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O ano era 2008 e o Universo Cinematográfico Marvel dava seus primeiros passos com o lançamento de Homem de Ferro e O Incrível Hulk. O primeiro foi um sucesso quase que instantâneo, sendo considerado até hoje um dos melhores filmes de origem do gênero de super-heróis. O segundo, mesmo fazendo uma bilheteria superior ao seu orçamento, acabou não cativando o público e a crítica na mesma proporção, permanecendo no limbo e sendo esquecido pelo próprio universo em que habita.

O filme conta com um elenco de peso que envolve nomes como Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth, William Hurt e até uma pequena participação de Lou Ferrigno, fisiculturista e ator que deu vida ao verdão nos anos 70 e 80. Foi o único a ser estrelado por Edward Norton, demitido após contínuos conflitos com a Marvel envolvendo divergências criativas sobre qual direção o personagem deveria seguir. Devido a problemas contratuais com a Universal, o Hulk não teve mais produções individuais desde então. Hoje, dia 13 de junho, fazem exatos 12 anos que O Incrível Hulk chegou aos cinemas, e em homenagem a essa subestimada obra, tão querida por uma minoria que inclui este que vos fala, trago alguns pontos que me fazem gostar tanto do filme.

Eficiente introdução à história do personagem

Na época, faziam apenas 5 anos que o Hulk de Ang Lee havia sido lançado. O filme não foi tão bem digerido pelo público, e o conceito de origem do Hulk ainda era muito recente pra ser repetido. Sendo assim, Louis Leterrier, o diretor do filme, optou por mostrar a origem do personagem de forma breve e objetiva durante os créditos iniciais: General Ross, Dra. Betty Ross e equipe realizam uma experiência em Dr. Banner que tem como objetivo tornar os humanos imunes à radiação gama. A experiência falha, a exposição à radiação faz com que Banner se transforme num gigante monstro verde e destrua todo o laboratório, ferindo pessoas no processo e deixando Betty em coma. A partir daí, Banner e sua criatura interna tornam-se fugitivos do exército e inimigos pessoais de Ross.

Primeiro ato ambientado no Brasil

O filme contém aproximadamente 30 minutos de cenas ambientadas no Brasil. Bruce Banner está foragido, tentando viver uma vida relativamente normal. Tem um emprego comum numa fábrica de engarrafamentos, tenta aprender português e faz aulas de auto-controle respitarório/mental com um professor de jiu-jitsu. O cientista sofre um pequeno acidente em seu local de trabalho e seu sangue contamina o líquido de uma das garrafas, que eventualmente é ingerido por um idoso americano (representado pelo querido Stan Lee), causando seu óbito e levando Ross a rastreá-lo. Na sequência, temos uma desenfreada cena de perseguição, com o personagem usando seu conhecimento em torno da área da favela para se esconder e despistar os soldados. Encurralado e sem opção, o monstro toma o controle e é a primeira vez que vemos o Hulk em ação. Num breve momento, é possível ouvi-lo sussurrar “me deixe em paz”.

O Médico e O Monstro

A dualidade conflituosa de Bruce Banner foi muito bem explorada no filme. Seu desejo não é controlar Hulk, e sim se livrar dele. Ele não é um super-herói, ou um vilão, e sim um cientista. Hulk é como uma maldição, um monstro preso dentro de si. Banner busca incansavelmente um antídoto capaz de reverter o que causou, permitindo que ele reconquiste a normalidade em sua vida. Em certo momento do filme, Bruce diz que se transformar em Hulk é como perder a consciência e ter um litro de ácido colocado em seu cérebro. Ao se recuperar, não tem ideia de onde está ou do mal que causou. As lembranças se limitam a frames isolados, e controlar os batimentos cardíacos é um desafio constante. O monstro, grotesco e dominado pela fúria, apresenta resquícios de consciência e humanidade quando está em contato com Betty Ross, o grande amor de sua outra metade. A cena onde os dois interagem numa caverna e Betty consegue fazer com que ele se acalme é muito bonita e parece ter saído diretamente dos quadrinhos. Destaque para o desempenho de Liv Tyler.

O vilão e sua motivação

Ironicamente, o antagonista de Hulk é inicialmente um homem de meia idade, baixinho, marrento e magrelo, interpretado por Tim Roth. Blonsky é um soldado russo que foi “emprestado” ao General Ross, e após o mesmo explicar como Banner se transforma no Hulk, Blonsky diz estar decidido a passar pelo mesmo processo, com o objetivo de derrotar o Gigante Esmeralda. Ele não teme o monstro, quer ser superior à ele. Se submete a sequenciais aplicações de uma variante do soro do supersoldado, que lhe concede maior velocidade, agilidade, força e regeneração, e o transforma lentamente numa criatura abominável. A atuação de Tim Roth aqui é marcante e a personalidade de Blonsky contrasta com sua aparência: é imponente, frio, manipulador e tem sede de poder. Há uma cena no segundo ato onde o personagem enfrenta Hulk, e mesmo em óbvia desvantagem física, não demonstra medo ou intimidação, chegando a debochar da capacidade do Verdão. Ao lado de Loki e Caveira Vermelha, o vilão mais bacana da fase um do Universo Cinematográfico Marvel.

Equipe coadjuvante competente

Um filme se torna ainda mais interessante quando não é unicamente sustentado pelo protagonismo do personagem principal. Temos aqui três personagens que movimentam a trama e são fundamentais para o desenrolar do filme: Thaddeus Ross, o general que enxerga Hulk como propriedade do governo americano e o persegue incessantemente, colocando sua fixação acima do relacionamento com a própria filha. Betty Ross, cientista e grande amor de Bruce Banner, que se posiciona e enfrenta constantes situações de risco em nome de seu companheiro, e Samuel Sterns, um biólogo que estuda o sangue de Bruce Banner na tentativa de ajudá-lo em sua busca por um antídoto. Ao contrário de Bruce, Sterns não vê Hulk como uma maldição, e sim como uma bênção, a qual ele descreve como a coisa mais extraordinária que já viu na vida. É ele o responsável pela transformação final de Blonsky no Abominável, e é ele o último a ter contato com o sangue de Banner. Por onde é que andou o Líder nesses últimos doze (ou dezessete) anos?

O CGI e a batalha final

Doze anos atrás os recursos de computação gráfica ainda eram limitados. Criar dois monstros gigantes e fazer com que eles briguem nas ruas de Harlem não era algo simples de ser feito. Levando isso em consideração, o resultado aqui é mais que satisfatório. Hulk é verdadeiramente monstruoso, a textura de sua pele é perceptível, é possível identificar as marcas, os cortes, a variação da tonalidade verde, as veias saltadas, o aspecto sujo e até o molhado da chuva. Era a redenção visual após a borracha verde criada em 2003. As cenas do embate final entre Hulk e Abominável foram gravadas através da captura de movimentos, algo que exigiu esforço físico e treino por parte dos atores. A ambientação noturna, além de deixar o clima mais tenso e obscuro, ajudou a esconder pequenas falhas na renderização dos personagens. A luta é muito bem coreografada e por um breve momento chegamos a questionar a possibilidade do Abominável superar o Hulk em força bruta, mas o Verdão derrota o vilão ao unir ódio e inteligência. É aqui que somos presentados com o icônico bordão do personagem: HULK SMASH!

O início de uma saga

O Incrível Hulk foi o pontapé inicial do Universo Cinematográfico Marvel. Na época, era improvável imaginar filmes referenciando elementos de outros filmes ou personagens de diferentes franquias interagindo entre si. Dito isso, pergunto: Qual foi a sua reação ao ver Tony Stark entrando naquele bar e conversando com o general Ross? O Vingador Dourado mostrava ter conhecimento de tudo o que ocorreu e dizia estar montando uma equipe. O resto é história. De maneira breve e sutil, a Marvel estabelecia uma conexão entre seus filmes. Algo que me faz pensar… Se o filme do Gigante Esmeralda tivesse sido de fato bem recebido e Norton não tivesse tido os problemas que teve, seria possível imaginar Dr. Banner e Tony Stark interagindo em Homem de Ferro 2? Ou o Homem de Ferro intervindo nas ações descontroladas de Hulk num possível O Incrível Hulk 2? Robert Downey Jr. e Edward Norton juntos… Improvável e interessante. Quem sabe numa das realidades alternativas.

De lá pra cá, Hulk deu as caras em Os Vingadores, Vingadores: Era de Ultron, Thor: Ragnarok, Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato. Em todas as ocasiões foi interpretado por Mark Ruffalo, que agradou alguns (como o próprio Edward Norton) e desagradou outros. O comportamento e a personalidade do personagem aos poucos se distanciaram do que foi estabelecido em O Incrível Hulk e muitos questionam se a Marvel deu ao verdão o rumo que realmente merecia. Num futuro não tão distante, a aguardada série de Jennifer Walters, prima de Bruce Banner, será lançada através do serviço de streaming Disney +, e é especulado que personagens apresentados no filme, como Betty, Abominável e o Líder, poderão ser resgatados para eventuais participações. Enquanto isso, o Gigante Esmeralda aguarda por justiça no universo cinematográfico.



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