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O primeiro japonês a receber o Nobel de Literatura, Yasunari Kawabata estava então com 69 anos à época em que recebeu o prêmio, em 1968. Esse Kawabata laureado ainda não existia trinta e oito anos antes, em 1930, quando foi lançado o romance que reunia os fragmentos publicados em jornal de A Gangue Escarlate de Asakusa. Era então, mais novo e ainda encontrando a voz e a técnica literária que o levariam à premiação. A Gangue Escarlate de Asakusa é, portanto, amostra do desenvolvimento de um grande autor, trazendo uma história urbana, que mistura fato com ficção enquanto apresenta o cotidiano sortido e quase-fantástico de um decadente bairro dos prazeres na Tokyo da década de 20. Obra interessante e promissora, atrai mais pelo nome que o autor conquistou, e só então pela crueza quase sutil de seus relatos.
O grande protagonista é o bairro de Asakusa. Decadente bairro dos prazeres, traz a estranha combinação do sagrado na presença do grande templo de Kannon e do profano na forma de seus vários mendigos, prostitutas, criminosos e grupos de teatro à margem da sociedade. Autor se mistura com personagem e com as personalidades que ele dá vida, nesta obra. Frequentado por muitos jovens universitários e escritores, um dos hospedes passageiros de Asakusa foi o próprio Kawabata, que escreveu sobre suas figuras em um misto de jornalismo e literatura para um jornal. O bairro ganha vida, mas não a partir de descrições de suas características ou de seus pontos de interesse, mas devido a rede de habitantes – em geral, membros da Gangue Escarlate – que vai sendo tecida pelo autor, bem como da história e cultura do lugar.
A narrativa de A Gangue Escarlate de Asakusa é certamente não-convencional. Difícil pensar numa história ou numa linha coesa de acontecimentos. Em cada capítulo, dentro de cada segmento publicado nos jornais, o autor vai apresentando episódios retirados no seu dia-a-dia de interação com as pessoas do bairro. Dançarinas, bandidos, trombadinhas, prostitutas adultas e prostitutas infantis são algumas das personalidades que figuram em seu fluxo de consciência quase onírico, que perambula pelo bairro e sua realidade como num passeio calmo, mas desordenado.
História é o ponto principal do trabalho. Não só os relatos sobre como Kawabata – este sempre presente, mas pouco protagonista – conheceu as diversas pessoas, e soube dos mendigos e loucas e mitos da região. Ou mesmo das histórias tragicamente cotidianas dessas pessoas. O próprio bairro de Asakusa é explorado em seus modos e histórias, revelando a identidade que o lugar possuía durante os anos em que foi explorado pelo autor.
E Kawabata nunca se exime de mostrar como a cultura e a realidade do Japão da época – que passava por sérios problemas econômicos e começava a receber influência cada vez maior do ocidente – formava a realidade de Asakusa. É quase como um mergulho na identidade do bairro, disparando aos poucos, mas com frequência, ideias, imagens e informações para que se possa ser possível formar uma imagem, uma realidade do que seria a alma do bairro e como ela se formou.
Certamente em sua época e local de lançamento, a obra trazia uma experiência completamente diferente. No Japão de 1930, A Gangue Escarlate de Asakusa talvez tivesse um caráter quase documental, onde o leitor poderia entender a formação do lugar e se chocar com as histórias sórdidas e as figuras e acontecimentos do bairro. Uma revelação de uma realidade que está logo atrás da capa do cotidiano, um conhecer da pobreza, miséria e da vida quase fabulosa que existia logo ali, nos arredores do Templo Kannon.
Para o leitor contemporâneo e não japonês, a Gangue Escarlate de Asakusa se torna mais uma viagem a um passado e a uma mentalidade diferente. Uma busca por mergulhar em um lugar exótico, de certa forma familiar, degradante e sujo, certamente, mas com um que de fantástico, de secreto, que salta os olhos como se pudesse existir paralelo a qualquer lugar já conhecido. Uma obra japonesa, de décadas atrás, mas que pode fomentar um desejo estranho de ver o que o local, o que o Brasil pode apresentar em seus bairros populares, e festas e feiras e tudo o que é tão comum nas grandes cidades que passa despercebido na loucura do cotidiano casa-trabalho-casa.
A Gangue Escarlate de Asakusa pode não agradar a todos, mas é um livro interessante, curto e muito fácil de se ler. Acaba sendo mais agradável para os que tem um apreço pelo Japão, por sua história e seus costumes. Mas, amostra primitiva do trabalho de Kawabata ou não, ele carrega uma dose de atemporalidade e um leitor desavisado corre o risco de se interessar pelo o que existe de nipônico no livro e se pegar ruminando sobre as diversas imagens e questões que a obra traz. Imagens e questões tão características de Asakusa, mas que traçam paralelos com muitos outros lugares.
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