Joaquin Rafael Bottom, o irmão do meio da família Phoenix. Embora esteja em atividade como ator há praticamente 30 anos, Joaquin vem de uma crescente de popularidade na última década por seu constante envolvimento e protagonismo em produções grandes ou independentes. Em 2019, caiu nas graças do público nerd ao interpretar o Palhaço do Crime num filme que definia uma origem e trazia uma nova abordagem para o Coringa, tendo ganho seu primeiro Óscar pelo feito.
Joaquin é conhecido por ser extremamente metódico e dar vida a personagens fora da caixa. Relatos de companheiros de trabalho dizem que, apesar de ser uma pessoa doce, é complicado estar ao seu lado dentro de um set de filmagens. A entrega do ator em seus papéis e sua determinação em ser de fato o personagem que interpreta consolidaram sua reputação. Revisitando sua carreira cinematográfica, em especial os filmes dos últimos 10 anos, separei alguns papéis interessantes, que possuem pouca relação entre si e destacam sua versatilidade. Pra não correr o risco de soar tão repetitivo ou clichê, optei por deixar de fora alguns de seus trabalhos mais populares, como Commodus em Gladiador e Arthur Fleck em Coringa.
Johnny Cash (Johnny & June – 2005)

Um dos artistas mais influentes da história da música. Acompanhamos aqui a ascensão de Johnny Cash e seu incansável esforço pra atingir o sucesso e prestígio musical, assim como seu envolvimento profissional e amoroso com June Carter. A dedicação de Joaquin para encarnar o músico de forma respeitosa e fiel é digna de aplausos: aprendeu a tocar violão, fez aulas de canto por meses e estudou a trajetória e o comportamento de Cash. Representou perfeitamente o sentimento por trás das composições durante as gravações e apresentações ao-vivo, tal como os momentos excessivos e caóticos de Johnny, causados pelo constante abuso de substâncias. Vê-lo se apresentando em cena é como assistir um vídeo antigo do cantor, até o sotaque e a forma com que segura o violão são semelhantes. Um fato curioso é que foi o próprio Cash quem escolheu Phoenix para interpretá-lo, nessa que pode ser considerada uma das mais belas cinebiografias já produzidas.
Freddie Quell (O Mestre – 2012)

Um soldado permanentemente traumatizado devido aos eventos da Segunda Guerra Mundial. Um homem perturbado, incapaz de socializar e retomar a vida como cidadão comum. Freddie é alcoólatra, tem ataques de ansiedade, impulsos violentos e sexuais, tiques nervosos e um olhar angustiante. É inconveniente, invasivo e intimidador, como uma bomba capaz de explodir a qualquer momento. É excessivamente magro, tem metade do rosto paralisado, além da postura e do andar desajeitados. Pulando de emprego em emprego, acaba se envolvendo com uma organização religiosa, tornando-se cada vez mais dependente do grupo. Os melhores momentos do filme ficam nas interações entre Freddie e Lancaster, interpretado pelo mestre (trocadilho proposital) Philip Seymour. A cena em que o personagem se debate e destrói uma cela de prisão enquanto é confrontado por Lancaster é incrível.
Theodore Twombly (Ela – 2013)

Um escritor deprimido e solitário que ganha a vida escrevendo cartas de amor em nome de outras pessoas. É carismático, calmo e de fácil convívio social. A tristeza não é seu estado natural, mas sim consequência de um divórcio conturbado que o impede de seguir em frente, se relacionar novamente e enxergar cores em dias nublados. Sua rotina é monótona e seus breves momentos de prazer se limitam a jogos interativos e encontros virtuais. Desesperadamente busca algo que preencha seu vazio existencial, e encontra em Samantha, um moderno sistema operacional intuitivo, companhia, conforto e amizade, que evoluem até o ponto em que ele percebe estar apaixonado pela inteligência artificial. O trabalho do ator aqui é fundamental para o funcionamento do filme, já que o personagem passa boa parte do tempo sozinho enquanto se comunica com o apaixonante software dublado por Scarlett Johansson.
Abe Lucas (Homem Irracional – 2015)

Um desiludido professor de filosofia de meia idade que está enfrentando uma crise existencial. Seus dias de glória ficaram no passado e nada mais desperta seu interesse. Sua reputação acadêmica e seu alto grau de conhecimento fazem com que ele seja estranhamente atraente aos olhos de suas alunas e companheiras de trabalho, mesmo fora de forma e desviando das investidas sociais. Um belo dia, ao ouvir uma história triste num restaurante, decide fazer algo que mudaria sua forma de enxergar a vida: assassinar um juiz de direito que considera desprezível. Todo o ato de planejar o crime perfeito e encobrir suas ações fazem com que Lucas volte a sentir prazer em viver, como se finalmente tivesse encontrado seu propósito. Usa sua inteligência para manipular as pessoas ao seu redor e construir o álibi perfeito, mas se vê obrigado a improvisar e tomar medidas drásticas conforme as imperfeições de seu plano vão sendo descobertas pelo seu ciclo de convivência.
Joe (Você Nunca Esteve Realmente Aqui – 2017)

Um veterano de guerra que ganha a vida resgatando vítimas de exploração sexual de cativeiros. Joe é frio, calculista e violento quando necessário. Fala pouco, gesticula pouco, tem um olhar inexpressivo, embora sua fragilidade emocional seja perceptível. Toma remédios compulsivamente para anestesiar a dor física e mental. Nada é dito sobre seu passado, os poucos vislumbres que temos são através de flashbacks tidos pelo próprio personagem, memórias traumáticas que ele luta para não relembrar. É tão vítima quanto as crianças que resgata (o filme sugere que tanto ele quanto a mãe foram vítimas das atitudes abusivas de seu pai). Joe fantasia sobre o suicídio frequentemente, como se carregar o peso da própria existência se tornasse mais difícil a cada momento, mas algo sempre o impede de concluir o feito, e mesmo com um cenário cada vez mais caótico em sua volta, segue em frente sendo uma espécie de justiceiro desorientado.
John Callahan (A Pé Ele Não Vai Longe – 2018)

Um cartunista num estágio avançado de alcoolismo que tem sua vida transformada após um acidente de carro que o deixa tetraplégico. Naturalmente entra num estado de depressão que fragiliza ainda mais seu psicológico. As dores causadas pelo acidente somadas a abstinência alcoólica e ao trauma por saber que nunca mais se movimentará normalmente fazem com que John perca sua esperança no futuro. Quando finalmente aceita que o álcool o levou para o fundo do poço, passa a frequentar um grupo de auto-ajuda buscando forças para se livrar do vício. Para encarnar o personagem, Joaquin passou um período vivendo numa cadeira de rodas. O ator representa com maestria a queda e o reerguer de John, seja através dos surtos e dos diálogos desesperançosos ou dos momentos calmos onde o personagem já sóbrio procura resolver as pendências do passado em busca de redenção.
É válido dizer que há um pouco de Joaquin Phoenix em cada um de seus personagens, pequenas características elevadas ao extremo. Assim como na ficção, ele também passou por problemas familiares, acidentes, traumas e dependência química. É interessante como o ator expande seu currículo positivamente na medida em que envelhece, tendo participado de dramas, suspenses, filmes biográficos, comédias dramáticas, e quando pensamos que ele já fez o que tinha que ser feito, somos agraciados com uma nova e excêntrica performance, como uma fênix, que ressurge das cinzas mais forte do que nunca.






Comentários