso ou revolucionário? O ótimo trabalho de roteiro de Christina Hodson responde com muita clareza que, não.

Se visualmente Andy queimou suas asas tal qual Ícaro ao voar perto demais do sol, narrativamente ele fez um golaço ao lado de Hodson, quando decidiu trazer de volta uma leveza às histórias de super-heróis, que parecia ter sido perdida com a busca obsessiva do gênero por filmes-evento.

Quando explica o Multiverso usando macarrão, The Flash entra em conflito com qualquer complexidade que seu visual tenta vender, para trazer o foco do público para a história que realmente quer contar, que é sobre a construção da figura de um super-herói, através da autodescoberta.

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Reprodução/DC Studios

Essa história de autodescoberta não só é de Barry Allen, como também do Batman do Michael Keaton, que serve à trama como um lembrete do motivo pelo qual filmes de super-heróis se tornaram legais no passado.

É muito interessante ver o quanto Christina Hodson consegue ser técnica ao entender esses personagens e, promover uma correção de rota em alguns deles, especialmente no descaracterizado Barry Allen do SnyderVerso.

Ao contrário de filmes do gênero que se estruturam no drama com intervalos de alívio cômico, The Flash é estruturalmente escrito como uma comédia, que tem breves pausas para uma ação muito bem dirigida e, para um drama em grande parte muito bem trabalhado.

Sendo uma comédia, o filme humaniza Barry ao trazê-lo para o cotidiano, onde o personagem aparece enfrentando dilemas reais de pessoas normais.

Graças a essa decisão narrativa, também surgiu a oportunidade de fazer com que o Barry do SnyderVerso soubesse em tela que é irritante de forma orgânica, ao colocá-lo de frente com uma versão muito mais irritante de si mesmo.

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Reprodução/DC Studios

Para quem não gostava da performance de Ezra Miller no papel antes de The Flash, realmente pode ser duro ver uma versão dela ainda mais exagerada, remetendo a tons de Jim Carrey. Porém, isso é necessário para o arco de evolução do herói, que termina com sua versão principal quase perfeitamente caracterizada.

Claro, o próprio Ezra tem méritos nisso. Afinal, se dedicou muito ao papel atendendo reclamações sobre como sua caracterização não parecia adequada e, criou uma identidade muito forte com o personagem neste filme.

Graças as ótimas atuações e a narrativa estruturada na comédia, o segundo ato não é só bom, como é muito bom! É basicamente o coração da história, pois em síntese se aprofunda na evolução do Barry enquanto conta a origem do Flash de uma maneira extremamente criativa, em um filme que não é de origem.

A trama poderia se bastar pela atmosfera leve que construiu em sua segunda parte, pois assim terminaria muito bem. Porém, a necessidade de grandeza fez com que o terceiro ato trouxesse à tona um vilão completamente desnecessário e, uma tonelada de participações especiais que de nada servem à história.

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Reprodução/DC Studios

Visualmente, o layout dos portais remetendo ao trabalho de George Pérez em Crise nas Infinitas Terras é até algo bonito de se ver, bem como algumas participações especiais são empolgantes em uma primeira vista. Porém, ver isso em tela é como comer uma esfiha de uma famosa rede de fast food: em um primeiro momento, pode até aparecer algo saboroso, mas depois de um tempo, tem grande chance de te dar azia.

Antes do terceiro ato, este nunca foi um filme sobre o Flash enfrentando um vilão em específico, ou precisando da ajuda de um time com todos os personagens clássicos da DC. Esta era a história de como Barry Allen aprendeu que nem todo problema tem solução, e as vezes você só tem que desistir e seguir em frente.

O grande acontecimento do filme é Barry olhando para si mesmo, se tornando uma pessoa melhor com isso e, assim, influenciando na jornada de autodescoberta daqueles em sua volta, como o Batman e a Supergirl.

Isso fica evidente quando no final de tudo, não é uma tragédia ou uma participação especial bombástica que vai causar emoção no público, mas sim um lindo diálogo entre uma mãe e um filho.

Reprodução/DC Studios

A parte de The Flash que lida com o cotidiano do herói, com seu arco dramático, com a comédia, que remete ao nostálgico modo como Sam Raimi fazia seus filmes do Homem-Aranha no começo dos anos 2000, é definitivamente a melhor e mais atraente deste bom filme, que poderia ser ótimo ou excelente, caso não tropeçasse ao tentar se equilibrar entre contar uma boa história e ser um grande evento.

O espetáculo, o dito evento, é importante, isso e inegável. Porém, como Guardiões da Galáxia Vol. 3 (2023) trabalhou propositalmente há um mês, isso nunca vai ser maior do que a história, em nenhum contexto. Portanto, quando encara a si próprio, The Flash deixa a lição de que, nem todo filme precisa ser o melhor de todos os tempos parar ser marcante.

Aliás, é de certa forma poético que o DCEU seja encerrado oficialmente com a mensagem de que as vezes você só tem que seguir em frente e, deixar os problemas do passado no passado.

Em síntese, The Flash é uma produção que busca ser um grande evento ao apostar na megalomania do Multiverso, porém, briga consigo mesma quanto conta a simples – porém excelente – história de como Barry Allen se torna alguém mais completo.

Na tentativa de ser marcante pela grandeza, o filme se sai muito melhor quando coloca os pés no chão e revela a potência de sua alma.

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Nota 7


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