E iniciando a nossa série de guias de leitura, vamos começar com o herói que fez bastante sucesso devido à sua incrível série que chegou a ter três temporadas na Netflix e que recentemente ganhou mais uma, agora totalmente integrado ao MCU. O defensor da Cozinha do Inferno. O Homem sem Medo…. o Demolidor!
Lembrando antes de qualquer coisa que esse é um guia para leitores novatos ou que querem uma ajuda sobre como ingressar no universo dos personagens. Se você, leitor veterano sagaz e com bagagem, perceber que está faltando algo… ora, veja só, eu sei! A ideia é justamente colocar apenas as histórias mais importantes e clássicas dos personagens. Afinal, de outra forma o guia ficaria enorme.
Fase Stan Lee

Quando as pessoas pensam nas melhores e mais duradouras fases de Stan Lee nos quadrinhos da Era de Prata, o que automaticamente vem é mente é Homem-Aranha e Quarteto Fantástico. Muita gente acaba esquecendo que Lee também criou e escreveu o Demolidor pelo surpreendente número de cinquenta edições, definindo a vida e o universo de Matt Murdock por anos.
Lee, juntamente com o grande artista da Era de Ouro e criador de Namor, Bill Everett, introduziu o Demolidor para o mundo do quadrinhos em 1964. No entanto, quando Everett se tornou incapaz de cumprir os prazos, o título foi assumido por um outro renomado desenhista da Era de Ouro dos quadrinhos, o grande Joe Orlando. Com uma aparência espalhafatosa, o Demolidor não conquistou o público imediatamente, enfrentando vilões descartáveis como o Homem-Púrpura – que para ser justo, mais tarde tornou-se uma grande ameaça no universo Marvel, sendo inclusive adaptado na série da Netflix, Jessica Jones.
Foi somente na edição #5 da nova revista, com a chegada do desenhista Wally Wood, que os fãs começaram a tomar conhecimento daquele novo herói. Foi Wood, inclusive, o responsável por redesenhar o traje do personagem, abandonando o estranho amarelo e preto, e trocando pelo clássico vermelho com o DD duplo que estamos tão familiarizados. Essa mudança no uniforme, ocorrida na edição #7, acabou também por definir o tom da série para sempre, trazendo um incrível embate entre o Demolidor e nada mais nada menos que o próprio Namor, o Príncipe Submarino. Na história, o Demolidor obviamente perde, e perde muito feio, mas Namor o declara um inimigo nobre, afastando-se da luta e deixando o mundo da superfície em paz. Era o surgimento do Demolidor estabelecido por Lee, o eterno lutador que jamais se dá por vencido, não importando o quanto as probabilidades estejam contra ele.
Ainda que conte com os roteiros e diálogos simplórios e ingênuos que eram típicos aos quadrinhos na década de 60, a origem do Demolidor por seus criadores se faz indispensável. O acidente que privou sua visão, a morte de seu pai, o início da vida como advogado ao lado do amigo Franklin “Foggy” Nelson, o primeiro uniforme amarelo e posteriormente a mudança para o vermelho, o triângulo amoroso inocente dos dois amigos pela secretária Karen Page, tudo está aqui. É um mergulho incrível pelos primórdios desse grande herói. Os próximos roteiristas iriam aproveitar o status de “underdog” do personagem e explorar isso ao máximo, mas o palco foi montado ainda aqui.
Fase Frank Miller

Muitos escritores, quando estiveram responsáveis pelo título do Demolidor, adicionaram elementos e conceitos que acabaram por enriquecer ainda mais o mito do personagem. Mas nenhum deles fez isso como Frank Miller. Miller fez isso tão bem, que acabou não apenas mudando o personagem para sempre, mas também a própria forma de se fazer quadrinhos. Sua abordagem teve um profundo impacto no Demolidor, tanto narrativa quanto visualmente, marcando-o para sempre.
Quando Miller assumiu o título, em 1979, os quadrinhos procuravam seguir um caminho seguro e pouco ousado. Não havia espaço para experimentação ou ousadia nos quadrinhos de super-heróis. A maioria dos escritores que passaram pelo Demolidor após a saída de Stan Lee, apenas buscaram emular o seu trabalho, tomando o máximo de cuidado para não abalar o status quo da série e dos personagens, o que fez com que o título corresse o risco de cancelamento. Miller decidiu fazer diferente. Ele levou o Demolidor a lugares perigosos. Artisticamente, Miller adicionou uma camada de sombras e perigo em cada painel, e quando teve a chance de também cuidar dos roteiros da revista – já que ninguém se importava mais – teve liberdade para fazer o que quisesse.
Miller pegou um vilão pouco utilizado do Homem-Aranha, o Rei do Crime, e o transformou em um dos personagens mais complexos e perigosos que os leitores da Marvel já haviam visto, além de ter sido o primeiro escritor a adicionar um elemento religioso nas histórias do Demolidor, estipulando que o homem que se vestia como um demônio, era na verdade um fervoroso católico. Mas a maior contribuição de Frank Miller para o Demolidor foi a introdução de uma personagem que transbordava um proibido apelo sexual, agindo como a perigosa femme fatale da vida de Murdock, a ninja Elekra. Com Elektra, Miller trouxe aos quadrinhos de super-heróis uma sensualidade pouco convencional, tornando-a a amante e o grande amor da vida de Matt Murdock. E quando a popularidade da personagem estava no topo, Miller fez o impensável e a matou pelas mãos do Mercenário, que a partir dali se tornaria um dos mais odiosos antagonistas do Demolidor.
Durante sua marcante passagem pelo título, Miller simplesmente redefiniu o universo do personagem, mexendo tanto em seu passado quanto no presente, estipulando conceitos tão icônicos que fazem com que muitos o considerem praticamente um criador moral do Demolidor, como o fato de ter definido a personalidade de Matt como alguém instável e esquizofrênico, sempre andando na linha entre a sanidade e a loucura.
A Queda de Murdock

Em 1986, três anos após já ter saído dos roteiros do personagem tendo alavancado suas vendas, Frank Miller ainda voltou ao Demolidor mais uma vez, para um última história. Uma despedida. Acompanhado do artista David Mazzucchelli, Miller entregou aquela que é considerada a melhor história do Demolidor de todos os tempos. O seu clássico absoluto: A Queda de Murdock.
Após ter sua identidade secreta revelada para o Rei do Crime por sua ex-namorada Karen Page – agora uma viciada – Matt Murdock vê sua vida pouco a pouco sendo transformada em um inferno. O Demolidor é jogado para um lugar onde nunca esteve antes. Depois de descobrir sua identidade secreta, o Rei do Crime, Wilson Fisk, põe em prática suas maquinações para destruir a vida da alma mais pura e decente que ele já encontrou.
Com um maligno polvo, os tentáculos do Rei do Crime se estendem, infiltrando-se em cada mínimo aspecto da vida pessoal de Matt Murdock. Fisk suborna Nick Manolis, um policial até então honesto, para que ele faça falsas acusações contra Murdock, que acaba sendo impossibilitado de advogar. Fisk também manipula registros bancários, congela a conta de Murdock, e como toque final, explode sua casa. Esse desejo e conhecimento de causa em infligir tais torturas acaba por estipular ainda mais que o Rei do Crime não é apenas um homem maligno, mas a personificação da própria maldade.
O caminho para a salvação do Demolidor o conduz através da misteriosa Irmã Maggie, introduzida de forma sutil como a mãe de Matt Murdock, e que mais tarde realmente se revelaria como tal. Toda a concepção da história é construída em cima da ideia central do Demolidor, de que não importa o quanto apanhe, ele se erguerá novamente. Mesmo com sua vida destruída, o herói consegue forças não apenas para se reconstruir e encarar o seu inimigo, mas também tempo para perdoar.
O Homem Sem Medo

Por tudo que fez pelo personagem, por toda mitologia que criou, e por todos os personagens icônicos que inseriu na história do Demolidor, pode-se dizer que Frank Miller é tão criador do personagem quanto Stan Lee e Bill Everett. Sua contribuição talvez seja até mais marcante do que a dos dois primeiros. E assim, em 1993 o autor uniu-se ao desenhista John Romita Jr. para fazer uma releitura da origem de Matt Murdock, no que inicialmente foi pensado pelos seus realizadores como roteiro de um filme em potencial. E é notório como a HQ realmente é carregada de elementos cinematográficos, costurando todos os personagens importantes do universo do Demolidor em uma história recheada de ação e mitologia.
Nesta minissérie em 5 edições, Miller consegue respeitar o conto original de Lee e Everett, ao mesmo tempo em que trabalha com personagens e tramas estipulados em sua própria fase pelo título do Demolidor, no final de década de 70 e início da década de 80. Assim, vemos finalmente o treinamento do jovem Murdock com seu mestre, o místico Stick, seu romance na faculdade com a femme fatale Elektra, e a ascensão de Wilson Fisk, que evolui de um simples capanga para o posto de Rei do Crime de Nova York.
Desde sua publicação, O Homem Sem Medo vem sendo considerada por muitos leitores como a versão definitiva dos primeiros dias do Demolidor, apesar de alguns acontecimentos contradizerem não apenas a versão de Lee e Everett como até mesmo histórias escritas pelo próprio Frank Miller, principalmente no que se refere à origem de Elektra. Muitos conceitos da HQ, incluindo a roupa caseira preta utilizada por Matt antes mesmo da clássica amarela, foram introduzidos na série de sucesso realizada em parceria pela Netflix e Marvel Studios.
Demolidor: Amor e Guerra

O conceito de graphic novel não é algo recente. Originalmente, a ideia era afastar o pensamento de que HQ’s seriam um produto infantil, contando com histórias fechadas e mais voltadas a um público adulto. A ideia, com o tempo acabou se perdendo, já que o mercado está sempre alerta a qualquer movimento que lhes permita aumentar as vendas. Com a boa receptividade do termo, mais e mais graphic novels foram produzidas, o termo se banalizou, e as histórias já não se diferenciavam em nada daquelas que podiam ser encontradas nas séries regulares. No entanto, dos primórdios desse conceito, saíram verdadeiras pérolas quadrinísticas, como “A Morte do Capitão Marvel”, “Doutor Estranho & Doutor Destino: Triunfo e Tormento”, “X-Men: Deus Ama, O Homem Mata”, e é claro… “Demolidor: Amor e Guerra”.
Originalmente publicada em 1986 na série Marvel Graphic Novel, a obra traz roteiros de Frank Miller e desenhos de um verdadeiro gênio que estava despontando e criando o seu estilo único nessa época: Bill Sienkiewicz. Com seu estilo experimental, quase surrealista, cuja influência é palpável até hoje, o artista trouxe um diferencial á obra, tornando-a diferente de tudo publicado no mesmo ano. Nunca o Rei do Crime pareceu tão grande e poderoso, e ainda assim tão vulnerável. Nunca o Demolidor pareceu tão iluminado (em contraste com o mundo que o cerca). E nunca Vanessa esteve tão bela e vulnerável.
A obra se situa cronologicamente em plena fase Miller no titulo do Demolidor, após Wilson Fisk recuperar sua esposa Vanessa. Na trama, Fisk traz a Nova York um médico europeu para curar o quase permanente estado de catatonia em que encontra-se sua esposa, e para motivar o homem de forma que ele considere o caso como algo pessoal e não apenas como mais um paciente, o Rei do Crime sequestra sua esposa Cheryl, uma mulher cega. O ponto alto de Amor e Guerra é que ao contrário de outras obras como A Queda de Murdock, que retratam o Rei do Crime como o mal encarnado, aqui ele é humanizado por um amor quase irracional, tornando-o um personagem extremamente trágico em sua concepção.
Fisk aqui é retratado como alguém bem menos aterrorizante, até mesmo fraco, muito distante da figura intocável que conhecemos outrora. No entanto, a obra demonstra que o vilão ainda assim conduz o seu império com mãos de ferro, recorrendo a todo tipo de abominação para atingir seus objetivos, o que deixa bem claro sobre com quem estamos lidando e aumentando a dificuldade em conseguir empatia pelo personagem. No final das contas, a obra acaba sendo um grande estudo sobre a personalidade do vilão, com o Demolidor agindo apenas como um coadjuvante.
Elektra Vive

Apesar do título, Elektra Vive é basicamente uma graphic novel sobre o Demolidor (ou melhor, sobre Matt), já que a presença da assassina grega, mesmo que sentida em toda a obra, é mais etérea do que real.
Originalmente publicada em 1990, a obra é o penúltimo trabalho de Frank Miller com a personagem, e além de contar com seus roteiros e arte, tem também as cores de Lynn Varley. O objetivo da graphic novel era esclarecer o confuso destino de Elektra após os acontecimentos da série regular, onde em um final ambíguo, Miller havia deixado em aberto uma possível ressurreição da personagem. O interessante aqui é que, ao que parece, Miller não queria que ninguém mexesse com sua personagem, criando uma história que lhe daria na verdade um fim definitivo. Por esse motivo, muitos fãs ironizam o título da história, apelidando-a de Elektra Morre.
Na história, Matt Murdock é atormentado pela morte de sua amada, tendo pesadelos recorrentes em que todos aqueles que morreram pelas mãos de Elektra a perseguem e a torturam. O tema religioso novamente é trazido à tona, com Matt indo se confessar para tentar entender a sua angústia. A trama é uma viagem ambígua através das vidas de Matt, Elektra e Mercenário, tratando da dor da perda e da superação de se perder um grande amor.
Elektra Assassina

Apesar de não se tratar exatamente de uma história do Demolidor, é interessante ver até onde uma personagem criada nas páginas do título chegou. Mesmo tendo morrido nas páginas de Demolidor, Elektra recebeu sua própria minissérie em 8 edições na década de 1980, em um conto satírico e ultra-violento escrito por Frank Miller e com a arte surreal de Bill Sienkiewicz.
A trama de Elektra Assassina é quase surpreendentemente simples: um candidato à presidência dos Estados Unidos, Ken Wind é possuído por um monstro ninja, e a primeira coisa que a criatura planeja fazer se eleita, é disparar todos os mísseis nucleares americanos em direção à Rússia, incitando assim uma retaliação e a destruição mundial. A partir de um pequeno país sul-americano, Elektra rastreia a criatura, tentando chegar até ele antes que o mesmo chegue à pequena caixa com um grande botão vermelho. Portanto, Elektra Assassina no fim resume-se a um pequeno punhado de diálogos, onde a arte de Bill Sienkiewicz acaba sendo o grande atrativo da obra. Mas um atrativo belíssimo, diga-se de passagem.
Fase Ann Nocenti

Ninguém poderia superar Frank Miller após sua saída do título do Demolidor. Seria, francamente, um esforço inútil tentar replicar o que o autor fez, esperando com isso ganhar aceitação dos leitores. Então, Ann Nocenti fez o oposto. Ao invés de se concentrar no drama criminal e nos conflitos urbanos estabelecidos por Miller, a escritora permitiu ao Demolidor experimentar a totalidade do Universo Marvel. Nocenti trouxe elementos dos X-Men, permitindo que o Demolidor tivesse papel vital a desempenhar em sagas mutantes como “Inferno” e “Queda dos Mutantes”. Seu Demolidor enfrentou o próprio Ultron, e até mesmo esteve cara a cara com um demônio de verdade, Mefisto.
Nada disso deveria ter dado certo, mas graças ao poder único de Nocenti em contar histórias, funcionou. Sem medo de arriscar, ela jogou o personagem na direção oposta de Miller, adicionando elementos de fantasia e ficção científica, em um herói tipicamente urbano. Isso não quer dizer, no entanto, que a escritora tenha abandonado as raízes noir do Demolidor. Nocenti trabalhou o embate Rei do Crime/Murdock trazendo ainda novos elementos ao conflito com aquela que foi sua maior contribuição ao universo do personagem: a nova assassina do Rei do Crime, Mary Tyfoid. Uma atriz durante o dia e femme fatale perigosa à noite , Mary foi um contraponto perfeito para o Demolidor, uma mulher que brincou com seus sentidos.
Durante a maior parte da fase de Ann Nocenti, a escritora teve a sorte de contar com um John Romita Jr. no auge, quebrando os paradigmas do clássico estilo de desenho Marvel, experimentando com linhas, formas e sombras, e adicionando elementos de intensidade surrealista para os roteiros apresentados. Apesar de muito subestimada, e até mesmo desconhecida por uma parcela dos fãs, a fase de Ann Nocenti e Romita Jr. é uma das mais criativamente ousadas na rica história do Demolidor.
A Queda do Rei do Crime

Após a fase de Ann Nocenti, chega o escritor D.D. Chichester, em uma fase curta porém importante, por trazer uma certa história que, apesar de não ter o mesmo apelo de outros clássicos do Demolidor, possui a sua parcela de fãs. Ao lado de Lee Weeks e Al Willianson, o escritor trouxe “A Queda do Rei do Crime”, uma história que serve como um ótimo contraponto à aclamada Queda de Murdock. Aqui, Matt Murdock decide que é hora de um acerto de contas com Wilson Fisk, atacando o criminoso no seus pontos mais vulneráveis, sem medo de incluir até mesmo a única mulher que Fisk já amou, Vanessa.
Murdock não mede esforços para a derrocada de seu inimigo, aproveitando-se do fato de todos quererem um pedaço do Rei do Crime, o que vai da SHIELD até a Hidra. A Queda do Rei do Crime representou um baque tão grande na vida do vilão, que desse ponto em diante o seu império nunca mais foi o mesmo, abrindo espaço na época para que outros criminosos menores crescessem e se espalhassem, dividindo aquilo que antes era governado por um homem só.
Diabo da Guarda

Para sair da falência, criativa e financeira, a Marvel precisava fazer algo para reconquistar seu público, cansado da falta de inovação criativa da empresa. Para isso, a editora colocou nas mãos dos artistas Joe Quesada e Jimmy Palmiotti a responsabilidade de revitalizar alguns dos seus títulos que tinham o número mais baixo de vendas e personagens quase esquecidos. Liderando o novo selo batizado de Marvel Knights, eis que surge “Demolidor #1”, desenhado por Quesada e Palmiotti, e escrito pelo cineasta Kevin Smith. Juntos, Quesada e Smith mostraram aos fãs como um quadrinho moderno deveria ser. Com um pé no passado e um olho no futuro, a dupla rompeu o tédio dos leitores, marcando o início de uma nova era para a Marvel, uma era que iria continuar por anos, atingindo o seu ápice com uma venda de quatro bilhões de dólares para a Disney e uma franquia cinematográfica bilionária. E tudo isso surgiu de uma história bem legal com o Demolidor.
Na época, os criadores estavam presos no mundo criado e aperfeiçoado por Frank Miller, emulando e reinventando suas ideias, sem nunca acrescentar qualquer coisa nova. Já Kevin Smith, em poucas edições virou o mundo do personagem novamente de cabeça para baixo, matando Karen Page – assassinada pelo Mercenário – abalando todas as convicções de Matt Murdock e literalmente jogando-o na sarjeta, em uma história onde o herói precisa proteger um bebê que supostamente seria o anti-cristo. Tudo para que no final da história o personagem abandone sua jornada na escuridão e caminhe para a luz, algo que serve também para retratar a situação da Marvel Comics após essa fase do Homem Sem Medo.
Demolidor: Amarelo

Quando uma HQ do Demolidor é lançada com um tema compartilhado por outros personagens, o Homem Sem Medo sempre se sai melhor. E isso se comprova na obra Demolidor: Amarelo (2001), de Jeph Loeb e Tim Sale, que acaba sendo e mais emocionante da “trilogia das cores”, da qual também fazem parte Homem-Aranha: Azul e Hulk: Cinza. A história gira em torno do passado do personagem, quando ele ainda utilizava seu clássico uniforme amarelo, focando em seu relacionamento amoroso com aquela que foi o seu mais puro amor: Karen Page. Bem humorado, emocionante e sentimental, Amarelo funciona como uma perfeita homenagem ao trabalho de Stan Lee, oferecendo uma abordagem vibrante e contemporânea do personagem.
Demolidor: Pai

Em 2004, comemorando os 40 anos de criação do Demolidor, o então editor-chefe da Marvel, Joe Quesada escreveu e desenhou a minissérie em 6 edições “Demolidor: Pai”, uma verdadeira carta de amor emocionante e poderosa a Jack e Matt Murdock, que conta ainda com arte final de Danny Miki e cores por Richard Isanove. Com uma arte ligeiramente mais cartunesca e até mesmo de proporções exageradas, Quesada entrega uma história seguindo a linha de obras como O Longo Dia das Bruxas, de Jeph Loeb, colocando o Demolidor no rastro de um perigoso serial killer, ao mesmo tempo em que um novo grupo de vigilantes pretende tomar a Cozinha do Inferno.
Murdock, um personagem que sempre endeusou a figura do próprio pai, de repente se vê perdido quando percebe que os violentos crimes ocorridos pelo assassino relacionam-se com os maiores pecados cometidos pelo velho Jack “Batalhador” Murdock.
Fase Brian Michael Bendis

Brian Michael Bendis teve a tarefa pouco invejável de suceder Kevin Smith como escritor regular do Demolidor. E o roteirista não apenas topou o desafio, como mudou a forma como os quadrinhos da Marvel eram escritos. Ao invés de simplesmente seguir os passos de Miller e Smith, Bendis expandiu os papéis do Demolidor, Rei do Crime, Mercenário e Elektra no Universo Marvel, com uma voz única nos quadrinhos. Ele revelou para o mundo que Matt Murdock era o Demolidor, mudando para sempre a forma como o vigilante operava; Fez o Rei do Crime ser espancado aparentemente até a morte; deu um confronto incrível para Demolidor e Mercenário, com Matt esculpindo uma cicatriz em forma de alvo na testa do assassino – e tudo isso pelo ponto de vista do personagem mais próximo aos leitores: Ben Urich. O Demolidor estava em um mundo desagradável, com um clima noir sujo, obscuro e sempre chuvoso, algo novo e diferente para os leitores da Marvel.
Ao lado de Bendis estava o desenhista Alex Maleev, cujo traço magistral aumentou ainda mais a sensação de perigo e de realidade trazida pelo título. Bendis revelou-se um escritor sem medo de mudanças, conflito ou controvérsia, e muitos de seus conceitos permaneceram em vigor anos após sua saída. O Murdock de Bendis – apesar de ter sido um dos que mais sofreu nas mãos de um roteirista – permanecia de pé e lutando, por mais que o escritor pressionasse mais e mais seu ponto de ruptura, provando que o Demolidor é um dos personagens mais inspiradores e resilientes do Universo Marvel.
Fase Ed Brubaker

Quando Ed Brubaker e o artista Michael Lark foram a equipe criativa responsável pela série em quadrinhos da DC “Gotham Central”, muita gente acreditava que aquela dupla poderia trazer algo realmente incrível para o Demolidor. Então, quando Brubaker assinou contrato de exclusividade com a Marvel, era apenas uma questão de tempo até ele entrar de cabeça na sujeira da Cozinha do Inferno.
Com uma ambientação extremamente noir e um clima policial e realista – muito pela arte de Michael Lark – Brubaker conseguiu manter a altíssima qualidade do título após a aclamada fase de Brian Michael Bendis. Como se não fosse o bastante tudo que Murdock sofreu na fase anterior, aqui o roteirista dá continuidade ao inferno pessoal do personagem, jogando-o na prisão, ao lado de todos os criminosos os quais ele mesmo ajudou a prender.
Mas além da prisão, um dos focos principais de Brubaker durante sua fase foi a nova esposa de Matt, Milla Donovan, uma mulher cega que trouxe esperança para o mundo sombrio de Matt, até o momento em que ela foi lentamente levada à loucura pelo Senhor Medo e o Rei do Crime. Brubaker cria uma clássica tragédia conforme Milla perde sua humanidade, usando a inocência perdida da personagem para demonstrar aos leitores as consequências de se viver no mundo de Matt. Um lugar infernal, de horror e brutalidade. O destino de Milla acaba sendo trágico e injusto, mas é apenas mais um demonstração do quanto o mundo escolhido pelo Demolidor é implacável.
Demolidor: Redenção

De vez em quando, um quadrinho fora do título regular de um herói aparece de repente e rouba a cena. E foi exatamente isso que aconteceu em 2005, quando o escritor David Hine uniu-se ao desenhista Michael Gaydos, e ambos trouxeram a minissérie em 6 edições Demolidor: Redenção, história que rapidamente tornou-se uma das favoritas do personagem entre os leitores. Na história, Matt sai de sua zona de conforto na Cozinha do Inferno e segue para o sul, mais exatamente em Redemption Valley, onde deve defender um homem suspeito de envolver crianças em um culto satanista.
Redenção é uma história que realmente foge das aventuras regulares do Demolidor, não apenas pelo radical choque cultural, mas porque o personagem é confrontado com uma visão pervertida de suas próprias crenças na justiça americana. Um conto onde o advogado é o personagem principal, e não o vigilante, e onde Matt confronta o seu pior pesadelo: pessoas que querem o tipo errado de justiça.
Terra das Sombras

A vida de Matt Murdock tornou-se um inferno após a passagem de Bendis e Brubaker, então o roteirista Andy Diggle chegou para tentar ajudar nas marcas de guerra do herói. Recuperando-se da perda de sua esposa, Milla, Matt se tornou um senhor do crime, com o objetivo de conquistar o submundo e dessa forma não permitir que alguém se machucasse novamente. Possuído por um antigo demônio, Matt desceu o mais fundo possível, com seu julgamento nublado entre corrupção e moralidade.
Enquanto o Demolidor lidava com seus demônios interiores, Diggle focou nos aliados de Matt. Tigresa Branca, Luke Cage, Punho de Ferro, Tarântula Negra e Shang-Chi lutaram contra um possuído Matt Murdock, com o objetivo de salvá-lo de si mesmo. Assim, a saga “Terra das Sombras”, ápice da fase Diggle, tratou de trazer o Demolidor como o novo Rei do Crime de Nova York, e da luta para salvarem a alma do herói. Apesar da saga ser consistente e trazer um interessante foco ao universo urbano da Marvel, acabou sofrendo uma certa rejeição dos leitores, cansados de verem Murdock sempre como alguém sofrido e torturado. Os fãs queriam ver o seu herói ganhar, pelo menos uma vez.
Em retrospectiva, a fase de Diggle pelo personagem traz uma controlada narrativa sobre redenção, com sua conclusão sendo a infelizmente subestimada Demolidor: Renascido. O início da fase Diggle pelo personagem acabou cansando os leitores, devido ao clima pesado e sofrido, mas analisando friamente a fase como um todo, percebe-se que a ideia do escritor sempre foi jogar Matt nas profundezas, para então reerguê-lo novamente.
Fim dos Dias

Em 2012, o roteirista Brian Michael Bendis voltou ao Demolidor, para uma minissérie em 8 edições, trazendo consigo um elenco de peso. David Mack ajudou Bendis nos roteiros, o lendário Klaus Janson ficou encarregado da arte, enquanto Bill Sienkiewicz trouxe suas fantásticas cores. Alex Maleev, parceiro de Bendis em sua fase pelo título regular do Homem Sem Medo, completou o time, ficando responsável pelas capas.
Com o nome de Demolidor: Fim dos Dias, a HQ trata de trazer aquilo que seria o encerramento canônico do Demolidor no Universo Marvel. Segundo o próprio Bendis, a história não se trata de um fim especulativo ou paralelo trazido por obras como Batman: O Cavaleiro das Trevas, mas sim algo cronológico, dentro da continuidade, revelando de forma oficial a morte do personagem. O fato de Klaus Janson ser o desenhista da HQ, aliás, é algo por si só sensacional. Arte-finalista na época de Frank Miller, Janson chegava a desenhar algumas histórias intercalando com Miller, já que a arte dos dois na época era parecidíssima. Só de ver a arte de Janson nessa história, já traz um banho de nostalgia, com seu traço sujo e característico, que remete àquela fase clássica. É impossível não lembrar dessa fase áurea do personagem.
A trama por si só, é simples. Passando-se alguns anos no futuro, a HQ já começa com uma batalha brutal entre o Demolidor e seu arqui-inimigo Mercenário, onde o herói aparentemente leva a pior. Em uma última tentativa de tirar o vilão do sério, Matt diz uma misteriosa palavra direcionada para ele: “Mapone”. A palavra claramente desestabiliza o assassino e o deixa assustado, mas o efeito não é tão positivo para Murdock ou talvez não tenha tido o resultado esperado. O Mercenário fica ensandecido e atravessa a cabeça do Demolidor com seu próprio bastão. É isso mesmo. O Demolidor morre nas primeiras páginas do quadrinho.
E esse é o acontecimento principal que desencadeia o restante da história. Após ter acesso a uma filmagem amadora que revela a existência dessa última palavra dita por Matt, o jornalista Ben Urich – grande coadjuvante e amigo do Demolidor em algumas de suas melhores fases – decide começar uma investigação em busca da verdade sobre a morte de Matt Murdock, e o que ele quis dizer com essa enigmática palavra que foi capaz de tirar do sério alguém louco e psicopata como o Mercenário.
Fase Mark Waid

As fases de Bendis, Brubaker e Diggle pelo Demolidor foram fases intensas e sombrias, que pressionaram o personagem a seu ponto de ruptura e além. Apesar de terem tornado Matt alguém mais humano, falho e interessante, os leitores acabaram ficando saturados após quase uma década de tortura constante. É nesse momento que entra Mark Waid, adaptando conceitos da Era de Prata para um contexto moderno, e criando uma experiência nova e original, que relembra em muito os primórdios do personagem, quando era um herói mais inocente pelas mãos de Stan Lee.
Waid não ignora o que veio antes dele, utilizando o que foi estipulado pelos escritores anteriores, mas acrescentando elementos de leveza esperança, trazendo um alívio bem vindo às histórias do Demolidor. O Matt Murdock de Waid sai um pouco mais do campo urbano ao qual o personagem esteve tão preso, e volta a ser incluído de forma mais abrangente ao Universo Marvel como um todo. Aqui temos aventuras do herói com o Mancha, o Garra Sônica, e até mesmo o Surfista Prateado. E apesar de toda a tragédia que o personagem passou, finalmente ele voltava às suas raízes e podia sorrir novamente.
Esse é o contraste que torna a fase de Waid algo tão convincente; a tragédia é um grande elemento a respeito de quem Matt é, mas a sua capacidade de superar as adversidades é que faz dele um grande herói. A mudança de personalidade do Demolidor não é feita de forma abrupta ou descaracterizando o personagem, e sim de uma forma inteligente, onde personagens como seu amigo Foggy Nelson são utilizados como uma representação do leitor, questionando o herói sobre sua nova abordagem da vida.
Fase Charles Soule

Após a saída de Mark Waid do título, entra Charles Soule, mudando um pouco a dinâmica do herói urbano e trazendo-o de volta para a Cozinha do Inferno (na fase Waid, o Homem Sem Medo acabou indo para São Francisco). Além disso, Soule volta com a identidade secreta do personagem, estipulando que mais uma vez ninguém sabe que Matt Murdock e o Demolidor são a mesma pessoa.
Um outro ponto interessante da vida do personagem nessa fase, é que Matt deixa de ser um advogado de defesa, para passar a trabalhar como advogado de acusação, tornando o seu trabalho com o direito uma verdadeira extensão daquele exercido no vigilantismo. Uma novidade para a vida do Demolidor é que agora ele tem um discípulo, o jovem Samuel Chung, um imigrante ilegal da China. A arte de Ron Garney, acompanhada de um novo uniforme onde o preto predomina mais que o vermelho, ajuda a definir o tom mais sombrio da nova fase. No entanto, muito do charme e aventura da fase Waid ainda permanecem no cerne do título.
O Sétimo Círculo

Aproveitando o sucesso da segunda temporada da série Demolidor, na qual o Homem Sem Medo confrontou o Justiceiro, a Marvel deu a Charles Soule a tarefa de trazer uma nova minissérie com os personagens encontrando-se também nos quadrinhos. Intitulada como Daredevil/Punisher: Seventh Circle, a HQ sai pelo selo Infinite Comics – ou seja, primeiro de forma digital, e só então impresso – e conta com arte de Szymon Kudranski e Reilly Brown.
Na trama, Matt Murdock pretende levar um mafioso russo a ser julgado por seus crimes, e Frank Castle, como sempre, quer dar cabo da vida do criminoso de uma vez por todas. Os embates ideológicos dos personagens são novamente postos à prova, e o confronto físico… algo inevitável.
A Era Zdarsky

Após anos de batalhas, Matt Murdock inicia a fase de Chip Zdarsky quebrado, física e emocionalmente. Ao tentar voltar à ativa, um erro fatal muda tudo: ele mata acidentalmente um criminoso. Esse momento não só abala sua fé em si mesmo, como também dá munição para Wilson Fisk — agora prefeito de Nova York — intensificar sua cruzada contra vigilantes. O clima em Hell’s Kitchen fica mais pesado, a confiança de Matt despenca, e pela primeira vez ele começa a se perguntar se ainda tem o direito de vestir o uniforme do Demolidor.
Consumido pela culpa, Matt toma uma decisão drástica: se entrega à polícia, mas exige manter sua identidade secreta. Na prisão, ele encara ameaças físicas e dilemas morais, refletindo sobre o impacto real de seu vigilantismo. Do lado de fora, Elektra assume o manto do Demolidor, trazendo seu próprio estilo e expandindo a luta para além dos métodos tradicionais de Matt.
Fase de Saladin Ahmed

Após o encerramento da fase de Chip Zdarsky, o Demolidor iniciou um novo capítulo sob a escrita de Saladin Ahmed e arte de Aaron Kuder. A história começa com Matt Murdock retornando do Inferno sem memória e sendo acolhido como padre na Saint Nicholas Youth Home, um orfanato em Hell’s Kitchen. Vivendo como homem de fé e cuidador de jovens, ele tenta manter uma vida pacífica, mas seus instintos heroicos permanecem. Essa tranquilidade se rompe quando forças sobrenaturais invadem a cidade: os Sete Pecados Capitais começam a possuir aliados e inimigos, incluindo Elektra, forçando Matt a retomar o uniforme e confrontar ameaças que desafiam tanto sua força física quanto sua fé.
Em meio a batalhas brutais e dilemas morais, o Demolidor é obrigado a encarar sua própria ira, orgulho e ressentimento, questionando até que ponto pode conciliar sua vocação religiosa com a necessidade de agir nas ruas.
Guia atualizado em 9 de agosto de 2025






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