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Estamos em 2018. O cinema de super-heróis vive o seu melhor momento. Nas palavras do cineasta Kevin Smith, vivemos a “Renascença das adaptações de quadrinhos” – o que é uma declaração exagerada, mas carregada de bastante significado.   Ao longo dos anos, para chegarmos onde chegamos hoje, vários erros foram cometidos e muitos filmes ruins ficaram pelo caminho. Ainda que algumas aberrações ainda possam acontecer (Quarteto Fantástico, estou falando com você), acho que podemos chegar a um consenso de que trabalhar com super-heróis e adaptações de quadrinhos hoje em dia tornou-se algo tão comum que é quase difícil errar de uma forma obscena e ofensiva.

Acho que talvez por isso, seja tão difícil aceitar o que a Sony fez com a aberração chamada Venom. Ok, sejamos honestos… qualquer um que conheça um mínimo de quadrinhos, entenda o personagem ou tenha pelo menos assistido aos trailers, já imaginava a tempestade que se avizinhava. Só o fato de tentar inserir esse personagem de uma forma independente em um universo sem Homem-Aranha já gritava o erro óbvio e grotesco. Mas creio que ninguém esperava que fosse sequer possível entregar algo tão bizarro.

Venom funciona em seu próprio mundinho particular, ignorando todos os avanços que foram feitos dentro desse subgênero desde quando ele ainda engatinhava. E só para deixar claro, eu não estou defendendo que todos os filmes de super-heróis precisam seguir uma mesma fórmula, ou que Venom falha por não seguir alguma espécie de padrão obrigatoriamente estabelecido. O problema aqui é bem maior. E é um problema que nem sequer a censura R – defendida por alguns – resolveria. Isso porque o problema do filme é um problema completamente de identidade. Ele é um produto feito por pessoas que claramente não entendem o personagem, mas que pior ainda… parecem não entender como se faz um bom filme.

Na falta de uma palavra melhor, Venom é… bobo. O roteiro (assinado por três pessoas – sim, foram necessárias três pessoas para cometer isso) parece ter sido feito por um aluno da quinta-série. As situações são forçadas, as piadas são extremamente sem graça, os personagens são caricatos e unidimensionais, e todos tomam decisões de forma mecânica e pouco natural. A impressão que fica é que os roteiristas entendem pouquíssimo de relações humanas (o que dá um certo medo, parando para pensar) e simplesmente não conseguem criar links críveis para que as situações ocorram. Fica a sensação a todo momento de que o filme é corrido e as coisas são jogadas, mas não de forma proposital, e sim por inabilidade narrativa.

Esse roteiro incapaz, aliado a uma direção surtada de  Ruben Fleischer (Zumbilândia), faz com que Tom Hardy dê o seu máximo para tentar entender a bagunça narrativa em que se meteu. E quando ele finalmente entende isso, resolve entregar a performance caricata e exagerada que o personagem merece. Não é que Hardy esteja ruim, ele apenas se adapta da melhor forma possível à zona que é este filme. E no fim do dia, acho que isso pode ser creditado como um ponto positivo ao ator.

E por falar em ponto positivo, vamos lá… a interação de Eddie Brock com o simbionte Venom não é ruim. É na verdade, talvez, o que o filme tem de melhor a oferecer. Ainda que as tentativas de fazer humor com isso causem apenas vergonha, existe um pingo de inspiração na dualidade dos personagens e na forma como se ajudam e discutem o tempo inteiro.

Na verdade, acho que nos próximos dias o que teremos internet afora serão pessoas tentando entender qual foi afinal o objetivo desse filme, e não sei se os próprios envolvidos saberiam dar essa resposta. Ele tenta flertar com o terror, mas tudo que faz é passar vergonha. Então ele tenta se apropriar dessa vergonha para fazer piadinhas e criar cenas de humor negro, e apenas se constrange. Então ele decide largar tudo isso de lado e focar em ser um blockbuster expositivo carregado de testosterona super-heroica, e falha por só conseguir oferecer cenas confusas e pouco inspiradas com CGI péssimo. 

Agora, algumas perguntas ficam no ar. A primeira delas é se Avi Arad finalmente saciou a sua vontade de destruir Venom. O produtor  possui desde sempre uma obsessão doentia com o personagem, sendo responsável por ter obrigado o diretor Sam Raimi a inseri-lo no que acabou se tornando o hoje infame Homem-Aranha 3. Desde então, não satisfeito, Arad tem tentado ano após ano convencer a alta cúpula da Sony a fazer um filme do alienígena, usando até mesmo vendas de brinquedos como parâmetro, como evidenciado em seus e-mails de 2016 para Amy Pascal, que se tornaram públicos no mesmo ano via WikiLeaks.

A segunda, é se a Sony ainda vai insistir no seu universo cinematográfico de vilões do Homem-Aranha sem a presença do cabeça-de-teia. Porque se alguém ainda tinha alguma esperança de que Kevin Feige e a Marvel Studios liberassem o aracnídeo para esses filmes, Venom acaba de devorar seus braços, sua cabeça e suas pernas. A esperança de ver Tom Holland interagindo nesse universo agora se tornou apenas um cocô voando ao vento.