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Duna, a obra máxima de Frank Herbert, é um livro diferente. Amplamente apontada como uma das mais renomadas obras de ficção e fantasia de todos os tempos, ao lado de pesos pesados como O Senhor dos Anéis de J.R. R. Tolkien e Fundação de Isaac Asimov, Duna possui um aspecto menos épico do que essas outras, em uma história que explora as complexas interações entre política, religião, ecologia e tecnologia. Uma tecnologia, aliás, mostrada sempre como analógica ou biológica, de forma à história valorizar a importância da figura humana, fazendo com o autor possa se debruçar nos aspectos sociais que mais lhe interessam. Essa introdução se faz necessária, porque contexto é importante para entender o que você vai encontrar quando for assistir Duna nos cinemas, e por que o filme é daquele jeito.

Duna já teve uma adaptação cinematográfica meia-boca em 1984 por David Lynch, mas o que o diretor Dennis Villeneuve (A Chegada, Blade Runner 2049) está fazendo agora é completamente diferente.  Desde o início da produção, fica claro (pelo menos por parte do marketing) que a ideia é fazer o que Peter Jackson fez há 20 anos com O Senhor dos Anéis: pegar uma obra literária extremamente influente e levá-la ao público na forma de um grande blockbuster, fiel ao original e pronto para conquistar uma nova legião de fãs. E por isso aquela introdução ali no primeiro parágrafo: porque com Duna, isso é bem mais difícil de fazer.

Isso porque, além dos aspectos já citados que são fortemente explorados na história, o livro de Duna parece se preocupar muito mais com sua construção de mundo do que de fato com sua trama. Em Duna conhecemos a Casa Atreides, que está sendo transferida pelo Império para o planeta Arrakis, famoso por ser a única fonte no universo da especiaria Melange, crucial para viagens interestelares. O problema é que o planeta já era explorado pela Casa Harkonnen, mas a substituição não passa de um plano do Império junto com o barão Vladimir Harkonnen (Stellan Skarsgård), para a destruição da Casa Atreides, vista pelo Imperador como uma ameaça devido ao seu crescimento e ao carisma de seu líder, o duque Leto Atreides (Oscar Isaac). Em meio a isso, temos o protagonista, Paul Atreides (Timothée Chalamet) que está não apenas envolvido em todo esse complô político, mas também descobre-se como o messias de uma antiga profecia.

Timothée Chalamet vive o protagonista, Paul Atreides

E o mais interessante do filme, e que pode ser problemático para alguns, é o fato de Villeneuve não parecer ter se importado em torná-lo palatável para o grande público. Não que ele simplesmente ignore esse aspecto, até porque Duna vem na esteira do maior fracasso de bilheteria da carreira de Villeneuve, Blade Runner 2049, o que deve ter lhe ensinado algumas lições, especialmente no que diz respeito às expectativas do público contra sua própria visão artística. Criação é algo que envolve muito ego, mas em produções dessa escala é preciso ter um bom equilíbrio, afinal a obra vem também carregada das expectativas de um grande estúdio.

Claro, com seu visual belíssimo, cenários de tirar o fôlego e a constante sensação de grandiosidade – muito disso voltado para a ambientação e a escala de basicamente tudo – Duna tem sim ares de um épico (muito mais do que o livro original, para ser sincero). Embora dedicado a entregar a experiência mais fiel possível para aqueles que já são fãs de Duna, Villeneuve se aproveita dos poucos momentos de ação real que o livro oferece para entregar o espetáculo visual que muito estarão procurando na película. Mas embora esteja sim muito mais disposto do que em outros de seus trabalhos a entregar algo mais comercial,  ele não tem o menor interesse em sacrificar sua visão para isso – ou pelo menos o que considera crucial.

Um exemplo prático, e que foi uma reclamação constante das primeiras impressões da crítica especializada, reveladas há alguns meses: o filme que está chegando aos cinemas agora é a apenas a primeira parte da história, embora isso não seja evidenciado em nenhum trailer ou pôster.  O que é curioso, já que quando o logo de Duna aparece pela primeira vez na tela, nos primeiros minutos de filme, ele vem acompanhado do subtítulo “parte 1”. E esse aspecto de ser a primeira parte de um todo, é algo que faz parte da visão peculiar de Villeneuve.

Seria fácil, para qualquer outro diretor, dividir esses filmes de uma forma que beneficiasse a narrativa na forma mais “padrão ” de se fazer cinema – que nesse caso seria criar uma ameaça mais presente em todo o filme, para ser batida no terceiro ato, criando no espectador uma sensação de conclusão e de expectativa para o que vem em seguida.  Mas claro, criar esse senso de conclusão significaria rearranjar a narrativa e, portanto, mesmo que em uma pequena escala, modificar a história. Algo que Villeneuve não está disposto a fazer.

Villeneuve tem uma visão bem específica para Duna

Dessa forma, entra em cena o aspecto mais divisivo de Duna: o final que não é final. Muito tem se falado – e muito será falado ainda – sobre o quanto essa é uma reclamação “infundada”, simplesmente porque parece ilógico exigir um final de algo que é claramente a primeira parte de uma história maior e que inclusive é sinalizado dessa forma graficamente.

Mas a grande questão não é a forma como o filme acaba, e sim porque ele foi idealizado dessa forma.  Quando brinca com nossas expectativas e finaliza seu filme de uma forma que chega inesperadamente, Villeneuve surpreende pois preza sua visão em sacrifício de um aspecto cinematográfico muito clássico: a estrutura.

Villeneuve quebra a estrutura cinematográfica à qual estamos acostumados, o que causa uma estranheza pela expectativa do algo mais. Mas isso é completamente intencional, visto que em sua concepção do que precisa ser uma adaptação de Duna, aquele momento do livro precisa ser o final de seu filme exatamente daquela forma – mesmo que isso faça parecer que os créditos subiram no que seria um segundo ato. Ele sabe que Duna é o que é por sua visão fora do convencional, e entende que essa precisa ser também a alma de seu filme se quiser entregar uma boa adaptação. E é só isso que o diretor quer. A experiência de assistir Duna  (muito mais do que qualquer outra adaptação) é que a recepção do público será drasticamente diferente entre aqueles que leram a obra de Frank Herbert, e aqueles que não leram. É quase como um presente para os fãs, ou no mínimo uma adaptação feita por um fã meticuloso.

Claro,  mesmo com toda essa demonstração de cuidado, o filme não vai agradar a todos os fãs da obra de Frank Herbert. Embora fiel, Villeneuve traz mais epicidade e também corta muito da gordura que o livro traz, especialmente na jornada de Paul e sua mãe pelo deserto até se juntarem aos Fremen, o que pode incomodar os mais ferrenhos defensores dos aspectos religiosos e políticos, que estão ali, mas são apenas pano de fundo em prol de um maior foco nos personagens.

A sequência corre risco?

Mas claro, é preciso dizer que Villeneuve se arriscou aqui. Sua principal tarefa ao longo de 2 horas e 35 minutos é manter o público interessado na história de Paul Atreides o suficiente para se tornarem ávidos para a segunda parte. Mas ela realmente virá? Da forma como foi estruturado, Duna vai conseguir conquistar uma amplitude de espectadores que demonstrem essa empolgação na forma de bilheteria?

Por mais que Duna seja um filme rico em temas e Villeneuve tenha caprichado no espetáculo visual, ainda assim é uma história sobre o Paul Atreides de Timothée Chalamet, que assim como no livro, quanto mais vai se entendendo e se aproximando de sua própria figura messiânica, mais vai se tornando um personagem menos ativo e mais contemplativo.

O longa conta com pelo menos 70% do livro original, então fica a dúvida de como Villeneuve pretende trabalhar no possível segundo filme. Embora a história a partir desse ponto se torne muito mais focada em Paul e nos Fremen, e portanto muito mais importante conceitualmente e narrativamente, é quando ela perde muito do ritmo. Não por culpa de Villeneuve, mas da própria história de Duna, é difícil ficarmos emocionalmente investidos. E talvez esse seja o maior problema do filme – especialmente quando ele precisa conquistar o público para garantir sua sequência.

Nota 8


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