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Ao longo dos anos, muitas séries focadas e ambientadas no cotidiano adolescente foram produzidas, como por exemplo “Skins” ou a mais recente “13 Reasons Why”. Tais produções normalmente têm grande apelo a seu público alvo, fazendo com que sejam estendidas até que a última gota de seu conceito seja extraída. Porém, curiosamente, a melhor (de longe) e mais rica série sobre o mundo adolescente de todos os tempos, não teve tal oportunidade. Sendo cancelada com apenas uma temporada de 18 episódios e tendo apenas 12 deles sido exibidos. Hoje, no nosso “Obrigatórios da Netflix”, falaremos de uma das obras mais geniais já produzidas pela televisão, “Freaks And Geeks”.

Criado por Paul Fieg (Que mais tarde se tornaria um dos grandes diretores de TV da atualidade, por seus trabalhos em Mad Men, The Office, 30 Rock e Arrested Development) ao lado do mestre da comédia contemporânea Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos) como produtor executivo, a série se passa durante os anos 80 e acompanha dois núcleos de estudantes, os “Freaks” (Os rebeldes, populares e valentões) e os “Geeks” (Os Nerds e excluídos) em suas desventuras de juventude enquanto tentam se encontrar no mundo. Entre os dois grupos está Lindsay Weir (Linda Cardellini), uma jovem que costumava ser uma das Nerds, mas que decide mudar seu status e se tornar uma “Freak”.

Trata-se, pelo menos tecnicamente, de uma série de comédia, e em relação a isso, ela cumpre perfeitamente o seu papel. A série está repleta de momentos hilários e personagens extremamente engraçados, em especial os interpretados por James Franco e Seth Rogen, aqui em sua primeira parceria de muitas, e também a melhor entre todas as outras.

Mas o mais interessante de se notar nisso, é quando pensamos nas estruturas de séries de comédia e o que foi feito aqui. Com duração de aproximadamente 40 minutos, essas séries costumam sempre prezar pelo seu status-co, isto é, os personagens, mesmo que tenham algum tipo de aprendizado ao longo dos episódios individuais, sempre recomeçarão o próximo como se nada tivesse acontecido. São arcos cíclicos, então se um personagem está estabelecido como o “Bully” e outro está estabelecido como a vítima, não importa o que aconteça, os episódios sempre terminarão com este status restaurado novamente para assim manter a fórmula do programa. Isto pode ser facilmente observado em séries como “Todo Mundo Odeia o Chris” e até na revolucionária e subversiva sitcom “Seinfeld”, porém, não aqui.

Logo no primeiro episódio da série, os “Freaks” decidem dar o troco no garoto da sala deles que os perseguia. Já o personagem Nick (Interpretado pelo Marshall de How I Meet Your Mother, Jason Segel), é provavelmente o mais complexo e profundo personagem da série, estando em constante desenvolvimento, ele não chega a permanecer mais de 3 episódios seguidos com a mesma mentalidade.

Outro personagem que sai de seu status, é Sam Weir (John Francis Daley, roteirista do futuro “Spiderman: Homecoming) irmão de Lindsay e co-protagonista do programa. Em qualquer outra série, todos os seus arcos ao longo dos episódios seriam focado em suas tentativas de conquistar a garota dos sonhos, Cindy (Natasha Melnick), aqui porém, a série decide levar isso a outro patamar. Claro que até mesmo em séries comuns relacionamentos acabam se consumando ou acabando inevitavelmente (Vide Friends e HIMYM), porém isso normalmente leva ao menos 3 temporadas de mais de 20 episódios cada, talvez os criadores da série estivessem prevendo o fim prematuro do show e quisessem acelerar as coisas, mas é algo difícil. Essas coragens que a série toma nos fazem refletir sobre para qual rumos a série nos levaria se tivesse durado mais.

Apesar da série ter como foco principal a evolução de Lindsay em sua busca de descobrir quem de fato ela realmente é, todos os personagens da série são repletos de camadas e mesmo com o tempo curto que o seriado durou, cada um tem direito a algum arco dramático, o que me faz defender que, apesar da genialidade cômica do programa, trata-se de um drama. Paul Fieg coloca em cada personagem um arco pertinente para cada faixa etária de seus personagens, e com isso, a série consegue em 18 episódios explorar quase tudo que pode ser explorado no gênero.

Ken (Seth Rogen) por exemplo, enfrenta a dúvida a respeito de sua sexualidade; Bill Haverchuck (Martin Starr), tem que lidar com a separação dos pais em virtude de uma traição matrimonial; e o já comentado, Nick Andropolis (Jason Segel), passa por decepções amorosas, depressão, abuso de drogas e seus grandes sonhos perdidos.

A parte técnica da série serve perfeitamente a seu propósito, as atuações são de boas (Como a de John Francis) até excelentes (Como as de Jason Siegel, James Franco, Martin Starr), as direções não são muito estilizadas na maioria das vezes, porém quando necessário o talento dos diretores envolvidos é evidente, em especial as cenas que são construídas em cima de clássicos do rock. Aliás, a trilha sonora recorrente durante toda a série é formada apenas de clássicos do gênero.

Voltando a parte cômica da série, uma das grandes virtudes de “Freaks and Geeks” nesse ponto é sua originalidade ao desenvolver as situações. Por exemplo, no segundo episódio, acontece o clássico “Meus pais saíram de casa, porque não dar uma festa?”, e quase sempre (Pra não dizer “sempre”) que se acontece algo assim seja em filmes ou seriados, o núcleo cômico está no perigo dos pais chegarem mais cedo e flagrarem tudo. Aqui não, Paul Feig nesse episódio opta por uma representação do fenômeno psicológico de “Auto Condicionamento”; ao mostrar os inúmeros adolescentes agindo como bêbados quando a bebida alcoólica da festa havia sido trocada por uma sem álcool, mostra-se perfeitamente esse conceito da psicologia, que demonstra como bebidas e algumas drogas são válvulas de escape do nosso “Eu social” para agirmos da maneira como gostaríamos de agir, e mesmo sendo uma bebida sem álcool, os personagens se auto conduzem a agirem de tal maneira.

E este é apenas um dos exemplos da profundidade que permeia cada um dos 18 episódios, e que fazem de Freaks And Geeks não apenas a melhor série sobre adolescentes já feitas, mas também, a melhor obra sobre adolescentes já feita (Chego a incluir clássicos da literatura como “Apanhador no Campo de Centeio”), poucos (Quisá nenhum)  filmes, livros ou seriados conseguiram tratar de tantas discussões sobre o universo jovem de maneira ao mesmo tempo divertida e dramática, com incontáveis personagens dinâmicos, memoráveis e carismáticos.

O único ponto negativo do programa foi ter durado tão pouco, mas teve o suficiente para entrar na história da cultura pop. Atualmente a série é a referência máxima quando o assunto é adolescência, superando até os filmes de John Hughes, sempre presente em listas de “Melhores Séries de Todos os Tempos” entre os 30 primeiros, e sempre em primeiro lugar quando o assunto é “Séries canceladas cedo demais”, a Freaks and Geeks ainda conseguiu com seus poucos episódios ser indicada e vencer a vários prêmios, incluindo o “Emmy”. Tambm devo ressaltar que a série é um prato cheio para fãs de cultura pop, com inúmeras referências a D&D, Monty Python, Star wars, Star Trek, Twilight Zone, entre outras.

Portanto, temos em Freaks And Geeks uma pequena porém brilhante obra de 18 capítulos a respeito dessa parte tão estranha e complexa de nossas vidas, a adolescência, ao mesmo tempo que a série traça paralelos com a cultura e política da época, estilos musicais, choque de gerações, entre outras coisas que fazem da criação de Paul Fieg um obrigatório da Netflix.  outras, Quando estiver em dúvida sobre o que assistir, já sabe o que escolher.



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