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E as fantasias de poder?

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Deu no New York Times! Deu no New York Times! O artigo de A. O. Scott intitulado A summer without superheroes (Um verão sem super-heróis – verão é a estação de lançamento de filmes no hemisfério norte, que ocorre em julho e também época das férias) diagnostica a situação atual dos cinemas. As salas de exibição estão sem super-heróis, mas também sem filmes nenhum devido à pandemia do Novocoronavirus. Em meio a tudo isso, diversas bolhas de poder estão se rompendo ao redor do mundo e denunciando que autoridade, força, imposição, violência, e tantas outras características dos super-heróis mais aguerridos, como o Batman e o Superman do cinema, estão perdendo espaço para, quem diria, o diálogo e o entendimento. Scott fala o seguinte na conclusão do seu artigo:


E talvez, ao usarmos esse tempo para repensar muitos dos outros sistemas que pareciam tão imutáveis, tão naturais, que fazem parte da maneira como as coisas são, podemos refletir sobre por que pensávamos que precisávamos de todos esses heróis em primeiro lugar, ou como eles foram impingidos sobre nós. Eventualmente, voltaremos ao cinema, mas talvez sejamos menos dóceis, menos obedientes quando o fizermos. Não estou necessariamente dizendo que devemos abolir os Vingadores ou refutar o universo da DC, mas fantasias de poder estão ligadas às formas reais que o poder assume. O que parece uma perda neste verão sem super-heróis pode ser uma libertação.

Mas, o que aconteceu nesse “verão” sem super-heróis – além de não termos filmes e nem gibis sendo lançados por um bom tempo? Como Scott falou, muitas fantasias de poder caíram por terra, começaram a ser ainda mais questionadas, a ponto de fazer falar quem estava quieto e de colocar nas ruas quem deveria estar em casa por motivos de saúde. Parece mesmo que algumas pessoas usaram esse tempo inutilizado das quarentenas, do lockdown e do isolamento social para refletir o quanto são tolhidas pelo poder, venha ele de onde vier.

Em primeiro lugar e um pouco antes da Pandemia, as mulheres no cinema começaram uma campanha chamada #metoo contra os abusos sexuais que sofriam de diretores, de produtores e outros colegas da indústria cinematográfica. Esse foi um primeiro movimento que veio com algumas denúncias também do mundo dos quadrinhos de super-heróis e que resultaram num boicote a alguns desses autores. Mas foi a partir do mês de junho de 2020 que as denúncias calaram fortes homens da indústria dos quadrinhos super-heroicos como por exemplo Warren Ellis e Cameron Stewart.

A indústria dos quadrinhos e cinematográfica que produz nossos amados super-heróis e alimentam nossas fantasias de poder são comandas por homens. Homens ricos, riquíssimos, a quem interessa que essas fantasias de poder continuem a serem articuladas e desenvolvidas por todos nós pois isso permite que eles enriqueçam mais, possam mais que qualquer um de nós e que continuem a tripudiar sobre os mais fracos porque eles tem o poder. O poder que querem vender para nós.

Lemos muitas histórias em que personagens aloprados em busca de um poder fácil, tomam drogas ou se submetem a experimentos, ou são manipulados por governos, indústrias e corporações para que tenham em seus corpos um bocadinho dessa sensação. E nós somos esses aloprados, encantados com fantasias de poder que não podemos ter e replicando uma lógica de dominação sobre determinadas classes, gêneros e etnias, porque também temos vontade de ser supers. Mesmo que não seja conquistando respeito, mas por uma autoridade concedida seja pela forma como nascemos ou por um cargo, uma posição, uma quantia de dinheiro.

Os super-heróis, por outro lado, mereceram aquilo que fizeram com seus sacrifícios e por se sacrificarem é que eles merecem respeito, não por um mérito de serem quem são, ou por alimentarem fantasias de poder. Em geral, os heróis não querem ter os poderes que têm. Mas já que têm, os super-heróis têm em mente que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

No início de junho novamente revoltas dos negros estadunidenses contra assassinatos perpetrados por forças policiais viraram notícias que cobriram o dia inteiro no mundo todo. No abuso de seu poder mantenedor da “lei e da ordem”, alguns policias acham que tem o direito de decretar que vidas são dignas de serem vividas e quais não. E por isso, matam. Por suas fantasias de poder, por acharem que por esse mérito, o interruptor da vida de alguém está sob seus dedos. Principalmente de vidas negras.

Contudo, ao pensarem que “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”, pessoas negras se reuniram na internet e resolveram se reunir em protestos, pois sentem a responsabilidade de serem quem são e usam os parcos poderes que têm para, juntos, mudar vidas que, separados não conseguiam. Esse é o lema dos Vingadores “houve um dia, como em nenhum outro, que grandes heróis se uniram para combater um grande mal que, separados, não conseguiam dar conta”.

Mas não adianta saber tudo sobre Vingadores se você não pratica as suas premissas no dia a dia. Joss Whedon que o diga, pois foi acusado de ter atitudes abusivas durante os sets de filmagens. Assim, também entramos em uma outra crise, que a Pandemia sem querer revelou. A crise de nossas idolatrias. Joss Whedon era um ídolo de multidões por seu trabalho com Buffy, X-Men e os Vingadores, mas a partir de sua atitude de abuso de poder muitos passaram a questionar essa idolatria. O mesmo podemos dizer dos quadrinizas Cameront Stewart e Warren Ellis.

Que o diga J. K. Rowling, a escritora responsável pelos livros e filmes blockbusters do menino-bruxo Harry Potter. Depois de suas declarações contra pessoas transexuais seus discursos acabaram delatando contra as suas obras nas quais ela defende igualdade entre povos, sejam bruxos mestiços, centauros, gigantes e outras criaturas mágicas. Isso causou um estranhamento tão forte na comunidade de fãs de Hogwarts que chegou a se cogitar que sua conta no Twitter teria sido invadida.

Assim como questionamos a autenticidade das pessoas, precisamos, nesse momento de crise, como falou o articulista do New York Times, questionar também o poder e de onde vem as atitudes que formam esse poder. As nossas fantasias de poder também devem ser reconstruídas, afinal, para que queremos o poder? Por que todo mundo quer dominar o mundo, feito o Doutor Destino e não mudar o mundo, feito Ghandi? Por que o Batman é tão autoritário e violento, mesmo que jure não matar? Será que não é porque ele é embriagado de poder? Por que os heróis precisam sempre partir para a porrada antes de dialogar e se tornarem aliados? Por que toda e qualquer história de super-herói precisa ter uma cena de violência para vender?

Mas mais do que toda pergunta sobre poder, quando nos encontrarmos em uma situação-dilema do cotidiano e não soubermos a que lado nos aliarmos ou nos posicionarmos, vale ter a pergunta em mente: “Quem se beneficia?”. Assim podemos entender a natureza do poder na maioria das situações. No caso de uma temporada sem super-heróis no entretenimento, quem se beneficia é a sociedade, que passa a refletir mais sobre a necessidade de heróis, sejam eles super ou não para salvar a humanidade. Tina Turner já dizia “We don’t need another hero”, não precisamos fantasiar com alguém que venha nos salvar, ou com poderes sobrenaturais que nos imponham autoridade para, então, nos salvarmos. Precisamos usar o poder da união para gerar entendimento sem precisar recorrer a heróis ou poderes exorbitantes. A não ser por motivos de escapismo e diversão!

Agradeço ao amigo Samir Machado de Machado por me passar o link da matéria do NYT.

Guilherme "Smee" Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, redator e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. Entre seus quadrinhos publicados estão Desastres Ambulantes, Sigrid, Bem na Fita e Só os Inteligentes Podem Ver.


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