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Pra dar o contexto, o filme de Assassin’s Creed chegou numa época em que boas adaptações de videogame para o cinema eram extremamente raras. Bom, até hoje isso ainda é meio verdade. Mas muita gente que jogou a franquia concorda que Assassin’s Creed tem potencial de sobra pra render bons filmes ou séries.

O conceito principal já chama atenção por si só: um protagonista no presente acessando as memórias dos seus antepassados assassinos no passado, misturando ficção científica com história de uma forma bastante única.

E o filme teve orçamento alto, nomes importantes no elenco e uma proposta que parecia muito promissora, passando-se durante a Inquisição Espanhola. Mesmo com tudo isso a favor, ele acabou fracassando. Mas afinal, o que deu errado, matando os planos de uma sequência? É isso que vamos falar no vídeo de hoje.

Um começo promissor

Tudo começou lá em 2011, antes mesmo do lançamento de Assassin’s Creed Revelations. A franquia ainda estava crescendo, mas a Ubisoft já tinha noção do potencial cinematográfico da marca. E o mais curioso é que, em 2012, anunciaram que o ator Michael Fassbender estaria no papel principal. Isso quando o roteiro nem tinha sido escrito ainda e o personagem sequer existia.

Mas o importante para a empresa era ter Fassbender confirmado. Um ator premiado, indicado duas vezes ao Oscar e ganhador do Globo de Ouro. Muita gente ficou empolgada com esse anúncio — e com razão. Mas ele não foi o único nome de peso.

Reprodução/20th Century Studios

Marion Cotillard, vencedora do Oscar, interpreta Sofia. Jeremy Irons faz o pai dela. Brendan Gleeson é o pai do personagem de Fassbender. Era de fato um elenco de peso. Só que, apesar disso, o roteiro passou por várias reescritas — o que sempre é um sinal de alerta. Começou com Michael Lesslie, depois passou por Scott Frank, depois por Adam Cooper e Bill Collage. E quando um roteiro muda tantas vezes, é porque algo não tá funcionando direito.

Justin Kurzel foi o diretor escolhido, e as filmagens aconteceram no fim de 2015. Com tudo isso junto — orçamento, elenco, base de fãs e uma franquia consolidada — parecia que o sucesso era garantido. Mas não foi o que aconteceu. E a culpa é do próprio filme.

O fracasso

Como parte da história de Assassin’s Creed, o filme até consegue apresentar bem os principais temas da franquia: o conflito entre Assassinos e Templários, a luta entre livre-arbítrio e controle social, a busca pela Maçã do Éden, e até o uso do Animus pela Abstergo.

A introdução mostra Aguilar sendo iniciado como Assassino, com o clássico sacrifício do dedo, e o filme conta com várias referências aos jogos. É uma adaptação razoavelmente fiel, mesmo contando uma história nova. Mas dá pra entender por que a crítica detonou: pra quem não conhece os jogos, o filme pode parecer confuso e bagunçado.

Outro problema foi a classificação indicativa. Assassin’s Creed nos games é voltado para adultos, com bastante violência. Mas o filme é PG-13. Tudo foi suavizado pra caber nessa faixa etária, o que limita o potencial de cenas mais brutais ou intensas. Mas o maior desperdício, sem sombra de dúvidas, foi o pouco tempo dedicado à parte do passado.

Reprodução/20th Century Studios

Em vez de focar no personagem Aguilar e na Inquisição, o filme passa 90% do tempo no presente com seu descendente moderno, Cal. Nos jogos, a fórmula é oposta: o foco sempre foi nos personagens históricos. Aqui, inverteram isso. E o Aguilar é um personagem com baita potencial, com um visual incrível e que… quase não fala no filme. Ele tem, sei lá, três ou quatro falas no total.

Claro, o filme precisava explicar o Animus, mostrar a Abstergo, situar quem nunca jogou. Mas não precisava fazer isso à custa do que o público mais ama na franquia: os Assassinos históricos. A parte da Abstergo até tem seus momentos, mostrando mais da operação moderna. Mas vira um sci-fi genérico rapidamente, especialmente pela estranha decisão de mudar o Animus daquela cadeira clássica para um… braço mecânico bizarro.

Reprodução/20th Century Studios

E, pra piorar, o filme é cheio de exposição. Todos os personagens ficam explicando as coisas pro Cal, que funciona como um avatar do público. Tem até uma tela de texto no começo do filme explicando a premissa. É um roteiro pobre.

O Cancelamento das Sequências

É inegável o fracasso do filme de Assassin’s Creed. No Rotten Tomatoes, o longa tem uma aprovação de apenas 18% da crítica, o que o categoriza como um “tomate podre” no site. E mesmo tendo arrecadado 240 milhões de dólares com um orçamento de 125 milhões, isso não significou lucro.

Com os custos de marketing e distribuição, estima-se que a Fox e a Ubisoft tenham perdido entre 75 e 100 milhões de dólares. Por isso, a ideia de transformar o filme em franquia foi abandonada. E sim, existiam muitos planos.

Reprodução/20th Century Studios

Em 2016, Daphne Yang, CEO da CatchPlay, cofinanciadora taiwanesa do filme, afirmou que a 20th Century Fox e a New Regency estavam buscando transformar o filme em uma franquia, já que ele é baseado em “jogos de sucesso da Ubisoft e renderia sequências ideais”.

Assim, dois filmes adicionais foram planejados, com a primeira sequência tendo entrado em desenvolvimento durante a produção do filme original. Ou seja, teríamos sim uma trilogia de filmes. O diretor, Justin Kurzel, disse que gostaria de explorar a Guerra Fria na sequência, inclusive.

Porém, devido à recepção negativa do filme e após a aquisição dos ativos da 21st Century Fox pela Disney, as sequências, juntamente com outras adaptações cinematográficas de videogames, foram canceladas.

Netflix

Reprodução/Netflix

Apesar do fracasso nos cinemas, Assassin’s Creed ainda não foi descartado como adaptação audiovisual. A Netflix está desenvolvendo uma série live-action em parceria com a Ubisoft, e as expectativas são bem altas. A trama promete ser um thriller intenso sobre a guerra secreta entre Assassinos e Templários, com personagens cruzando eventos históricos decisivos. Rumores apontam que a primeira temporada pode se passar na Roma Antiga, durante o reinado de Nero — o que abre espaço para intrigas políticas, conspirações e ambientações que combinam perfeitamente com o espírito da franquia.

A série terá direção de Johan Renck, de Chernobyl, e conta com nomes como Toby Wallace e Lola Petticrew no elenco. A história será original, não focando em heróis dos games, mas respeitando o cânone e a mitologia estabelecida. Depois de tanto potencial desperdiçado no cinema, os fãs agora esperam que a Netflix consiga finalmente fazer justiça ao universo dos Assassinos.

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Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.