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Zack Snyder é um dos cineastas mais debatidos da atualidade por motivos óbvios e parece desnecessário começar qualquer dissertação discutindo sobre sua personalidade enquanto diretor, mas dane-se, comentarei mesmo assim: fascinado por câmeras lentas e cenas que certamente causam muita dor de cabeça em qualquer equipe de efeitos especiais – mas que posteriormente geram satisfação, já que muitas vezes são visualmente impressionantes -, Snyder é conhecido pelos tons menos coloridos e pela obsessão pela grande escala. Naturalmente, com base em todas estas características, pode-se concluir que “300” representou o começo de sua carreira como cineasta autoral, já que é carregado de seu DNA por todos os seus cantos, mas antes que pudesse se tornar uma figura que consegue ser subestimada à mesma medida que é superestimada, o diretor realizou uma importante obra experimental, “Madrugada dos Mortos”.

Dinâmico, o longa-metragem de terror persiste como um dos melhores de Snyder. É bem verdade que, ao assistir à produção mais de 14 anos após ter estreado nos cinemas dos Estados Unidos, é muito difícil de acreditar que tenha sido criada pelo diretor de “Sucker Punch – Mundo Surreal” – não há alegorias excêntricas por nenhuma parte e algumas de suas cenas são surpreendentemente aceleradas, recurso inteligente que ajuda a deixar a trama mais tensa quando usado em boas doses. Também não é fácil de crer que tenha sido escrita por James Gunn e é ainda mais inacreditável concluir que a união entre o autor de “Batman v Superman: A Origem da Justiça” e o diretor de “Guardiões da Galáxia”, artistas radicalmente diferentes, poderia resultar num horror tão consistente.

Você já conhece bem a premissa, já que foi explorada até ser levada à exaustão após o sucesso de “The Walking Dead”: um vírus misterioso transforma a maior parte da humanidade em zumbis loucos por sangue e o que resta – pelo menos até onde nos é contado – é um pequeno grupo de pessoas. Os sobreviventes se unem em um shopping center e é claro que é só uma questão de tempo até os terríveis mortos-vivos aparecerem, mas sua ameaça acaba sendo o menor dos problemas, já que os recursos estão acabando e desavenças acabam sendo criadas entre membros do grupo.

Não há personagens nem atores muito cativantes em “Madrugada dos Mortos”, com exceção do carismático Ving Rhames e seu Sargento Kenneth, um policial durão. Sua trama não é sobre individualismo ou sujeitos corajosos que acabam roubando a cena por serem bons de mira ou posudos – clichê conhecido do gênero de zumbis -, mas sobre a ideia de comunidade que é criada entre os protagonistas. Snyder consegue emular muito bem o mesmo sentimento das obras clássicas de George A. Romero – na realidade, “Madrugada dos Mortos” é a reimaginação de uma das suas produções em especial. É claro que estabelecer comparações entre entre os diretores seria uma grande injustiça para o mais jovem, já que Romero apostou em elementos ousados e revolucionários em uma época em que ninguém parecia interessado em debatê-los, sem falar em seu talento para trabalhar com o ‘trash’ de modo convincente, mas Snyder consegue abordar com o mesmo coração as relações entre as pessoas que habitam este universo como um grande experimento social.

Tal prática, guiada pelo sádico Snyder e pelo ácido Gunn, é mobilizada não somente pelos eventos trágicos que acontecem, mas também pelos simples desacordos entre os personagens – tanto dos que colocam o grupo em geral em primeiro lugar quanto dos que estão dispostos a prejudicar todos em prol de uma pessoa querida -, que por sua vez não surgem simplesmente por contraste entre personalidades mas por decisões que não podem ser tomadas sem que todos sejam afetados. Nada é muito complexo nem elaborado, mas algo ainda melhor: é funcional. Snyder era uma grande aposta da Universal Pictures na época e, assim como muitos companheiros de profissão, surgiu dos comerciais de TV e clipes musicais, fato que fica evidente pela maneira como as cenas são estilizadas: as cores são quentes e contrastadas como em um vídeo de uma banda de Rock – às vezes, até demais – e os movimentos de câmera nem sempre são os mais naturais, o que confunde um pouco em momentos mais turbulentos e elimina qualquer possibilidade de sutileza, mas não é nada que incomode a longo prazo.

Aliás, a obra é a mais curta da carreira do diretor, o que enxergo como um ponto positivo, já que sua duração prova-se mais do que a suficiente para atender às resoluções da sua narrativa. E se está ansioso para ouvir sobre sustos e cenas sangrentas nesta sexta-feira, 13, também não deve se decepcionar, já que Snyder investe numa boa dose de sangue e violência de modo que possa apresentar cenas desagradáveis na medida do correto sem fazer com que a trama se resuma a pulos da cadeira e caras de nojo – há uma parte do filme em especial que me deixa traumatizado até hoje. Pode-se argumentar que o diretor tenha ficado muito acostumado com os grandes orçamentos nos últimos anos, mas puxa vida… seria interessante se ele voltasse a flertar com o terror de baixo orçamento.

Sou o Fundador do site Ovicio, Overplay e Muramasa. Fui idealizador e Game Designer do jogo Vencedor da DemoNight no BIG Festival 2014, o Jotunheim Project. Escolhido como Jurado do Anime Awards em 2024 e 2025. Amo games, sou fã de God of War, Dragon Quest, Fire Emblem, The Legend of Zelda e Pokémon. Coleciono livros, quadrinhos e guitarras.