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A essa altura, não há dúvidas de que o streaming mudou a forma como o público consome TV e cinema, e esse novo tipo de demanda, que exige um novo tipo de oferta, impacta diretamente na existência de uma série como Dom, cuja 3ª temporada será lançada em 24 de maio, no Prime Video.

Protagonistas da série baseada na trágica história real de Pedro Dom e Victor Dantas, Gabriel Leone (Ferrari) e Flávio Tolezani (O Outro Lado do Paraíso) são dois atores de gerações diferentes, mas que conhecem tanto a ‘velha‘ quanto a ‘nova indústria‘ muito de perto, e refletiram sobre as diferenças entre elas para o OVício.

Reprodução/Prime Video

Carioca da tijuca e torcedor do Fluminense, Leone começou a carreira de ator fazendo musicais no teatro e logo firmou contrato com a Globo, atuando sob o guarda-sol da emissora por anos em séries e novelas como A Grande Família, Malhação, Velho Chico e Onde Nascem os Fortes.

Em breve em cartaz em São Paulo por curta temporada com a comédia In Extremis, Tolezani tem uma relação ainda mais longa com o teatro. Formado no Célia Helena, o ator paulistano tem uma carreira de mais de 20 anos nos palcos, e, assim como Leone, prestou serviços para o ‘plim-plim‘, onde chamou atenção nacionalmente como Roy, de Verdades Secretas, e Vinícius, de O Outro Lado do Paraíso.

Reparando bem as biografias, fica evidente que ambos seguiram jornadas similares, assim como quase todos os atores e atrizes de destaque da ‘velha indústria‘.

Antes do streaming, o caminho mais comum para se tornar ator no Brasil envolvia formação no teatro. A partir daí, os profissionais iniciavam uma busca utopista por papéis na TV, não só pelo destaque nacional, mas pela estabilidade financeira que os contratos de longo prazo das emissoras poderiam entregar.

Não tem muito tempo desde que grandes astros e estrelas começaram a dizer ‘não‘ para esse tipo de contrato, visando uma chance de migrar para o streaming. Paralelo a isso, a indústria brasileira da TV entrou em uma grande crise e o modelo de contratação de atores, que já estava diferente por competição de mercado, precisou ser adequado por gestão de recursos, fazendo com que acordos de longo prazo tenham se tornado raros.

Os intérpretes de Pedro Dom (Gabriel Leone) e Victor Dantas (Flávio Tolezani) reconhecem as mudanças no mercado e demonstram muita empolgação pelo que de positivo elas trazem, especialmente no que envolve a chance de um ator trabalhar em mais projetos em um curto espaço de tempo.

A realidade hoje é muito diferente,” disse Tolezani para o OVício. “[Antes] a gente tinha o teatro e praticamente uma grande emissora, que monopolizava de alguma forma todos nossos trabalhos. Monopolizava porque era o grande mercado. Isso mudou, [o mercado] cresceu de uma forma absurda em pouco tempo. Agora temos um leque muito grande de opções. Isso é muito enriquecedor, isso é muito bom. Podemos fazer uma série de coisas dentro de um curto espaço de tempo, [coisas] de linguagens muito diferentes.”

Tolezani, inclusive, acredita que a indústria mudou não apenas a relação dos atores com o trabalho, como também com o começo de carreira, uma vez que o teatro, embora siga sendo uma fonte de arte e entretenimento extremamente importante, não está mais sendo pré-requisito para um ator chegar até o mercado audiovisual.

Segundo o Flávio, a indústria brasileira agora tem uma estrutura plural com diversas portas de entrada e diferentes linguagens.

Essa coisa que era muito uma fórmula… uma regra, de estar firme no teatro para ser um bom ator de TV, de novela, acabou. Isso não tem nada a ver mesmo. Muito bacana, eu venho do teatro, acho que tinha isso também enraizado, de que era legal se ter uma coisa estruturada no teatro para ir fazer audiovisual, [mas] não, isso não tem nada a ver hoje em dia.“, disse Tolezani. “Acho que é um mercado muito bem estabelecido, nosso audiovisual. A linguagem é outra, acabou. Acabou isso, mesmo. A coisa hoje é muito diversa, em várias frentes. De várias formas você pode começar, pode se estabelecer, você pode fazer sua vida de uma forma muito independente.

Reprodução/Prime Video

Gabriel Leone foi além, e destacou o fato de o streaming permitir que o trabalho de um ator rode o mundo de forma mais rápida e eficiente que na TV aberta.

Eu acho que o streaming e a quantidade dos streamings que chegaram ao Brasil trouxeram esse leque aberto de mais possibilidades, de mais trabalhos, de projetos diferentes,” disse Leone. “Ao mesmo tempo trouxe uma questão que é um alcance maior para os nossos projetos. A televisão aberta continua tendo um alcance interno, em termos de Brasil, que ninguém chega perto, por motivos óbvios. Ao mesmo tempo, o streaming faz a gente viajar.

E Leone não poderia estar mais certo. De acordo com a produtora Malu Miranda, Dom atingiu um sucesso absurdo na Índia, e, no ano de lançamento de sua 1ª temporada, se tornou a série internacional mais assistida do Prime Video.

O alcance foi tanto que a série brasileira chegou até o lendário diretor de ação Michael Mann (Fogo Contra Fogo), que assistiu ao episódio piloto durante o processo de teste de Gabriel Leone para o papel de Alfonso de Portago em Ferrari (2023), o que foi “um um motivo de muito orgulho, muita alegria,” para o brasileiro.

Quando a gente estava lançando Ferrari aqui em Los Angeles, numa rodada de perguntas e respostas, perguntaram para o Michael [Mann, diretor de Ferrari] como tinha sido meu processo de teste. Ele falou do self-tape que foi mandado para mim. Eu gravei um teste por vídeo, e ele falou que queria conhecer mais do meu trabalho e que assistiu ao primeiro episódio de uma série que eu tinha feito no Brasil para a Amazon, chamada Dom.”, disse Leone. “Eu só soube disso no meio dessa rodada de perguntas e respostas, o que me deixou muito feliz, muito orgulhoso.”

O intérprete de Pedro Dom completou: “Como falei antes, isso tem a ver com a possibilidade de ele assistir [a série] no celular dele, na distância de um clique, e ter acesso ao seu trabalho.”

Como reflexo dessa nova indústria, Gabriel Leone e Flávio Tolezani conseguiram completar o trabalho de três temporadas de Dom com a Amazon Studios,. Assista ao trailer:

Dom é uma história essencialmente sobre pais e filhos, e não há como fugir do tema paternidade quando se fala dela.

Após duas temporadas de conflito com seu pai, Pedro finalmente passa entender muitas atitudes de Victor na 3ª temporada, quando ganha sua filha.

Reprodução/Prime Video

Com essa sendo uma série baseada em fatos, sabemos que o final do personagem de Leone não será nada feliz. De certo modo, o Victor Dantas real também sabia que as chances de ter seu filho de volta eram remotas, mesmo assim demonstrou amor de pai até o último segundo.

Há quem diga que, para entender seu pai, você tem que se tornar um. Bem, independente disso ser verdade ou não, para Tolezani foi importante assumir o papel de Victor já tendo uma experiência como pai.

Acho fundamental minha experiência [com a paternidade]. Para o ator, quanto mais maturidade, mais possibilidades ele tem,” disse Tolezani. “Poder usar isso em um trabalho é muito enriquecedor para essa relação que é muito delicada. Por mais que todo mundo tenha família, essa especificidade de pai e filho, eu tinha e pude usar de uma forma muito aprofundada.

Tolezani, no entanto, fez questão de alertar que, aquela realidade vivida por Pedro e Victor é muito diferente da sua experiência com a paternidade, o que fez a imersão do ator tomar caminhos enriquecedores.

Se colocar no lugar dessa situação muito extrema do Dom, é muito complicado, muito delicado. Eu estou muito longe disso na minha experiência [com a paternidade],” disse Tolezani. “Você poder usar a imaginação dessa possibilidade, te traz a caminhos muito enriquecedores para a série.”

No final, quando Pedro é assassinado pela polícia, Victor estava lá diante do corpo de seu filho ensanguentado e com buracos de bala. Acessar essas emoções definitivamente não foi fácil, mas, como Tolezani mesmo enfatiza, esse é o trabalho de um ator.

A gente mexe com coisas muito delicadas na cena [final da temporada], realmente. Tinha dias que saímos estraçalhados de cena. Eu, Gabriel [Leone] e outras pessoas do elenco. Tinha dias que saímos esgotados, pois [aquele] não é um lugar muito fácil de se mexer. Isso é muito gratificante, isso é bacana. Acho que nosso trabalho é esse

Convidado a refletir sobre o tema, o intérprete de Victor terminou admitindo que esse trabalho vai deixar algumas heranças para a sua vida pessoal.

Ao longo das temporadas, essa maturidade também foi se aprofundando nas nossas vidas pessoais, e na experiência da paternidade.”, continuou o intérprete de Victor Dantas.

Tolezani completou: “Muitas coisas [da série] passaram a influenciar, sim, na minha relação e convivência familiar.

Leia nossos originais

Baseada em uma história real, Dom acompanha Pedro Dom (Gabriel Leone), um atraente rapaz da classe média carioca que é apresentado à cocaína muito cedo, e acaba se tornando o líder de uma gangue criminosa que aterrorizou o Rio de Janeiro no início dos anos 2000.