Ganhadora de diversos prêmios desde o seu lançamento em 2000, Estação Perdido, a segunda obra de China Miéville, um dos expoentes do gênero New Weird, é merecedora de cada uma de suas conquistas. O livro se situa mostra a metrópole de Nova Crobuzon, cidade situada no mundo de Bas-Lag, que combina fantasia, ficção científica, terror e estranhezas em um modelo de mundo bastante verossímil e, muitas vezes, inquietantemente real. Declaradamente pertencente a esquerda política, chegando até mesmo a ter fundado um partido socialista na Inglaterra, o autor faz questão de subverter os idealismos e fábulas muito encontrados na fantasia e sua cidade-personagem tem todo um estilo dickensiano onde se deixa de lado os reis benevolentes e seus reinos idealizados do gênero fantástico e se apresenta um capitalismo desigual em uma democracia que poderia ser chamada de distópica, não fosse tão pautada na realidade.
O livro logo começa apresentando o casal de personagens que coloca a maior parte da história em seguimento. Isaac der Grimnebulin, um cientista que tenta juntar magia e todos os campos da ciência em sua teoria da “energia de crise”, e sua namorada, Lin, uma artista khepri, raça de mulheres com cabeças de besouro que possuem a capacidade de criar belas estátuas com seus excrementos de artrópode. Sem pressa, a trama vai mostrando a vida do casal e de seus amigos, explorando aos poucos Nova Crobuzon, com a trama principal, lentamente sendo desenvolvida quando Yagahrek, um membro da raça garuda de homens-pássaro cujas asas foram amputadas, contrata der Grimnebulin para devolver-lhe a capacidade de voar. Ao longo de suas investigações, Isaac explora sua cidade e diversos campos científicos, até que tudo pareça indicar que a solução para o problema de Yagahrek reside no seu grande ramo de pesquisa, a ainda teórica energia de crise. No entanto, antes que possa trazer uma solução para o garuda, o excêntrico e desbocado cientista acaba trazendo para a cidade uma praga estranha que causa temores até mesmo nos embaixadores do inferno.
As relações de Grimnebulin, Lin, Yagahrek e os outros indivíduos – maiores e menores – que eles encontram são bem desenvolvidas, com suas motivações progredindo aos poucos e sua história pregressa sendo bastante explorada. No entanto, é de se considerar que talvez o maior personagem de Estação Perdido, seja a própria cidade de Nova Crobuzon. Miéville se dedica muito a delinear e desenvolver o local, dando atenção especial às descrições de seus vários bairros, sua arquitetura inconstante e, principalmente, à atividade que fervilha em seu meio. O autor faz questão de sempre demonstrar o movimento, ou a falta dele, dos inúmeros habitantes da cidade, e após o prólogo, é exatamente assim que a história começa: com uma descrição magistral da atividade e o cotidiano de uma feira popular. As imagens que Miéville lança são muito vívidas, com descrições muito felizes em projetar os aspectos físicos e estáticos dos becos sujos, dos prédios decadentes, daqueles marcos impressionantes e inquietantes ao mesmo tempo em que narra as pessoas que ocupam tais espaços, suas vidas e interações. É impossível terminar a leitura sem relacionar o que foi lido a um ambiente real de uma cidade real. Mais longe do que isso, não deve ser difícil para o leitor que mora em alguma metrópole ver a sua morada descrita em Nova Crobuzon.

Ás vezes de forma discreta, outras de forma ostensiva – em uma beleza sagaz e desnecessária, mas ainda assim beleza – uma outra história é contada por traz da trama de Grimnebulin. Enquanto o cientista está às voltas com seus experimentos ou tentando combater o mau que causou, a vida na cidade continua, com suas pessoas e relações e história dispares e paralelas, mostrando que existe um mundo por trás dos personagens, não apenas o pano de fundo pintado e falso de uma peça de teatro. Miéville não conta apenas uma história, mas mostra um ecossistema funcionando em seu ambiente cruel e cheio de idiossincrasias. Uma sociedade complexa, injusta e moderna, em constante atritos políticos, morais e filosóficos, onde se vive e se morre em um cotidiano cheio de alegrias e dissabores.
O autor se esforça para explorar as diferentes paisagens e vidas de Nova Crobuzon, parecendo realmente querer mostrar como os personagens – tanto protagonistas quanto os quase invisíveis – se relacionam e coabitam naquele meio. Construir um mundo impiedosamente verossímil de desigualdades e injustiças foi um objetivo bem alcançado do livro. Mas nisto reside também um problema, tirando os momentos que oferecem descrições panorâmicas da cidade, nem sempre os diferentes bairros da cidade parecem fazer parte de um mesmo ambiente, mas retalhos deslocados que não parecem interagir entre si. Mas afinal de contas, considerando a segregação cultural, racial e sócio-espacial que existe em muitas metrópoles, o quanto disto, de fato, é um erro?

As críticas ao capitalismo e uma demonstração da crise da democracia representativa estão bem claros no livro. Mesmo passado em um universo ficcional, também é fácil de pensar em Estação Perdido como enquadrado na ideia de Estética Marxista, com o foco que se coloca na economia e no social para determinar as relações entre as diferentes classes e o enfoque na vida cotidiana do povo. No entanto, o livro não busca pregar uma ideologia ou uma moral, os paralelos com a realidade estão lá, mas não são o objetivo do livro, que tem uma história e uma ambientação voltadas para si mesmas e não para ostensivamente transmitir uma tese sobre o mundo. As crenças de Miéville se apresentam mais nas escolhas dele de como escrever sua obra do que na história e no mundo que ele compôs.
E nesse sentido, fosse outro a desenvolver a trama de Estação Perdido, ou talvez outra a ser o editor do livro, a obra poderia ter menos da metade de seu tamanho. Dentro do que muitos consideram adequado ou esperável – ou até mesmo, vendável – nas obras do campo da fantasia, o primeiro romance da Saga Bas-Lag poderia começar quase que exatamente em sua metade; no momento em que Isaac der Grimnebulin encontra um cadáver e descobre que tudo está dando errado. Enxuto, direto, sem gorduras e começando tão próximo do fim quanto perdido: considerações que teriam cortado mais de 300 páginas e tirado o que tem de melhor em Estação Perdido.
Na ficção, seja fantasia, científica ou qualquer outra, por vezes o sabor está nos excessos, nos apêndices mau aparados, e nesse sentido, Estação Perdido tem uma agradável quantidade de gordura e fiapos em sua trama. Se tem um momento em que Miéville acaba oscilando na qualidade é justamente lá pro final da obra, quando ele se foca nos acontecimentos “principais” e deixa um pouco de lado as outras visões dos pequenos grandes personagens e nos acontecimentos cotidianos, vivos e verossímeis de Nova Crobuzon.





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