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No teatro das relações humanas, a masculinidade frequentemente se apresenta como uma armadura rígida que, mesmo sob pressão, nunca se dobra, mas estilhaça quando chega ao seu limite de carga. Pela Metade, atualmente em exibição na HBO Max, investiga essa construção social como uma endoscopia. A série vai além da superfície da violência em busca de algo mais ancestral, que desafia a dicotomia simplista entre herói e vilão para habitar o espaço cinzento e desconfortável da verdade humana.
Richard Gadd — aquele de Bebê Rena — trabalhou nesse roteiro cuidadosamente desde 2019. O resultado é um estudo de personagens agoniante que, como uma experiência intensa, deixa marcas relevantes no público. Mas como ele foi capaz disso?
Primeiro, é importante destacar que Gadd não fez a série sozinho. A convite da HBO Max, participei de uma coletiva de imprensa virtual com os principais nomes envolvidos na produção. A partir de tudo o que ouvi, sintetizei a estruturação do trauma na série em quatro tópicos principais, que o deixarão mais do que preparado para essa experiência.
A semente da repressão

Esta é a história de dois irmãos sem laços de sangue, obrigados a conviver sob o mesmo teto após a união de suas famílias. Niall é a introspecção em pessoa; já Ruben é um tipo truculento, herdeiro de um instinto violento e primitivo que já lhe rendeu passagens pela polícia. Embora a aproximação soe impossível, surge ali um laço de mútua dependência. O choque entre as personalidades intriga, pois a obra estabelece, logo de partida, que ambos carregam traumas profundos, chegando ao ponto de um estar determinado a destruir a vida do outro. O motivo? É essa jornada, alimentada por flashbacks ao longo de quarenta anos, que o público irá acompanhar.
Pela Metade sugere que o comportamento adulto é apenas a face visível de um iceberg de traumas infantis e repressões absorvidas ao longo dos primeiros anos da vida. “Quis pegar dois homens quebrados na vida adulta e voltar à infância deles, em uma época menos tolerante na sociedade do Reino Unido, e mostrar todo esse comportamento aprendido, a repressão que absorvem e o trauma que vivenciam“, explicou Gadd.
Existe uma precisão forense na forma como o autor disseca a “masculinidade quebrada“, utilizando o tempo como uma ferramenta de escala para mostrar que ninguém se torna um agressor ou uma vítima da noite para o dia. Segundo a produtora executiva Sophie Gardiner, a escala temporal era essencial para a obra: “Para explorar isso com a precisão forense que Richard dedica aos seus personagens, era necessário esse fôlego. É sobre como o que acontece no passado impacta o presente“.
O caos controlado

Diretora dos três primeiros episódios, Alexandra Brodski usa a textura da imagem para agregar peso à história. O retrato é quase tátil, e isso tem a ver com a escolha por uma cinematografia naturalista que permite que o mundo de Niall e Ruben transborde o quadro.
A ideia de Brodski foi criar algo orgânico, valorizando os improvisos feitos sobre o texto durante os ensaios. “O que eu realmente queria dos ensaios era criar vida. Acredito no caos, porque é preciso sentir que algo imprevisível pode acontecer.“, declarou.
Mas também não era bagunça. A produção teve muito cuidado para que os atores não exagerassem nas expressões e na violência, evitando que as interpretações se tornassem caricatas. Havia códigos internos para calibrar as atuações. Um exemplo era o termo “apocalipse zumbi“, usado para evitar que Mitchell Robertson (o jovem Niall) pesasse a mão na dramaticidade. “Toda vez que eu sentia que ele estava indo longe demais, eu dizia ‘apocalipse zumbi’. Era um atalho para ele baixar o tom imediatamente“, conta a diretora.
A violência como linguagem, não como espetáculo

Como escrevi na crítica, Pela Metade é uma série que arde. É uma obra difícil de se assistir, pois lida com a violência de forma muito tátil. O papel dela aqui não é ser um espetáculo. Não há prazer no confronto, mas a agonia de perceber que a violência é a única linguagem que aqueles personagens conhecem para expressar seus sentimentos — até mesmo o amor.
Para Gadd, explorar os extremos da violência masculina omitindo a sua face mais crua seria um desserviço à verdade artística. “Em uma série onde se explora as extremidades da violência masculina, é preciso mostrar quão longe isso pode chegar. Caso contrário, você está roubando do público a verdade desse grande tema“, afirma o roteirista.
A série, portanto, não é violência por violência. A agressividade está na tela como um subproduto inevitável de traumas psicológicos profundos. Funciona como um “teste de Rorschach” para o público. O objetivo, segundo Gadd, era desafiar os limites da audiência: “Queria ver até onde os personagens poderiam levar o público e se, ainda assim, quem está assistindo vai manter algum pingo de simpatia por eles no final“.
Pela Metade não deixa de ser, também, um processo de autodescoberta para o espectador. Vivenciar o drama de Niall e Ruben de forma tão intensa — fazendo ou não concessões — o fará refletir por algum tempo sobre como você reage aos sinais da violência no dia a dia.
Amor incondicional ou dependência emocional?

Parte importante e Pela Metade é sobre como certas conexões são tão profundas que transcendem a moralidade. Niall e Ruben parecem incapazes de viver juntos, mas igualmente incapazes de existir um sem o outro. É um laço nutrido desde a juventude, uma mistura de proteção, possessividade e reconhecimento mútuo. Como definiu Stuart Campbell, que interpreta o jovem Ruben: “Um dos temas da série é a luz e a escuridão, a proteção, mas também o tipo de possessividade e propriedade, e como isso se mistura até na mesma frase“.
Richard Gadd reforçou essa ambiguidade ao descrever a relação como um “storyline de pessoas precisando umas das outras para sobreviver“. A série evita rotular esse sentimento, preferindo mostrar como um personagem tenta alterar a trajetória de vida do outro por não aceitar certas realidades. “Queria, ao final da série, que você questionasse: quem trouxe mais dano à vida do outro e quem trouxe mais amor“, pontuou o criador da série.
A obra termina sem oferecer respostas fáceis ou lições de moral, deixando a imagem de dois seres que, na tentativa de sobreviver um ao outro, acabam por definir os caminhos de suas próprias vidas de forma irremediável. Ao final, o roteiro de Gadd se revela como um espelho quebrado: reflete as partes de nós que preferiríamos manter no escuro, desafiando o espectador a encarar seus próprios demônios enquanto testemunha a trágica desintegração de dois homens em busca de um pertencimento que nunca chega.
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Pela Metade vai ao ar todas as quintas-feiras na HBO Max, sempre às 22h (no horário de Brasília).






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