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O que define, de fato, uma história noir? Seria o jogo de preto e branco? O contraste dramático da iluminação? A figura do detetive obstinado? Discussões recentes sobre novas produções, como a série Spider-Noir, trazem essa dúvida à tona. Direi o seguinte: embora esses elementos ajudem a compor a moldura do gênero, eles não são seus requisitos básicos. O noir finca suas raízes em algo mais profundo e um tanto complexo.

Não é uma questão de estética ou tom

noir clássico pacto de sangue
As sombras dos anos 40 eram uma ferramenta narrativa. Em clássicos como Pacto de Sangue, a luz recortada transformava o cenário em uma cela, deixando claro que o personagem já nasceu prisioneiro daquela realidade (Reprodução/Paramount Pictures)

Relíquia Macabra (1941), Pacto de Sangue (1944) e A Marca da Maldade (1958) são três dos mais clássicos exemplos do gênero. Sim, todos trazem o preto e branco e o contraste dramático, com luzes que cortam objetos para projetar sombras em forma de grades. Nas imagens, há ainda marcadores de tempo muito específicos, que transmitem uma sensação constante de lentidão e fadiga.

Blade Runner (1982), Se7en (1995) e Batman (2022), no entanto, são outros exemplos claros de noir, mas que fogem da estética dos anos 40 e de alguns clichês vistos como obrigatórios. Desta forma, já posso afirmar que a essência do noir não depende da estética. Se dependesse, livros e radionovelas noir seriam impossíveis. O fato é que o gênero nasceu nas revistas pulp dos anos 20, amadureceu nos livros, passou pelo rádio e, só depois de tudo isso, chegou ao cinema e à TV.

Então, o noir teria mais a ver com o tom? Seria o gênero definido simplesmente como uma história sombria com detetives? Também não. Nem todo noir precisa ser pesado ou melancólico. Veja O Grande Lebowski (1998): é um noir, mas é uma comédia. A recente série Verdade Oculta, por sua vez, pode não chegar ao humor dos irmãos Coen, mas também está longe de ser um amargo completo.

Um gênero sobre a inevitabilidade do fracasso

O personagem de Javier Bardem em Onde os Fracos Não tem Vez é a personificação do fatalismo (Reprodução/Paramount Pictures)

Para entender a essência do noir, precisamos retornar às suas origens. O gênero surgiu como uma resposta ao “Sonho Americano“. Enquanto as ficções convencionais pregavam que o bem sempre vence e o esforço é recompensado, o noir sussurrava que a sorte é aleatória e que o trabalho duro, por si só, não tira ninguém do lugar. Era um lembrete implacável de que, não importa o quanto você corra ou quão longe chegue, o seu passado sempre acabará te alcançando.

O noir se sustenta em dois pilares: atmosfera e tema. O que define o gênero é a visão pessimista da natureza humana, quase sempre manifestada em uma trama de crime. Então, não importa o meio, para ser noir é preciso imprimir uma sensação de ressaca moral; um clima que sopre no ouvido do leitor ou do espectador que, de um jeito ou de outro, tudo vai acabar dando errado.

O fatalismo é a espinha dorsal desse tipo de história. O noir vai muito além da investigação; trata-se da inevitabilidade do fracasso. Por isso, os protagonistas geralmente estão batendo de frente com engrenagens muito maiores do que eles, sem sequer perceberem. No noir, o protagonista praticamente nunca vence. Em alguns casos, vencer é simplesmente desistir dos seus objetivos. Mesmo nas raras vezes em que o personagem central alcança o objetivo, o preço pago é tão alto que a vitória acaba tendo um gosto amargo de derrota.

Veja o exemplo do colorido Alvo Humano, de Tom King e Greg Smallwood: a história já começa com o protagonista anunciando que vai morrer. De cara, os autores estabelecem que, não importa o quanto ele avance na investigação sobre o seu próprio assassino, nada mudará o fato de que ele morrerá em 12 dias. O que Christopher Chance tem a fazer é escolher entre desistir e partir dessa para melhor na paz, buscar vingança ou lutar contra uma entidade que nunca perdeu para ninguém: a morte.

No fim, Christopher Chance se rende ao inevitável. (Reprodução/DC Comics)

A esta altura, posso dizer ainda que a presença de um detetive profissional não é o que qualifica, necessariamente, uma história como noir — e uso O Agente Secreto (2025) como prova. No filme de Kleber Mendonça Filho, não há sombras clássicas, chuva, femme fatales ou investigadores particulares. No entanto, a atmosfera de pessimismo e o fatalismo temático, ambos ligados um crime, estão todos lá. É, sem dúvida, um noir fincado no coração do Recife.

No noir, o protagonista também pode ser um homem em fuga. O Marcelo (Wagner Moura) em O Agente Secreto não está tentando resolver um crime por curiosidade; ele está tentando sobreviver a um crime sistêmico (Reprodução/Vitrine Filmes)

Como norte-americano é bicho que gosta de padrão, é comum você ler por aí divisões do gênero em neo-noir, noir tropical, etc. Mas a verdade é que é tudo uma coisa só: noir. Seja um livro, um filme em preto e branco, uma série de fotografia soturna ou um gibi colorido; quer use marcadores de tempo para demonstrar a fadiga daquele mundo ou recorra a figuras como a femme fatale, o detetive perdedor ou o jornalista cínico. No fim das contas, criar uma história noir trata-se menos sobre padrões visuais e narrativos, e mais sobre o esforço de estabelecer essa atmosfera pessimista com os recursos da sua mídia.

Por que os protagonistas de histórias noir são tão interessantes?

Rust, interpretado por Matthew McConaughey na 1ª temporada de True Detective, é a personificação da fadiga: ele está acabado, cínico e bebeu todo o pessimismo do mundo (Reprodução/HBO)

Uma constante do noir é que seus protagonistas são sempre magnéticos, e por isso esses papéis são tão cobiçados em Hollywood. Existe uma atração quase instintiva pelo espelho de humanidade que esses personagens oferecem: eles são geralmente falhos, cínicos e moralmente ambíguos, mas jamais bidimensionais.

O prazer do noir não está em ver o herói vencer, mas em observar como o protagonista — quase sempre um anti-herói — encara a derrota inevitável. No fim das contas, o gênero é sobre manter a dignidade, ou ao menos o sarcasmo, enquanto o barco afunda. É, como canta Lobão, a pura “déca-danse avec élégance“.

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