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detailEssa semana o mundo dos quadrinhos foi abalado. Em meio a um temporal de novidades promissoras a respeito da mais nova iniciativa da DC Comics, o DC Universe Rebirth, eis que chegou às lojas de quadrinhos americanas um outro gibi, este pela Marvel, ali, despercebido, humilde, que acabou por roubar os holofotes por trazer um plot twist no mínimo chocante em suas páginas. Trata-se de Captain America: Steve Rogers #1, novo título mensal do bandeiroso, com roteiros de Nick Spencer e arte de Jesus Saiz. Após um longo período longe da ação devido ao soro do supersoldado que corre em suas veias ter perdido o efeito tornando-o um idoso, Steve Rogers recuperou sua juventude no arco Avengers: Standoff e finalmente está de volta com um novo título, um novo uniforme e novas aventuras. É uma ótima fase para os fãs do personagem, bem no momento em que ele está comemorando 75 anos desde sua criação, certo? Bem, digamos que não foi bem assim. 

Na primeira edição da revista, Nick Spencer resolveu mexer no passado de Steve, revelando que sua mãe – que era vítima de violência doméstica pelo marido – acabou sendo ajudada por uma agente de uma certa comunidade, inclusive incentivando-a a tomar parte da organização com seu filho ainda criança. E apesar de não revelar se o convite foi ou não aceito, Spencer utiliza as últimas páginas da HQ para mostrar o Capitão América assassinando a sangue-frio seu parceiro Jack Flag, apenas para em seguida entoar o código que marca aquele que é afiliado ao grupo nazista: Hail, Hydra. É óbvio que a ideia não foi bem recebida pelos fãs. É o Capitão América, o personagem mais patriota dos quadrinhos, defensor da moral e dos bons costumes, um verdadeiro escoteiro que devotou toda sua vida – exceto quando estava congelado – enfrentando nazistas, terroristas e conspiradores que pudessem de alguma forma afetar o belo modo de vida americano. Ou seja, os leitores tem diante de si um conceito que vai não apenas contra tudo que o personagem sempre defendeu, mas também contra praticamente todas as histórias do Capitão América ao longo dos anos. Certo. Tá legal. Mas ainda assim, todo o rage gerado (que inclui até ameaças de morte ao roteirista da história) é justificado pela ideia plantada em apenas uma primeira edição?

“Este não é um clone, nem um impostor, ele não está sob controle mental, não é ninguém controlando ou agindo pelo Steve. Este é realmente Steve Rogers, o Capitão América em pessoa.”Nick Spencer

Obviamente, como a grande empresa que é, a Marvel aproveitaria a polêmica para vender gibis. Porque apesar de alguns esquecerem ou simplesmente ignorarem, é disso que a indústria se trata no fim do dia. Eles precisam vender gibis. E a polêmica vende qualquer coisa. Menos de 24 horas após a bomba explodir nos fóruns e sites de quadrinhos, eis que o escritor Nick Spencer e o editor Tom Brevoort vieram a público dar uma entrevista à Entertainment Weekly para falar – muito – a respeito da ideia. Mais alguém já viu isso acontecer?

Em 2010, a editora, durante a fase do roteirista Andy Diggle pelo Demolidor, resolveu vender a ideia de que o personagem estaria – de forma definitiva, como sempre é nesses casos – tornando-se um vilão. Na saga Terra das Sombras, o Homem Sem Medo assassinou o Mercenário, tomou o império do Rei do Crime, liderou o Tentáculo, e lutou contra os heróis do Universo Marvel. Tudo isso para ser revelado que Matt Murdock estava sob domínio de um demônio ancestral, retornando algum tempo depois em um novo título, reformulado por Mark Waid, trazendo o personagem de volta às origens. Em 2013, um caso ainda pior. Em uma ideia que foi completamente rechaçada pelos leitores, o roteirista Dan Slott simplesmente matou Peter Parker, colocando um vilão – o Doutor Octopus – no corpo do herói, criando assim um novo título: o Homem-Aranha Superior. Slott também foi ameaçado de morte – ah, o carinho dos nerds -, a revista acabou tendo uma boa execução tornando-se uma das melhores fases do aracnídeo, e ora vejam só… 33 edições depois, Peter Parker estava de  volta ao seu corpo, mais serelepe do que nunca.

Ah, mas não tem comparação!“, alguns vão dizer. “Eram casos diferentes dessa deturpação“, outros bradarão. Mas o ponto aqui não é esse. O ponto não é o nível de “descaracterização”, ou de mudanças dentro dentro da origem de personagens consagrados. O ponto é a necessidade de se fazer isso. E a pergunta honesta se isso realmente é uma problema.

Veja bem, super-heróis são eternos. Eles estão presos dentro de um infinito ciclo de repetições e conceitos reformulados e reaproveitados, o que torna cada vez mais difícil impedir que suas histórias tenham qualquer originalidade. Muito disso também pelo fato de que existe uma linha de status quo que não pode ser atravessada pelos roteiristas. A mesma linha que impediu que Scott Snyder entregasse a história que os fãs queriam em Batman: A Morte da Família, fazendo com que esses mesmos leitores que reclamam de mudanças, o chamassem de covarde.

Certa vez Grant Morrison disse que é preciso que as editoras deixem os escritores “pirarem”, e a indústria nos mostra que a ideia do roteirista faz total sentido. Caras como o próprio Morrison são bem vindos nos quadrinhos, pelo alto teor de experimentação que conseguem incorporar em suas histórias, trazendo dúzias de novos conceitos que apenas acrescentam mais material à rica mitologia dos personagens. Foi o que Morrison fez com o Batman, Geoff Johns fez com o Lanterna Verde, e até Brian Michael Bendis, em uma escala diferente, fez com os Vingadores.

Os quadrinhos, hoje, precisam cada vez mais de inovação e frescor em suas histórias. E por mais que algumas ideias sejam inicialmente vistas como esquisitas, bizarras ou surreais, essa sacudida no convencional se faz extremamente necessária, levando o personagem a lugares até então desconhecidos, trazendo pelo menos a sensação de novidade. Um dos grandes problemas do público atual é que ele é tão acomodado com o ciclo repetitivo e infinito dos quadrinhos, que se vê revoltado quando alguém surge e o retira de sua zona de conforto. Ele ignora que o que move esse mercado e o mantém em funcionamento, é justamente a abordagem do novo, do diferente e do polêmico.

Dessa forma, não é apenas cedo demais, como é injustificada tamanha revolta do público com a situação. Sério, vendo sob essa ótica, qual é o problema em vilanizarem o Capitão América? A ideia – ainda que bizarra – é boa, e tem potencial para entregar algo realmente grande dentro do título do personagem – que convenhamos, não tem uma fase realmente digna de nota desde a saída do escritor Ed Brubaker. O que devemos esperar, é que Nick Spencer tenha capacidade de pegar seu plot e realmente entregar uma boa execução, fazendo disso algo interessante e revigorante para os fãs de Steve Rogers. E se não for bom, a Marvel inventa um retcon e “corrige” o problema, como é comum nos quadrinhos. E sabe por que? Porque os personagens, como eu disse, são eternos. Histórias vem e vão, mas eles precisam continuar como ontem.

Então, sabendo que cedo ou tarde tudo vai voltar ao seu ciclo infinito, porque não curtir a viagem? Ou alguém realmente acha que o Capitão América será transformado em um novo Caveira Vermelha de forma definitiva bem no ano em que completa o seu 75º aniversário ? Abrace o diferente. HAIL HYDRA!