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Spoilers? Don’t worry about it!

Essa mês se completam 10 anos desde o fim de “Família Soprano” (The Sopranos), a série da HBO que revolucionou a televisão e deu início a uma nova era de produções televisivas dramáticas que elevaram o status dos seriados a um outro nível, fazendo com que se equiparam-se ao do cinema. Mas afinal, porque esta série é tão aclamada? Qual foi de fato o impacto de Sopranos na TV e não estaria essa série limitada apenas a este impacto e nada mais? Muitas obras apesar de revolucionárias não sobrevivem ao tempo e são ultrapassadas em qualidade por obras posteriores, seria o mesmo aqui?
No fucking way! E para entendermos isso, pegue seu gabagoo e prepare-se para ser introduzido ao fúnebre e divertido universo de Sopranos!

A Série

“Nessa coisa de psiquiatria, aparentemente, o que você está sentindo não é o que você está sentindo e o que você não está sentindo é, na verdade, a sua ordem do dia.” – Tony Soprano



A trama começa quando o mafioso Tony Soprano decide iniciar um tratamento psicológico para cessar seus ataques de pânico e crises existenciais. Um ponto importante a citar é que Tony tem na série ao menos 4 núcleos principais, o núcleo familiar, o criminoso/negócios, o núcleo do tratamento com a Dra. Melfi, e seu núcleo psicológico. A série então desenvolve como esses 4 núcleos agem uns sobre os outros conforme a história progride, a “trama” dos arcos que constituem as temporadas nunca é o foco principal de The Sopranos, mas sim como esses núcleos afetam o protagonista.

Além de se focar pouco na trama, elemento que normalmente é o ponto principal em qualquer outra série, outro aspecto subversivo da obra de David Chase está por exemplo nos finais dos episódios. Esqueça os famosos “Cliff Hangers” (Finais bombásticos que tem como objetivo ligar os episódios e fazer o espectador esperar ansiosamente pelo próximo), ao invés de te deixar esperando o próximo capítulo da saga, The Sopranos convida o espectador a refletir sobre o episódio que acabou de assistir, terminando quase sempre com um anti-climax seguido de alguma reflexão do personagem no consultório da Dra. Melfi.  Isso faz com que todo episódio, por mais que esteja interligado a um contexto maior, funcionem muito bem individualmente e explore diferentes filosofias dentro de seu universo e de seus personagens.

Mas há uma filosofia crucial para a entender a essência do programa, e esta é o existencialismo. A grande pergunta da série é “Porque estamos aqui?”, seria a vida uma queda num abismo sombrio e sem significado, ou teríamos um papel maior?

Esta tecla é batida durante toda a série, e é crucial para decifrar as mensagens deixadas por Chase ou para compreender o polêmico final do seriado. Nenhum spoiler será dado nesse texto, mas aqueles que se propuserem a ver a obra, terá uma experiência no mínimo interessante com o desfecho da saga existencialista de David Chase.

O Inicio
“ ‘The Sopranos’ foi a primeira série sobre a vida de seu escritor, eu nunca escondi o fato de que na verdade ela era sobre minha mãe” – David Chase



David Chase é um artista um tanto quanto complexo (para não dizer estranho). Mas ele também é um gênio, e um gênio que esteve na hora certa e no lugar certo. A primeira coisa que você tem que saber sobre o homem por trás da mais importante série da TV, é que ele odeia séries de TV, e não faz a menor questão de esconder isso. Chase deixou claro ao longo das inúmeras entrevistas que deu ao longo dos anos que sempre odiou o formato televisivo e tinha como grande sonho as telas de cinema, influenciado por cineastas como Martin Scorsese (a acidez das tramas, personagens violentos e caricaturais, e muito estilo) e David Lynch (forte simbologia e muito uso de sonhos) David Chase após anos tentando na sétima arte, se rendeu e iniciou o desenvolvimento de um piloto para uma série que mistura-se suas experiências de vida, principalmente sua relação com sua mãe, e sua paixão por filmes de máfia. Série esta que mais tarde se tornaria Sopranos.

E aí está o que eu quis dizer no início deste tópico, o que melhor para mudar a estrutura da televisão do que um cara que odeia televisão? David Chase dispensou completamente as fórmulas de séries vigentes até então, como as tramas redondas e episódicas que sempre mantinham o status-co do seriado e se repetia de semana a semana. Chase optou por usar melhor o tempo que tinha em mãos, criando assim arcos e sub-arcos que desenvolviam-se ao longo de temporadas e temporadas que desenvolviam-se perante a série em geral, podendo assim trabalhar inúmeros personagens, histórias, temas, gêneros e núcleos.

E é assim que Sopranos consegue se destacar em meio a tantas obras sobre máfia, o fato de ter tido mais de 86 horas para desenvolver seu universo da a série um privilégio que nenhum outro filme conseguiria.

Além de Chase também tem que ser dado crédito à HBO, que adotou a política de censura zero a seus programas, dando carta branca para inúmeros criadores trabalharem suas produções originais da maneira como deveria. Foi a coragem da emissora que proporcionou mais tarde séries como “The Wire” e “Oz” que concretizaram o que foi começado com Sopranos e tornou possível “séries de autor” em outras emissoras como “Breaking Bad” e “Mad Men”.

Agora, talvez o maior legado que o programa deixou para seus sucessores foi seu protagonista.

Tony Soprano
“Nenhum homem pode usar um rosto para si mesmo e outro para a multidão sem ficar confuso sobre qual deles é o verdadeiro”. – Citação do episódio “College” (SO1 E5)

As séries até então tinham a tradição de protagonistas morais e éticos que nunca eram corrompidos e sempre tinham algo a ensinar ao público. Isso vem muito do fato que na televisão o público-alvo era as famílias americanas que consumiam esses programas como se fosse alimento. Então nas sitcons sempre tinha-se aquela representação da família ideal americana, rica e contente, sempre trazendo uma lição de vida ao final de cada episódio. Mesmo quando não era uma sitcom, as séries dramáticas da época eram como “Arquivo X” ou “The West Wing”, que apesar de tramas sérias e mais contundentes com a realidade ou com forte vertente crítica, mantinham a mesma política de protagonista herói.

Claro que houve uma ou outra série que tentou algo diferente, como “The Twlight Zone” nos anos 60, porém, apesar de trazer protagonistas improváveis e histórias mais chocantes, era o auge do termo “episódico”. Para quem não conhece, a série trazia contos fechados de sci-fi, fantasia ou terror e nunca uma trama se estendia mais que um único episódico, sem ter nenhum personagem regular ou arco, além de ainda ter a velha lição de moral a cada final.

Outra série que subverteu os paradigmas foi a comédia dos anos 90 “Seinfeld”, que apesar de desprender-se completamente das tramas morais e protagonistas idealizados, ainda era inofensiva. Sim, os personagens tinham atitudes imorais e questionáveis, mas essas eram como furar uma fila ou discutir no trânsito, nada no nível do que Sopranos fez.

David Chase nos coloca no ponto de vista de Tony Soprano, que é para todos os efeitos, o vilão deste universo. Extremamente violento, imponente e até mesmo sádico, acompanhamos os inúmeros crimes, obscenidades e barbaridades cometidos pelo mafioso, e por mais abomináveis que sejam, torcemos por ele e até mesmo o amamos.

Isso se deve a dois fatores, primeiramente, a profundidade dos roteiros da série, que criam inúmeras camadas e dualidades para o personagem. Por pior que Tony seja, ele acima de tudo é um pai de família e um ser humano, ao vermos ele nas sessões de terapia combatendo seus males internos ficamos íntimos a suas dores e crises existenciais e nos identificamos com este lado humano, pois afinal, mesmo que seja um mafioso sociopata, é também um risonho pai de família que alimenta os patinhos que entram em sua piscina. O segundo fator é, obviamente, a brilhante interpretação do já falecido ator James Gandolfini, que emprega inúmeros trejeitos e maneirismos ao personagem que fazem o espectador saber exatamente o que Tony está tramando apenas pela intensidade de seu olhar.

Apesar do cinema já ter um longo histórico de filmes totalmente focados no “bad guy” da trama, o formato de TV deixou essa experiência muito mais imersiva, já que temos um longo tempo com Tony, mais do que qualquer outro anti-herói que qualquer filme pode criar. Sopranos então tornou-se a primeira série com este tipo de protagonista, algo que virou regra nas séries dramáticas que se destacariam depois, como “The Wire”, “Breaking Bad”, “Mad Man”, “Sons of Anarchy”, “Vikings“, “Game of Thrones“, “Dexter“, “House of Cards” entre outras.

O Impacto de Sopranos.
“(…) Acredito que a maior diferença entre Sopranos e outras séries foi que era bastante pessoal. Existiam milhares de séries dramáticas, algumas muito boas, outras muito ruins, mas eram sempre sobre policiais, médicos, advogados, investigadores… Sopranos foi sobre pessoas, e em especial o próprio criador (…)” – David Chase

Hoje pode ser um pouco difícil para o público brasileiro compreender o impacto que Sopranos teve no mundo do entretenimento, exibido em uma época em que a internet não chegava perto do que é hoje. A série foi um pouco apagada pelo tempo por produções sucessoras que tiveram todo o buzz da internet e redes sociais, mas acredite, Sopranos foi um fenômeno de proporções hollywoodianas.

Logo em sua primeira temporada a série já foi indicada a todas as premiações que tinha direito, e se manteve presente nelas durante todos os anos que esteve no ar, totalizando mais de 200 indicações e mais de 50 vitórias. Cada episódio da série alcançava números altíssimos de audiência, tendo seu auge entre a terceira e quinta temporada, com cada episódio alcançando índices entre 9 e 10 milhões de espectadores. O último episódio da quarta temporada alcançou impressionantes 12.5 milhões de espectadores, recorde da emissora que só foi batido recentemente por Game of Thrones.

As pessoas reuniam-se em bares para ver os episódios, a HBO gravava finais alternativos para despistar as especulações da mídia, foi praticamente uma “Sopranomania”. Deve-se notar que hoje a variedade de conteúdo produzido é imenso, o que fragmenta o público. Na época, Sopranos era algo completamente inédito, repleto de palavrões, erotismo, violência, tudo era novo, o que fez a série ter um impacto literalmente revolucionário, mudando completamente o futuro da dramaticidade televisiva.

Conclusão
“Se você pode dizer quais são as regras, você pode obedecê-las” – Tony Soprano

Então, faça um favor a si mesmo e corra atrás dessa obra brilhante e atemporal. Muitos podem pensar que após tantas séries que seguiram os mesmos moldes de Sopranos, vê-la hoje em dia não terá impacto, mas eu acredito que acima de tudo Sopranos é uma genuína história bem contada, que se sustenta independente do seu lado revolucionário, tornando-a relevante até hoje.

Até porque mesmo passado 10 anos, a atmosfera da série nunca foi replicada, justamente por ter sido o ponto de transição de uma era para outra, o programa criou para si um escopo e estilo próprio e irreplicável.

Apenas um artigo é pouco para falar de tudo que gostaria, portanto pretendo escrever mais futuramente, mas acredito que agora vocês já estão devidamente apresentados a esta Família.

 



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