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Quando foi anunciado, o novo filme de Kleber Mendonça Filho chamou atenção por se chamar O Agente Secreto (2025) e ser situado no Recife dos anos 70, onde não há nenhuma história conhecida ou qualquer sugestão de que tenha havido alguma conspiração com espiões. Mesmo agora, com o filme em cartaz, é comum que as pessoas se perguntem: “Quem é o agente secreto da trama?“
Neste artigo debato isso, mas ATENÇÃO: esta é uma postagem dedicada única e exclusivamente a quem já assistiu ao filme, pois falarei sobre detalhes muito importantes do final. Se você ainda não foi aos cinemas conferir e se importa com SPOILERS, saia daqui agora mesmo, pois está prestes a ter o filme arruinado.
Caso você já tenha assistido, ou chegou até aqui fazendo essa pergunta no Google, seja muito bem-vindo(a) ao O Vício! Esperamos que continue conosco. Agora, vamos logo ao que interessa:

Como você deve ter percebido, não há um agente secreto no sentido mais clássico da palavra. A personagem que mais se aproxima dessa definição é Elza, interpretada por Maria Fernanda Cândido.
Elza é a filha de um político influente e ligado à ditadura que ajuda refugiados do regime militar com recursos financeiros e logísticos, oferecendo, por exemplo, fuga e documentação falsa. Em grande parte, a missão dela é documentar depoimentos que podem complicar pessoas influentes do governo.

É assim que Marcelo (Wagner Moura) — que, na verdade, se chama Armando — participa da trama de espionagem. O protagonista não é, diretamente, um refugiado do regime militar. Ele se envolveu em uma briga pessoal com o chefe da Petrobras, e este encomendou a sua morte a assassinos profissionais pelo desaforo.
Armando, então, não está fugindo de generais, e sim de uma pessoa com influência que está usando a aparelhagem do regime militar para dar cabo de sua vida. Cobrando favores a Brasília, o vilão consegue a prisão do passaporte de Armando, o que complica a sua fuga e o deixa no alcance dos matadores contratados.
Elza tem interesse em ouvir o que Armando tem a falar sobre o chefe da Petrobras, pois o que ele sabe é importante para uma investigação que pode atingir alvos maiores do governo.
O título de O Agente Secreto (2025) faz muito sentido com o tom do filme. Estamos falando de um thriller que tem todos os elementos de uma história de espionagem, menos o espião clássico. O principal elemento, entretanto, é a memória como fonte de disputa.
Repare que os filmes de espionagem, quando não abordam uma conspiração que pretende dominar o mundo, ou bombas atômicas prestes a serem disparadas, sempre lidam com o apagamento como elemento central da trama. Há sempre alguém querendo enterrar dados e testemunhas, enquanto outra parte quer preservá-los para expor um grande mal.
O Agente Secreto (2025) foi concebido a partir da ideia de que o Brasil é um país que ainda tem assuntos a resolver com a sua memória. Observe: os crimes da ditadura foram quase todos assumidos, mas quase nenhum foi investigado ou julgado — e há até um certo medo de figuras poderosas de que esses casos sejam reabertos.
A seguir, o maior SPOILER do filme: Se você não assistiu e está lendo até agora, aqui está uma nova chance para parar de ler.

Há quem tenha ficado incomodado com o final: Armando se envolve em uma situação muito difícil de sair, e de fato, ele não consegue. O personagem principal, interpretado por Wagner Moura, é assassinado, e nós descobrimos isso por uma página de jornal, sem saber quem o matou ou como o assassinato ocorreu.
A morte de Armando é uma representação fictícia do problema do nosso país com a memória. Lembre-se, desde o começo Kleber Mendonça Filho prometeu o filme como “uma história sobre a lógica do Brasil“.
Com a sequência final se passando nos tempos de hoje, descobrimos que o trabalho de Elza não gerou o grande impacto que ela pretendia. No entanto, as gravações existem e tudo que Armando sabia chega ao conhecimento de Fernando, o seu filho — que também é interpretado por Wagner Moura.
Em meio a todo o caos e agonia, a memória de Armando permaneceu viva, e essa é parte otimista da mensagem do filme.
Essa decisão permite-me a interpretação de que o agente secreto metafórico do filme é a memória, que operou por décadas nas sombras, resistiu ao apagamento e cumpriu a sua missão, reemergindo com fragmentos importantes da verdade.






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