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Com duas sagas, duas trilogias e uma série de novelas, totalizando vinte e dois livros, o mundo de Malazan, criado pelos canadenses Steven Erikson a partir Iam Esslemont a partir de seus jogos de RPG, faz jus a todas as letras da palavra épico. Apesar das diferentes séries desse universo fantástico, recheado de magia, violência e deuses sombrios usando os homens em seus conflitos, a Livro Malazano dos Caídos, escrita exclusivamente por Erikson, normalmente é considerada como a “saga principal” do mundo de Malazan e o seu primeiro livro, como o ponto de início ideal para o conjunto da obra dos dois autores. Não é para menos, Jardins da Lua é uma obra escrita com esmero, que respeita a inteligência do leitor e funciona de forma eficaz para mostrar o quão única e vasta é a ambientação criada pelos dois canadenses. Recheado de homens, mulheres e deuses, em Jardins da Lua, Erikson consegue mostrar um mundo de alta fantasia onde mesmo magos poderosos sofrem as agruras da violência e da mortalidade e homens falhos tentam não ser notados por deuses cruéis.

Na obra, o jovem Ganoes Paran acaba presenciando uma matança causada pela influência de deuses e se torna um dos agentes da conselheira do Império Malazano. Seu destino é o continente de Genabackis, onde as forças do Império combatem em um grande plano de expansão. É lá que personagens como a feiticeira Tattersail e o sargento Whiskeyjack, além de toda a brigada dos Queimadores de Pontes, combatem em uma guerra sangrenta e perigosa, percebendo que forças ocultas dentro do Império parecem dedicadas a causarem a sua queda. Os deuses, eles desconfiam, estão armando algum plano para o continente e, principalmente, para a cidade de Darujhistan, plano que esbarra tanto nos estratagemas bélicos da Imperatriz Laseen e de sua conselheira quanto nos assuntos de seres ainda mais antigos. Mas quando os deuses tramam entre os mortais, todos são dragados para sua intriga, e buscando evitar tal fúria divina, ou completamente alheios aos assuntos dos deuses, uma guilda de assassinos, um tirano ancestral, o Lorde da Cria da Lua, ladrões sortudos, soldados calejados, Garras com crise de lealdade, espiões competentes, nobres caídos, alquimistas poderosos, cidades inteiras, raças antigas, dragões, demônios, homens-insetóides, rebeldes, artefatos perturbadores e até um insano boneco de madeira, acabam tendo que lidar com as consequências de acontecimentos que não podem controlar.

E tudo isso funciona muito bem.

As obras de Erikson costumam ser consideradas herméticas, de difícil acesso para os iniciantes. O autor não se importa em jogar a história no meio da ação, e não perde tempo explicando o funcionamento do seu mundo, ou de nenhuma das características fantásticas nele existentes. O leitor é lançado em meio ao Império Malazano e lê sobre revoltas, golpes de estado, guerras e inimigos milenares sem ser introduzido a uma história do mundo ou explicações de qualquer situação política ou elemento. É justamente essa característica que faz a obra funcionar tão bem. Tivesse se demorado em explicações ou fundamentações, não teria conseguido incluir todos os elementos que compuseram a história. Escrita de outra forma, ou a trama de Jardins da Lua se diluiria em vários tomos, ou simplesmente não existiria. Mas isso não quer dizer que não é possível entender a trama ou os elementos do mundo.

À primeira vista, é possível que os menos pacientes se considerem perdidos demais, que a obra não consegue apresentar um sentido para as diversas peças que vai apresentando apenas pelo o que são e sem trazer explicações. No entanto, é como se fosse um quebra-cabeças. Quanto mais elementos são introduzidos e personagens vão ganhando vida, o panorama geral do livro vai se formando e a narrativa de Jardins da Lua se revela o que tem para mostrar sobre a própria história e sobre o mundo de Malazan. Como Erikson faz questão de dizer em seu prefácio, ele não toma o leitor pelas mãos e nem zomba de sua inteligência.

Mas isso não quer dizer que a obra seja difícil de se entender ou que seja necessário alguma espécie de atividade mental além de uma simples leitura para ligar os pontos e formar o cenário geral. Talvez o que seja mais necessário para Jardins da Lua é um pouco de paciência e de confiança no autor. Erikson sabe conduzir a trama e preparar muito bem o seu terreno. As informações vêm a conta-gotas e acompanhadas de novidades, mas elas chegam no tempo certo para que o leitor possa entender o que está acontecendo e em que mundo está pisando. Leitores de Guerra dos Tronos não devem ter muitos problemas com o estilo de Erikson.

A maior dificuldade do livro não se trata sequer de história ou a geopolítica do Império Malazano. Para um novato no campo da fantasia, alguns dos conceitos apresentados no livro podem ser um pouco estranhos demais. O conceito da magia vir dos Labirintos, estes mundos paralelos ou planos de existência além do mundano pode pegar algumas pessoas de surpresa, assim como toda profusão de raças fantásticas, baralhos mágicos e diversas ordens de deuses. Enquanto para os fãs da fantasia – e principalmente para os RPGistas – é só mais um uso de vários tropes, aliados à falta de explicação direta, podem confundir aos novatos no gênero. Mas a composição e apresentação de seu mundo fantástico não é tudo o que a obra tem para oferecer.

Competente em suas criações, Erikson apresenta personagens muito bem construídos. Cheios de vida e personalidade, vão além dos clichês da literatura fantástica e apesar de estarem imersos em um mundo de deuses e magia, são bastante humanos, frágeis e temerosos de sua própria mortalidade. Isso não quer dizer que os protagonistas (e são muitos) e coadjuvantes criados pelo canadense não se coloquem em perigo ou se lancem em empreitadas arriscadas. Pelo contrário, fazem isso com frequência, mas na maioria das vezes por necessidade, temendo que algo possa sair errado, que falhe. Nenhum perigo é “só mais um bando de orcs” para ser lidado sem problemas. Os personagens estão sempre conscientes dos riscos, o que não impede de agirem de forma impulsiva e impensada em determinados momentos, mas tudo isso é apoiado em suas personalidades, vivências e nas situações desgastantes que o autor os coloca.

Apesar de seus muitos personagens, Erikson consegue dar uma personalidade única para cada um deles, e mesmo os que não recebem tanto enfoque ou importância acabam tendo o seu carisma e um “jeitão” muito reconhecível. Alguns poderiam criticar que não há uma evolução em muitos personagens. De fato, a maioria deles, mesmo os protagonistas, não passa por nenhuma grande revelação ou descoberta ou desenvolvimento pessoal. Muitos já são velhos soldados, guardas veteranos, homens e mulheres forjados em meio à intrigas e violência. Nesse sentido, realmente não há muito de novo o que aprenderem, só histórias passadas e motivos difusos a serem revelados para os leitores. Mesmo assim, existem aqueles, em geral os mais jovens ou mais ingênuos e idealistas, que acabam amadurecendo, tendo novas descobertas ou vendo suas vidas mudando completamente devido à terem ficado no caminho dos deuses.

Claramente se destacam no livro, tanto em exposição e desenvolvimento quanto naquela noção meio difusa que torna um personagem memorável e interessante os seguintes nomes: Ganoes Paran, Conselheira Lorn, Piedade, Whiskeyjack, Anomander Rake, Ben Ligeiro, Rallick Nom, Kruppe e Tattersail. E ainda existem muitos outros que dão as caras em menor ou maior grau nesta história que, apesar de não chegar a ser um Dark Fantasy, tenta apresentar personalidades mais cruas e menos fantasiosas – a despeito de toda a magia e planos de existência e tudo mais. Tamanho elenco de personalidades interessantes torna difícil uma análise mais aprofundada sobre seus históricos e características, sem que se seja injusto com algum personagem interessante, ou dedique uma matéria inteira somente para o tema.

Tamanha profusão de protagonistas e coadjuvantes pode levantar questionamentos – muito justos – sobre se o autor consegue estar a altura da tarefa e não estragar a própria história com uma enchente de nomes deslocados e atores que nada fazem. No entanto, isso não acontece. A narrativa de Erikson segue firme e de forma muito competente. Apesar de não se fazer de rogado em dar explicações imediatas ao leitor, os personagens vão surgindo em camadas, com o devido tempo para que o leitor se acostume com os principais participantes de Jardins da Lua.

E esse domínio narrativo não se limita à exposição dos elementos da história, mas ao próprio ritmo da trama. É quase imperceptível a forma como Erikson vai progressivamente aumentando a velocidade da história. Começando de forma bem lenta, estendendo-se preguiçosamente em longas cenas focadas em apenas um personagem, ele vai pavimentando as bases do que se mostra como uma pirâmide narrativa. Conforme os alicerces vão sendo montados e o leitor vai se acostumando com seus modos e seu estilo, a obra entra em um crescendo que se torna cada vez mais rápido, costurando entre diversos personagens e locações para compor uma canção que envolve a todos os principais atores da história de Jardins da Lua.

Erikson não se vale do ritmo “filme-moderno-de-ação-hollywoodiano” que alguns livros de fantasia mais modernos – e adolescentes – criam para as suas histórias. Ele segue uma construção mais antiga, paciente, talvez até mais madura, onde vai construindo pacientemente o palco de sua grande história, sem fanservices de longas cenas de ação, para então culminar tudo em um clímax tempestuoso e com vários acontecimentos simultâneos. Isso não quer dizer que não ocorram cenas de violência ou adrenalina ao longo do livro, mas elas costumam ser bastante curtas e nem de longe os eventos mais relevantes ou interessantes que a obra tem para oferecer.

No entanto, é preciso apontar que o autor não é tão feliz quando se arrisca a apresentar ação. Os poucos confrontos que ele traz podem ser um pouco anti-climáticos e muito difíceis de se visualizar. Pouco depois da metade do livro, acontece um segmento que pode ser um tanto frustrante, este envolvendo o personagem Hairlock. Já o clímax final também tem um momento de combate que acaba sendo não tão bom quanto poderia. Felizmente, com várias coisas acontecendo ao mesmo tendo e tramas paralelas chegando ao seu ápice, essa falha não tira a força do desfecho. De uma forma ou de outra, os interesses de Erikson em sua obra são outros.

Jardins da Lua e uma obra notável, e um dos melhores títulos de fantasia publicados no Brasil nos últimos anos. Mais do que uma ambientação original, Steven Erikson apresenta uma obra diferenciada, com um charme única e muito bem escrita. Diferente de muitas sagas que acabam priorizando a história e deixando outros elementos de lado, o autor consegue alcançar um equilíbrio entre trama, estrutura e narrativa sem se render à fórmulas e métodos comerciais. A primeira obra de Erikson para o Livro Malazano dos Caídos é cheia de carisma e identidade, não revoluciona o gênero mas é única e muito característica. Algo que só seu autor poderia executar da forma que é.

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