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Dando continuidade ao nosso especial de Sandman (que você pode conferir a primeira parte clicando aqui), chegou a hora de falarmos sobre uma das edições mais famosas e queridas pelos leitores da obra: Um Sonho de Mil Gatos. Nos mostrando que os sonhos não são uma exclusividade dos seres humanos, o conto foi escrito por Neil Gaiman e ilustrada por Kelley Jones, sendo publicado na edição de número 18, em agosto de 1990.

Como eu já havia mencionado na primeira parte desta série, Morpheus – o Sandman – não é um ser de forma definida: sendo uma entidade, um Perpétuo, o senhor dos sonhos pode assumir a forma que desejar e se comunicar com quem bem entender. Da mesma forma, embora seja o protagonista da série em si, Morpheus nem sempre é o personagem principal das histórias, servindo muitas vezes como elo de ligação entre o ser e o sonhar.

E é, juntando essas duas premissas, que a edição 18 nos surpreende de forma extremamente positiva. Ao nos apresentar uma fábula em que gatos são o ponto principal da trama, Gaiman nos coloca os bichanos como muito mais do que animais domésticos, mas também como seres sonhadores e dotados de ideais próprios. Inclusive, um dos muitos pontos interessantes nesta história é como o autor optou por transmitir as falas dos gatos, juntando a estética do balão de fala com o balão de pensamento. Cabe destacar que não é a primeira nem a última vez que vemos isso na história: muitos personagens, incluindo Morpheus e os Perpétuos, possuem balões característicos com suas personalidades, tornando suas presenças realmente inconfundíveis.

Como eu já havia citado neste artigo aqui, Um Sonho de Mil Gatos é uma história que pode ser lida de forma isolada, sem depender de fatos ou acontecimentos das edições anteriores – bem como não afeta as edições seguintes. Sua trama, no entanto, serve para enriquecer ainda mais a mitologia de Sandman e nos mostrar a presença dos sonhos para além dos seres humanos.

Bom, mas sobre o quê trata este conto, afinal? Como o próprio nome já deixa claro, esta história é literalmente sobre sonhos. Contudo, não estamos diante de meros devaneios ou de simples pensamentos que ocorrem em nossas mentes quando não estamos despertos. Estamos lidando com sonhos que, se sonhados por um número suficiente de seres vivos, podem realmente se realizar e alterar a realidade. E tudo começa quando uma gata, desolada por ter seus filhotes abandonados e mortos pela família humana que lhe abrigava, começa a rezar e a sonhar, buscando um amparo para a dor que sentia e uma resposta de como vencer a subordinação que sua raça sofria pelos humanos. E foi, com este pensamento, que a gata adentrou o reino do sonhar.

Aqui, começamos aperceber a dimensão que o reino de Morpheus possui. Este, assumindo a forma de um gato preto, começa a conversar com sua visitante e a lhe dar uma espécie de resposta para suas indagações. O fato de Sandman assumir uma forma diferente da que conhecemos, bem como dialogar com a gata e a receber nos domínios do Sonhar nos mostra que os sonhos, definitivamente, não são uma exclusividade dos humanos. Todos os seres podem, e devem, sonhar.

Conforme os quadros passam, vemos Morpheus explicando para a gata que o mundo nem sempre foi como é hoje. Há muitas eras atrás, eram os gatos quem dominavam o planeta, e os humanos, pequenos seres, lhes serviam de alimento. Porém, em uma determinada noite, um humano teve um sonho, uma espécie de profecia.

Ao pregar sua inspiração aos seus semelhantes, disse que todos deveriam sonhar não com o mundo como ele era, mas sim com o mundo que queriam: um mundo onde não fossem mais as presas, mas a espécie dominante. Para isso, entretanto, um número suficiente de humanos deveria sonhar, deveria almejar essa mudança; afinal, os sonhos moldam o mundo. Num determinado dia, quando cerca de mil humanos sonharam, juntos, com a alteração da realidade, esta se confirmou. Essa modificação, conforme as palavras de Morpheus, foi capaz de mudar o universo desde o começo até o fim dos temos, de tal maneira que o tempo em que os felinos dominavam o planeta sequer existiu.

Quando acordou, a gata tinha apenas uma missão em mente: viajar o mundo e espalhar sua palavra, para que, um dia, um número suficiente de gatos fosse capaz de sonhar com a mudança. Sua perseverança e fé eram evidentes. Crente de que os sonhos eram a chave para que sua espécie deixasse de ser explorada e subordinada, a felina seguia firme nos seus ideais e mantinha intacta a esperança. Mesmo passando fome, percorrendo longas distâncias e abdicando do conforto que os humanos lhe proporcionavam, sua certeza de que cabia a si a transformação servia de combustível para enfrentar os percalços de sua jornada.

O que ela não sabe, porém, é que convencer os outros a partilharem do mesmo sonho – e da mesma esperança – é um trabalho difícil. Após finalizar sua pregação, vemos que nem todos partilham da mesma crença. Um dos gatos que estava presente durante as palavras fervorosas da felina se mostra um completo “herege” perante tais incentivos. Vendo tudo apenas como uma diversão e não como algo realmente convincente e possível, o gato diz que é impossível fazer com que mil sonhem a mesma coisa ao mesmo tempo.

Aqui vemos como Gaiman consegue, de uma maneira lúdica e até mesmo fantasiosa, pegar elementos da nossa própria realidade e cotidiano e transformar em uma metáfora extremamente potente. A coragem e perseverança da gata que prega, noite após noite, seu sonho transformador, acaba sendo sobrepujada pela falta de fé dos demais, que ao mesmo tempo que já se conformaram com sua atual situação, não conseguem enxergar nos sonhos uma maneira de transformar não apenas a sua vida, mas também a dos demais. A falta de senso de coletividade, ou melhor, de que uma ação individual somada com outras ações individuais possa se transformar em um grande ideal, é justamente o que nos deixa em uma inércia eterna.

Podemos encontrar facilmente exemplos aqui, na nossa existência. O descaso que muitos cidadãos têm com sua responsabilidade eleitoral, achando que seu voto não será capaz de fazer a diferença em uma eleição; o desrespeito que se tem com o meio ambiente, deixando de se realizar pequenas ações – já que os outros não realizam – para ajudar o planeta; a indiferença que se tem com as lutas das minorias, achando que o mundo é como é e jamais mudará.

Porém, assim como em nossa sociedade, nem todos os gatos são desprovidos de esperança. De forma magistral, o autor consegue encerrar sua história trazendo uma pitada de fé em meio a displicência. Após voltar para casa, um pequeno gato adormece… e sonha. A existência de uma possibilidade, por menor que seja, já foi o suficiente para que as palavras da gata salvadora atingissem o pequeno felino. Não importa se a mudança ocorrerá hoje, amanhã ou depois. Não importa se, para que ela ocorra, tivermos que percorrer longas distâncias ou pregar nossas palavras para um número indeterminado de fiéis. O que realmente importa, seja no conto de Sandman ou na nossa própria realidade, é nunca deixarmos de acreditar em nossos ideais; nunca nos deixarmos abalar por aqueles que acham que a inércia é o único e possível caminho e, o mais importante: nunca deixarmos de sonhar, seja 1 pessoa ou 1 milhão, com um mundo melhor.



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