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Quando Natalie Portman foi anunciada no elenco de Thor: Amor e Trovão e apareceu empunhando o Mjolnir ao lado de Taika Waititi e Chris Hemsworth na San Diego Comic-Con de 2019, todo mundo vibrou. Afinal, o arco da Poderosa Thor de Jason Aaron figura facilmente entre as melhores histórias já publicadas nos quadrinhos do Deus do Trovão. Essa empolgação aumentou ainda mais quando Gorr, o Carniceiro dos Deuses, foi anunciado como principal antagonista do longa – afinal, esse foi um outro incrível arco escrito por Aaron nas páginas do título do Thor.

Mas confesso que, pelo menos no meu caso, a empolgação veio com um misto de desconfiança. Embora seja um grande fã do trabalho do talentosíssimo Taika Waititi, não consegui ver com bons olhos a ideia de colocar dois grandes arcos dramáticos do Thor, que funcionam de forma separada, condensados em uma trama de pouco mais de duas horas. Narrativamente falando, alguém iria sair perdendo.

Agora, Thor: Amor e Trovão finalmente chegou aos cinemas, e embora sim, o longa funcione (ainda que apressando muitos dos arcos de personagens), os vícios de Waititi dessa vez incomodam, devido à carga dramática que é perceptível que o filme deveria carregar em diversas cenas.

Reprodução/Marvel Studios

A força de Thor: Amor e Trovão está no espetáculo visual. Utilizando-se muito mais de uma trilha de rock oitentista do que no anterior, Taika Waititi transforma o filme em um grande show, com sequências inteiras de batalha embaladas por Welcome to the Jungle e Sweet Child O’Mine, que são justamente os momentos de maior brilho do longa. O clima despretensioso de aventura, embora destoe em uma trama que deveria oferecer tensão e sensação de perigo o tempo todo, é gostoso de assistir. E talvez esse seja o maior problema do filme: ele é uma aventura muito divertida… com uma trama que pedia algo diferente.

Na trama, reencontramos Jane Foster (Natalie Portman), que está passando por um difícil tratamento de um câncer no estágio quatro, e que quando fica completamente desenganada pela ciência, decide recorrer à magia asgardiana, ouvindo um chamado do Mjolnir e recebendo os poderes de Thor – o que recupera sua saúde temporariamente, mas ao mesmo tempo faz com que seu corpo não mais reaja aos tratamentos convencionais do câncer. Enquanto isso, surge a ameaça de Gorr, o Carniceiro dos Deuses (Christian Bale), um alienígena desiludido, que após perder sua única filha e descobrir que seu deus não se importa com nada, inicia uma caçada mortal a todos os deuses.

Tanto Gorr quanto Jane tem suas tramas apresentadas muito rapidamente, nos primeiros minutos do filme; assim como Thor, que aparece inicialmente com os Guardiões da Galáxia, mas que logo se separa deles para que seu arco seja colocado em rota de colisão com os principais acontecimentos do filme. Esse é um estilo de narrativa que já havíamos presenciado em Thor: Ragnarok, onde o arco envolvendo a busca por Odin (um gancho do filme anterior) foi resolvido em poucos minutos, pois Taika precisava organizar as peças no tabuleiro da forma que precisava para contar a história que tinha em mente.

Reprodução/Marvel Studios

Aqui, no entanto, isso pesa mais. Afinal, são vários arcos que precisam convergir rapidamente, e dessa forma nenhum deles tem o desenvolvimento necessário para uma trama dessa proporção. A própria ameaça de Gorr é muito mais comentada do que sentida, e o espectador precisa apenas acreditar que ele oferece perigo aos deuses, sem de fato ver isso acontecendo em tela.

O senso de perigo, aliás, que deveria ser um fator importante, é na verdade inexistente. Isso porque Waititi pesa a mão no humor, em piadas intermináveis, que se estendem muito mais do que deveriam. É inegável que o tom encontrado para Thor em Ragnarok foi o ideal para o personagem, pois soube se aproveitar da veia humorística de Chris Hemsworth – no entanto, é incômodo quando percebemos que ele deixou de ser um personagem inocentemente engraçado, para se tornar alguém completamente bobo.

Uma reclamação comum aos filmes da Marvel sempre foi a forma como o estúdio não permite que cenas dramáticas sejam… dramáticas, quebrando completamente o clima com uma piada mal encaixada. E aqui, infelizmente, isso acontece com certa frequência. O filme tenta vender o tempo inteiro um senso de urgência que não é condizente com a forma como a trama é conduzida. Na verdade, não é como se os momentos dramáticos terminassem em uma piada… na verdade, a piada é parte tão integrante da narrativa, que quando o drama chega, ele já está inserido dentro de uma piada. E isso gera uma desconexão do espectador com os personagens e com a trama.

Reprodução/Marvel Studios

Embora o roteiro seja eficiente em encaixar os personagens onde eles precisam estar para que a roda gire, aquele temor inicial se fez verdade, e tanto Gorr quanto Jane ficam muito aquém do potencial de seus arcos narrativos. No caso de Jane, fica uma sensação de que tudo foi muito apressado e carecendo de explicações, algo que vem incomodando nessa Fase 4 da Marvel, que é a forma relaxada como soluções são apresentadas. Ainda assim, todos os momentos da personagem como Poderosa Thor são muito bons, e seu drama pessoal é um dos poucos que tem um maior cuidado e sensibilidade por parte do roteiro e da direção.

Já no caso de Gorr, é apenas triste que um dos personagens mais complexos e perigosos de Thor nos últimos anos, seja apenas mais um típico vilão esquecível do MCU, que logo irá figurar no imaginário do espectador médio com o mesmo peso de outras figuras como Kaecilius e Ronan. Embora a interpretação de Christian Bale seja acima da média, o roteiro não ajuda que o personagem se torne memorável como um Erik Killmonger, outro vilão de apenas um filme, mas que foi muito mais marcante.

Exceto pelo problema já citado a respeito de como as situações são apressadas, o roteiro é funcional e os atos são bem definidos, o que de uma forma geral oferece um filme que é bem redondinho no se propõe a fazer e uma boa experiência cinematográfica para quem quer apenas se divertir de forma despretensiosa. E essa é uma faca de dois gumes para a Marvel, aliás.

A forma desconectada e descompromissada com a qual o estúdio vem levando a sua “Fase 4” já começa a incomodar muitos de seus fãs mais assíduos, mal acostumados com os dez anos de filmes conectados do MCU, que embora trouxessem aventuras isoladas, sempre ofereciam um capítulo que se encaixaria de forma interessante na tapeçaria maior. Thor: Amor e Trovão, assim com os outros filmes recentes da Marvel, não se encaixa com nada e nem constrói nada, muito mais interessado em contar sua própria história auto-contida. Embora isso possa parecer um ponto negativo para os que esperam “a próxima grande saga do Universo Cinematográfico Marvel”, não é nem de longe algo que prejudique o filme.

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Nota 8