
Em um cenário dominado por fantasias “anão, elfo e dragão” genéricas, uma mudança de ares sempre é bem vinda. Com a “medievalidade europeia” prevalecendo sobre outras culturas e histórias dentro desse segmento da literatura fantástica, se torna não apenas apreciável, mas necessário, o uso de mitologias, estéticas e ideias vindas de outros povos. Essa fuga do que se estabeleceu como “fantasia medieval” já acontece a algum tempo no exterior, onde obras começam a explorar a África ou o oriente. No Brasil, no entanto, uma ideia mais antiga, talvez mais clássica, ainda está muito forte, e constantemente algum autor se aventura numa obra tolkeniana até demais. Nessas circunstâncias, Canção dos Shenlongs, de Diogo Andrade, novela inspirada tanto no estilo do wuxia quanto na cultura e mitologia chinesa, consegue sair do lugar comum com facilidade, entregando um mundo com todo um apelo próprio e uma trama que – mesmo estando muito longe de ser inovadora – acaba sendo satisfatória.
Na trama, o monge Mu acaba precisando presenciar a expulsão de seu irmão Ruk. Devido a um incidente em um vilarejo próximo Ruk havia quebrado as regras do monastério de Shanjin e obrigado a deixar a ordem. Para Mu, a dor da perda logo é substituída pelo medo do futuro quando um espadachim misterioso traz a notícia de que o Império Housai pretende atacar os Quatro Templos. Os monges de Shanjin se preparam para a batalha, fortificando sua casa. Não sabem como as forças do Imperador irão atravessar a barreira que protege o templo e impede estranhos de se aproximaram, mas sabem que terão que lutar. Em meio a isso, Mu acaba descobrindo o seu destino e aprende que mais do que imaginava está em jogo.
A novela se passa inteiramente no Templo de Shanjin, mas Diogo Andrade não se limita a descrever apenas o monastério, dando pinceladas da mitologia que está construindo e também do Império de Housai. A obra foi claramente escrita como um prólogo de algo maior, e seu objetivo principal acaba sendo mais apresentar um universo ficcional novo do que realmente criar um gancho para um romance mais extenso. É uma aposta muito boa. Mesmo não sendo complexo ou de difícil entendimento, são poucos os leitores que estão acostumados tanto com conceitos quanto com a estética de uma “fantasia oriental” e Canção dos Shenlongs funciona perfeitamente para ir aclimatando leitores incautos e introduzir o seu estilo e o funcionamento de seu mundo.
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Isso o autor consegue fazer muito bem. Apesar da obra ser curta, ele não vai saltando direto para a ação. Toma tempo para apresentar o funcionamento do monastério, a filosofia que os monges seguem, a fonte de suas habilidades extraordinárias, e também a sua relação com um mundo. Andrade consegue dosar bem a quantidade de informação para fazer com que um leitor que desconheça de histórias orientais consiga entender a ambientação ao mesmo tempo em que alguém com mais conhecimento no campo seja convencido da proposta. Em questão de “mundo fantástico”, apesar da trama sucinta, Canção dos Shenlongs definitivamente não é uma fantasia medieval travestida de signos orientais, mas algo novo, pensado para uma estética diferente.
Se é possível encontrar um grande diferencial na construção da ambientação, o mesmo não pode ser dito da trama de Canção dos Shenlongs. A história é simples e segue um modelo bem conhecido para lançar o protagonista fora de sua zona de conforto e reserva pouquíssimas surpresas para o leitor. Isso não chega a ser um problema, pois apesar de ser comum em outros tipos de fantasia épica, os acontecimentos emulam tropes bem conhecidos em filmes de kung fu e outras obras ao estilo wuxia. O objetivo claramente não é impressionar com a trama em si, mas usar a simplicidade e o lugar comum para ajudar na apresentação do mundo criado por Diogo Andrade. E isso é feito com um ritmo bastante adequado, sendo quebrado apenas em um momento, quando as questões envolvendo a expulsão de Ruk são deixadas um pouco de lado e a sombra da vinda do Império começa a pairar sobre o Templo. Há claramente uma divisão no ponto que começa com a vinda do espadachim que faz parecer que se está começando outra obra, e não que o que já foi iniciado está continuando.
A escolha da narrativa em primeira pessoa acaba caindo bem para o teor. Pois mesmo o leitor tendo plena certeza dos acontecimentos que se seguirão, ele acompanha os desenlaces através do olhar de Mu, que acaba se preocupando menos com o porvir do que com o agora, quase já com saudades da época que narra. Isso faz com que o percurso dele seja muito relevante e, mais do que isso, suas atividades cotidianas, impressões pessoais e relacionamento com os coadjuvantes. Muitos autores iniciantes acabam utilizando muito mau a narrativa em primeira pessoa, caindo na armadilha de acreditarem estar explorando a personalidade e sentimentos do protagonista. Felizmente, não é o caso de Diogo Andrade, que consegue trabalhar bem o estilo, passando impressões e emoções factíveis, relevantes para a trama e com bom desenvolvimento. Sua técnica desliza apenas mais para o fim da obra, nos momentos de ação em que resolve descrever metodicamente as ações do protagonista mesmo quando ele está sob pressão. A sequencia dele manuseando um artefato acaba se estendendo e trazendo detalhes desnecessários e que não seriam percebidos daquela forma por uma pessoa cheia de pressa e medo. No entanto, as cenas de luta conseguem ser tratadas de forma adequada e podem convencer o leitor.
Apesar de ser bem utilizado na narrativa, o protagonista Mu sofre de uma maldição relativamente comum à histórias narradas em primeira pessoa: ele parece muito menos interessante do que os personagens com quem interage. As impressões do monge sobre os seus colegas fazem com que os coadjuvantes se tornem bastante carismáticos e com personalidades bem distintas. A dedicação do autor em apresentar o funcionamento do Templo faz um bem enorme aos personagens secundários. Já Mu precisa ser observado através de suas próprias inseguranças e inquietações, sem uma visão externa para lhe definir. E a narrativa não consegue criar uma imagem tão sólida dele. Um pouco vazio, e fazendo o estilo de protagonista esforçado, mas que não se destaca em nada, acaba sendo o menos interessante de todos que são apresentados. Um possível reflexo do próprio Mu não querer destacar a si mesmo.
Se tratando de uma fantasia épica, não poderiam faltar lutas e combates. Diogo Andrade consegue descrevê-las bem. Embora não cheguem a saltar aos olhos, cumprem o seu papel, acabando por ficar atrás de sua apresentação de momentos pacíficos. Durante as sequencias finais da obra, o autor consegue apresentar muito bem o funcionamento da “magia” de seu mundo, que acaba indo mais para o lado do misticismo oriental. Contudo, curiosamente a impressão que fica é que há… pouco kung fu na história. Mesmo aproveitando muitos tropes e ideias de filmes wuxia, parece faltar nas lutas referências explicitas à formas, posturas e golpes cheios de nomes elaborados e espalhafatosos que remetam ao gênero. Isso não é de forma alguma um defeito, mas talvez venha de uma decisão curiosa para uma história cheia de misticismo e de aspectos sobrenaturais.
A Canção dos Shenlongs é uma obra nacional interessante e atraente para quem gosta de fantasia épica. Em questão de estilo e técnica, Diogo Andrade ainda não consegue se distinguir nesse lançamento, embora ofereça uma experiência bem satisfatória. É o seu mundo e sua ideia que mais chamam a atenção. Sua oferta de algo que fuja da estética da fantasia medieval comum é muito bem vinda, e oferece boas promessas quanto ás suas obras futuras. Com sua novela, o autor se mostra muito promissor, começando com uma obra mais sólida do que as publicações do início de carreira de alguns dos grandes nomes da fantasia nacional.