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Escrito a quatro mãos, Belas Maldições é uma obra conjunta de dois dos mais famosos escritores britânicos de fantasia: Terry Pratchett, autor da longeva série de fantasia cômica Discworld, com seus mais de 40 livros, e Neil Gaiman, o “rockstar” da literatura fantástica que escreveu Sandman e Deuses Americanos. O título trata da chegada do nascimento e revelação do filho de Satã e da chegada do apocalipse, tudo apresentado em um humor britânico irreverente e cheio de acenos à direção de Guia do Mochileiro das Galáxias, cujo estilo influenciou também outras obras de Pratchett e de Gaiman. No entanto, Belas Maldições se sustenta por si só, trazendo uma história sólida, uma narrativa refrescante e todas os erros estúpidos e inefáveis que podem acontecer quando se tenta causar o apocalipse.
Na trama, um anjo e um demônio acabam criando laços de amizade por preferirem o mundo dos humanos à suas próprias obrigações divinas (ou profanas). No entanto, com o nascimento do filho do anticristo, a iminente, suas preferências pela modernidade acabam na iminência de serem frustradas devido á destruição global. A dupla, então, acaba decidindo contestar o plano inefável de Deus, fazendo com que o anticristo tenha a oportunidade de se decidir entre o bem e o mal e, quem sabe, não causar o fim do mundo. Mas um erro estúpido e humano faz com que os bebês sejam trocados e o filho de Satã acabe sendo criado numa cidadezinha do interior da Inglaterra, longe das atenções de qualquer entidade. Conforme o armageddon se aproxima, anjos, demônios, caçadores de bruxas, crianças encrenqueiras e a descendente de uma bruxa que previu tudo o que iria acontecer acabam se envolvendo numa história cheia de desencontros, ironias e de estupidez humana (e angelical [e demoníaca {e também canina}]).
A obra é muito bem construída. Simples, mas escapando do trivial. A narrativa dos autores segue com muita leveza e fluidez, sem trair em momento nenhum a mudança de mãos. Tanto Gaiman quanto Pratchett são mestres em um estilo humor sutil, irreverente e tresloucadamente crítico. As situações são de um comum levado ao absurdo, fazendo graça das questões divinas, demoníacas, da natureza humana e do próprio fim do mundo. É uma obra difícil de se desgostar, com um humor inteligente, mas não obscuro. É essencialmente britânico, e talvez algumas referências ou tiradas engraçadas passem batido para certos leitores, mas isso não interfere na quantidade de momentos interessantes que o livro tem para oferecer.
É possível que tenha mais de Pratchett do que de Gaiman na obra. Muito da comédia evoca mais as obras do primeiro autor, em Discworld, enquanto o ambiente moderno, urbano e os personagens ao mesmo tempo corriqueiros e absurdos remete mais a livros que Gaiman viria escrever após Belas Maldições. Devido ao estilo, que também permeia outras obras dos autores, é impossível não lembrar do, também britânico, Douglas Adams e seu Guia do Mochileiro das Galáxias. Em seu quesito humor, talvez o Guia saia na frente, mas a obra da dupla não fica à sua sombra e consegue ser única, conquistando seu espaço. Belas Maldições não consegue, também, trazer críticas sociais tão apuradas e mordazes quanto o Guia, embora enquanto romance seja superior em sua trama e estrutura.
Os personagens da obra são muito bem desenvolvidos, cativantes, engraçados e pitorescos na medida correta. Todos são bem únicos e tem o seu próprio carisma. Foram criados na medida certa para se adequar ao tom da trama e ás situações que precisam enfrentar. De fato, não conseguissem balancear bem os protagonistas, os escritores teriam problemas em levar a história adiante e conseguir o efeito cômico desejado.
O personagem Newton Pulsifer é um dos mais divertidos, acidentalmente caçador de bruxas, lembra tanto outros que Gaiman escreveria, como Fat Charlie, de Filhos de Anansi, e Richard Mayhew, de Lugar Nenhum, que logo se pondera não ter sido essa a sua principal criação. A bruxa Anathema Device, que se manifesta através do livro de previsões que a sua descendente profissional, Agnes Nutter, herdou, também tem todo um destaque. A própria Agnes é muito bem colocada, bastante carismática e tendo ótimos momentos ao lado de Pulsifer.
E é na relação entre os protagonistas que o livro encontra o seu maior ponto forte. Talvez emulando o contraste de Pratchett e Gaiman, os diálogos e discussões são agradáveis de se ler e bastante engraçados. É de se pensar que a dupla formada pelo demônio Crowley e pelo anjo Aziraphale seja até mesmo uma representação da dupla de autores. As conversas entre os dois são bem desenvolvidas e particularmente carregadas do sarcasmo cômico britânico. Individualmente, Crowley ganha a dianteira, enquanto Aziraphale funciona melhor quando outros –ou a narração – estão fazendo piadas sobre ele. Não é tanta surpresa que anjos não sejam engraçados por eles mesmos.
Outras figuras tem bastante destaque, como Adam, o anticristo pré-adolescente e seu grupo de amigos. As cenas com as crianças são interessantes, mais calmas que os momentos agitados dos outros personagens, e ditam o ritmo do livro.
Seria difícil dizer, contudo, que todos os protagonistas tem a mesma importância na obra. Alguns deles seriam dispensáveis para a trama com alterações pequenas, que inclusive encurtariam o livro. A presença de tais personagens mais parece vir da vontade dos autores incluí-los do que de uma exigência da trama principal. Entretanto, trazem ótimas cenas e momentos de humor bem trabalhados, de forma que a exclusão acabaria não beneficiando Belas Maldições, mas diminuindo.
Apesar de não fazer graça diretamente com a figura do deus cristão, a obra baseia sua comicidade em muitos conceitos da mitologia bíblica, além de diversos atos divinos que são apresentados em tal livro sagrado. Fazer graça de uma ou mais religiões não é de forma alguma o objetivo da obra, mas devido ás suas bases e inspirações, além de colocar um demônio e um anjo como aliados, o livro talvez desagrade leitores que sejam muito fervorosos em suas convicções cristãs, podendo se sentir ofendidos com o trabalho dos autores. Mas a questão da religiosidade não é de forma nenhum um “fim” na obra, e sim um “meio”, o condutor do conceito e da ideia da trama.
Muito mais do que questões divinas, contudo o livro se foca nos humanos, seus modos e desencontros. E nesse aspecto ele acabou envelhecendo muito bem. Baseado na época em que foi escrito, é possível perceber todo um jeitão de fim dos anos 80 e início dos anos 90 na história, forma como os personagens se comportam e em todo ambiente em si. Se em sua publicação era mais sobre um humor britânico urbano, hoje em dia acaba tendo também essa outra conotação de se referir, e fazer graça, muito bom da época em que foi criado.
Belas Maldições é um livro divertido. Não está entre as maiores obras de cada autor, mas tem um papel diferenciado de trazer a colaboração de dois grandes escritores de fantasia. É uma obra fácil de se ler, traz personagens e eventos bem bolados e tem um humor ao mesmo tempo sutil e simples de se apreender. Os fãs tanto de Pratchett quanto dos livros de Gaiman podem ter um bom tempo com a obra, enquanto os leitores de Sandman talvez sintam-se um pouco deslocados. Aos que tem o Guia do Mochileiro das Galáxias no coração, vão ter uma boa aposta em Belas Maldições, ainda que este seja menos relevante e também menos bem bolado do que a obra de Douglas Adams.