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Escrito a quatro mãos, sob autoria dos já veteranos na ficção científica Stephen Baxter e Alastair Reynolds, Crônicas de Medusa possui um legado poderoso o qual honrar. Lançado em 2016 no exterior, a obra se trata de uma continuação da novela Encontro com Medusa, do lendário Arthur C. Clarke (2001: uma Odisseia no Espaço), publicada em 1971 e ganhadora dos prêmios Nebula e Seiun. A obra, que lidava com explorações humanas no espaço e da descoberta e interação com formas de vida exóticas e diferentes, forma a base para o livro de Baxter e Reynolds, que conseguem muito bem utilizar as ideias e conceitos originais de Clarke para mostrar séculos de interação humana com uma raça emergente: as máquinas.

O romance começa pouco depois da novela de Arthur C. Clarke, dando um breve resumo dos acontecimentos que levaram ao acidente que fez com o comandante Howard Falcon a se torna-se um cyborg – meio homem e meio máquina – de aparência terrível e improvisada, mas ainda com sua personalidade. Virtualmente imortal e com muito tempo livre, o personagem retorna às suas explorações. Um acidente onde um robô demonstra discernimento coloca o comandante em contato com o novo desenvolvimento das máquinas, e o que o deveriam ser apenas trabalhadores obedientes acabam adquirindo consciência e inteligência.

Howard então acaba sendo escolhido tanto pelo Governo Mundial quanto pelas máquinas – principalmente por um robô que se tornou uma espécie de amigo, Adam – para ser uma espécie de interprete e embaixador. Ao longo dos séculos estando envolvendo tanto no surgimento desta nova raça consciente, os primeiros esforços em conjunto a humanidade e, por fim, a guerra.

Baxter e Reynolds trazem um conceito bem amarrado, embora o livro carregue diversos temas. O grande objetivo da obra é apresentar a evolução das relações da raça humana com uma nova espécie inteligente que estaria compartilhando do mesmo sistema solar. Para isso, a figura de Howard Falcon, cyborg, imortal, e espécie de meio termo entre os dois grupos – embora desconsiderado por ambos – acaba sendo uma escolha muito boa para apresentar e mediar a história. Mas não é apenas a “condição física” de Howard que o torna um perfeito protagonista para a trama, as inclinações filosóficas e intelectuais do personagem são tão importantes para o livro quanto a sua imortalidade ou o fato de não ser nem homem e nem máquina.

O personagem carrega dentro de si ideias muito fortes sobre a ideia de possíveis raças inteligentes universo à fora. Desde o seu encontro com as Medusas – raça semi-senciente habitante de Júpiter –, na novela de Clark, o comandante passa a acredita que diante de uma inteligência alienígena, ou mesmo da possibilidade do surgimento dela, o homem deve se isentar de atrapalhar o desenvolvimento de tais seres e auxiliar na não-intrusivamente na formação intelectual de tais seres. Se não por ser isto o que dita a boa moral, porque no vasto universo haveriam raças esclarecidas que poderiam julgar e condenar as ações da humanidade perante outras espécies inteligentes.

Essa característica primordial do personagem acaba sendo não só uma particularidade pessoal, mas parte do mote de toda a história e também motivador da trama. Devido a essa crença, o personagem permite que os robôs alcancem a inteligência plena, dando oportunidade para que desenvolvam sua sociedade e cultura. Motivo puramente altruísta e que é testado diversas vezes durante a trama conforme o relacionamento homem-máquina se complica.

O foco em Howard Falcon é imprescindível para a narrativa. Ele é imortal que atravessa os séculos e presencia queda de nações, destruições de planetas e histórias de famílias longevas. É uma necessidade da trama. Uma consequência desagradável disso, no entanto, é que os personagens coadjuvantes são sempre breves e pouco desenvolvidos. É possível criar certa simpatia por Hope Dhoni, médica de Howard que recebe tratamento para estender a própria vida, mas mesmo ela acaba tendo pouco destaque e é percebida apenas através das lentes de Howard, mas não cria ligação com o leitor. Adam, contudo, consegue ter uma importância maior. Tão essencial quanto o comandante, faz as vezes de sua contraparte. Embora suas aparições sejam poucas e breves, sempre está presente nos momentos mais importantes do livro.

Tanto quanto as questões envolvendo a interação entre espécies inteligentes diferentes, o livro também desenvolve bem a evolução tecnológica e cultural humana. Não é um foco da obra, mas conforme Falcon atravessa as eras esse quesito está sempre presente e os caminhos que a humanidade percorre acabam sendo apresentados – ou pelo menos mencionados – para mostrar as mudanças trazidas pelos tempos. Esse desenvolvimento é imprescindível para que o livro não se tornasse por demais inverossímil, com uma cultura estática e falsamente imutável, e embora nem sempre tenha um aprofundamento, é satisfatório e interessante.


Um dos maiores poréns do livro se deve à própria escolha de sua estrutura. De forma semelhante aos coadjuvantes pouco aprofundados, a trama não se dá tempo para explorar cenas e visões individuais com muito afinco, o que faz com que nenhum acontecimento ou sequencia – com exceção dos momentos finais da obra – sejam particularmente marcantes. É quase como se tudo passasse muito rápido, ou tivesse muita pouca importância, mesmo os instantes que mais cativam Falcon. Isso, no entanto, acaba sendo mais do que perdoável, mas esperado. A proposta do livro é mais sobre comunicar ideias, conceitos e história, apresentando uma cruel passagem de tempo onde tudo é deixado para trás.

Apesar de ser uma ficção científica muito bem estabelecida dentro de seu gênero, As Crônicas de Medusa não é uma obra complicada. Iniciantes na sci-fi não terão muita dificuldade em adentrar na história, pois mesmo usando conceitos científicos em profusão, tudo é muito bem explicado e apresentado com simplicidade. Os veteranos podem acabar mais divididos quanto ao livro, embora provavelmente venham a ter uma experiência leve, prazerosa e bem amarrada.

Murilo Oliveira, também conhecido como Muriloverso, é jornalista e redator-chefe do site O Vício. Comandando o canal homônimo no YouTube, ele compartilha sua paixão por cultura pop, trazendo análises, curiosidades e conteúdo geek com uma abordagem única e carismática.